terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Família

Família é prato difícil de preparar 
(Trecho do Livro "O Arroz de Palma”, de Francisco Azevedo).
Colaboração: Silvério Reis




São muitos ingredientes. Reunir todos é um problema, principalmente no Natal e no Ano Novo. Pouco importa a qualidade da panela, fazer uma família exige coragem, devoção e paciência. Não é para qualquer um. Os truques, os segredos, o imprevisível. Às vezes, dá até vontade de desistir. Preferimos o desconforto do estômago vazio. Vêm a preguiça, a conhecida falta de imaginação sobre o que se vai comer e aquele fastio diante de especiarias amargas de engolir. Mas a vida, (azeitona verde no palito) sempre arruma um jeito de nos entusiasmar e abrir o apetite. O tempo põe a mesa, determina o número de cadeiras e os lugares. Súbito, feito milagre, a família está servida. Fulana sai a mais inteligente de todas. Beltrano veio no ponto, é o mais brincalhão e comunicativo, unanimidade. Sicrano, quem diria? Solou, endureceu, murchou antes do tempo. O outro quer  porçõs individuais, tudo para si. Este é o mais gordo, generoso, farto, abundante. Aquele o que surpreendeu e foi morar longe. Ela, a mais apaixonada. A outra, a mais consistente.
E você?  É, você mesmo, que me lê os pensamentos e veio aqui me fazer companhia. Como saiu no álbum de retratos? O mais prático e objetivo? A mais sentimental? A mais prestativa? O que nunca se importou com o outro? Seja quem for não fique aí reclamando do gênero e do grau comparativo. Reúna essas tantas afinidades e antipatias que fazem parte da sua vida. Não há pressa. Eu espero. Já estão aí? Todas? Ótimo. Agora, ponha o avental, pegue a tábua, a faca mais afiada e tome alguns cuidados. Logo, logo, você também estará cheirando a alho e cebola. Não se envergonhe de chorar. Família é prato que emociona. E a gente chora mesmo. De alegria, de raiva ou de tristeza.
Primeiro cuidado: temperos exóticos alteram o sabor do parentesco. Mas, se misturadas com delicadeza, estas especiarias, que quase sempre vêm da África e do Oriente e nos parecem estranhas ao paladar tornam a família muito mais colorida, interessante e saborosa.
Atenção também com os pesos e as medidas (eles são fundamentais), agregam ou desagregam. Uma pitada a mais disso ou daquilo e, pronto, é um verdadeiro desastre. Família é prato extremamente sensível. Tudo tem de ser muito bem pesado, muito bem medido. Outra coisa: é preciso ter boa mão, ser profissional. Principalmente na hora que se decide meter a colher. Saber meter a colher é verdadeira arte. Uma grande amiga minha desandou a receita de toda a família, só porque meteu a colher na hora errada.
O pior é que ainda tem gente que acredita na receita da família perfeita. Bobagem. Tudo ilusão. Não existe Família à Oswaldo Aranha; Família à Rossini, Família à Belle Meuni; Família ao Molho Pardo, em que o sangue é fundamental para o preparo da iguaria. Família é afinidade, é a  Moda da Casa. E cada casa gosta de preparar a família a seu jeito.
Há famílias doces. Outras, meio amargas. Outras apimentadíssimas. Há também as que não têm gosto de nada, seria assim um tipo de Família Dieta, que você suporta só para manter a linha.  Seja como for, família é prato que deve ser servido sempre quente, quentíssimo.
Uma família fria é insuportável, impossível de se engolir. Enfim, receita de família não se copia se inventa. A gente vai aprendendo aos poucos, improvisando e transmitindo o que sabe no dia a dia. A gente cata um registro ali, de alguém que sabe e conta, e outro aqui, que ficou e não sabe o valor da família que tem. Muita coisa se perde na lembrança e muita coisa nunca será esquecida. O que este veterano cozinheiro pode dizer é que, por mais sem graça, por pior que seja o paladar, família é prato que você tem que experimentar e comer. Se puder saborear, saboreie. Não ligue para etiquetas. Passe o pão naquele molhinho que ficou na porcelana, na louça, no alumínio ou no barro. Aproveite ao máximo. Família é prato que, quando se acaba, nunca mais se repete. 

5 comentários:

Brasigrega disse...

O texto é seu?
Maravilhoso!!!
Um abraço,
Marineide
Feliz 2011
http://marciagrega.blogspot.com
http://brasigrega.blogspot.co,

Silene Neves disse...

Oi Querida Sil...

Lindo post! Texto excelente!

Beijo e carinho pra ti!

Sil
Sempre aqui

Suzana Martins disse...

Minha querida Sil,

você e suas mensagens encantadoras!!!

Minha linda, obrigaada pela deliciosa companhia em 2010, obrigada pelas palavras, pelo carinho.... Obrigada por ser essa pessoa especial!!!!

Que em 2011 possamos nos encontrar ainda mais!!!

Beijos e beijos no seu coração!!!

Feliz 2011!!!

Adoro vc

T@ty disse...

Maravilhoso Sil...

Como é bom passar por aqui e encontrar palavras, trechos e versos, homenagens e versos tão encantadores.

Amei o texto...

Beijos

Tatiana Kielberman disse...

Querida Sil,

Demorei, mas cá estou nesse cantinho que é tão querido para mim!

E realmente, para ler essas textos tão profundos, só mesmo com muita calma para degustar cada linha!

Essa é uma bela reflexão sobre família e sobre valores que andam meio perdidos no mundo de hoje... como resgatá-los?

Não sei... acho que só quando a gente perde é que realmente dá o devido valor! Quem sabe, em 2011, conseguimos nos propor a ter um olhar mais refinado para nossos entes queridos antes que seja tarde!

Beijos, te adoro!
Obrigada por nos trazer tão bela reflexão!