terça-feira, 19 de abril de 2011

A cadeira vazia

Por: Paulo Diesel 



Se a cadeira estava parada no canto da sala vazia era por algum motivo. Só ela, mais nada. Nada ao redor, nem mesa, nem estofado, nem estante, nem tapete, aó ela, a cadeira em frente a janela aberta, como que a imaginar o movimento das folhas da jabuticabeira lá fora, o cachorro que corre atrás da bola jogada pelo Pedrinho, a colheitadeira mais ao longe, conduzida pelo João, no milharal, o trem movido a vapor que apitava bem distante e se arrastava morro acima sobre os trilhos da ferrovia, as nuvens escuras que anunciavam o cair da tarde. A cadeira vazia que permanecia imóvel naquela sala sentia-se solitária, pois a pouco a casa era repleta de móveis, de pessoas, de sons que misturavam-se e completavam-se. A cadeira testemunhou muitos diálogos, muitas negociações, muitas brigas e reconciliações e brigas e reconciliações e brigas definitivas. Talvez tenha sido este o motivo: testemunha ocular, abrigo de um e de outro, ombro amigo no choro do desespero, da indignação, da esperança e da separação total. Primeiro foi-se o João naquele Opala Comodoro preto em que de longe ouvia-se o uivar do cão e via-se o olhar tristonho de quem percebeu toda a situação, depois ela, levando consigo Pedrinho, o pen drive com as músicas e fotos de toda história e os CD’s dos Beatles que sempre escutavam. A casa por meses ficou fechada, sem sons, sem gritos de crianças, sem cão correndo, sem pessoas. No jardim as flores que ela cuidava morreram todas, talvez de solidão, talvez de saudades. No pomar as frutas caídas ao chão e os milhos colhidos pelo pessoal da Associação. Dia após dia via-se o abandono por todos os lados, até que o caminhão da transportadora carregou tudo: o quarto, os móveis da sala, as tv’s, o estofado, os vasos com flores, os quadros… A cadeira permanecia, ali, vazia e solitária, testemunha e cúmplice (sem culpa) de fatos e atos que, talvez, se repetirão assim que a propriedade rural for vendida e outros, homens, mulheres, crianças, vivenciem tudo novamente. Se a cadeira estava parada em frente a janela, no canto ou no meio da sala, deve ser por algum motivo.

10 comentários:

Sandra Cajado disse...
Este comentário foi removido por um administrador do blog.
Sandra Cajado disse...

#Corrigindo

Quando a cadeira está parada em algum canto é por algum motivo.

E a dita (bem)dita cadeira com certeza serviu de testemunha alicerce para consolidar amores e foi testemunha dos movimentos de amor que por lá houve, e em tais momentos ao som de "Michelle" ou "Let it be".

Acontece que chegou determinado ponto que o ramance com as flores do jardim já mudou de melodia e em vez Oh Darling, passou pra Help prosseguindo ao ombro do amigo com » Stand by me...

Ah cadeira...Se tu falasses!

Acho que sai um pouco do contexto mas...eu viajei por aqui e até estou no youtube ouvindo meus amados "The Beatles"

Beijos.

marialeticiabomfim disse...

È sem dúvida um texto intrigante te faz vir a mente um turbilhão de coisas de que como tudo nesta vida passa mesmo!
Me fez lembrar de São Bernardo um livro onde a fazenda era tocada a todo vapor e derrepente se vê abandonada. E se a cadeira ficou lá intacta é porque algum propósito tinha! Agora cabe a nossa imaginação dar um destino a ela! E aí?
As vezes mesmo só aparentemente só sinto-me melhor do que se estivesse rodeada de movimentos! É isso tudo passa!! Os tratores, as crianças, o trem movido a vapor o que não passa são as nossas boas recordações!

Du disse...

Eu sou um cadeira vazia como a tua, só a observar, esperando que alguém ou algo preencha o vazio instalado no peito. Tem jeito?

Belo texto, parabéns!

coisasdelouco disse...

Oi Paulo...

Absolutamente comovente! E a casa vazia com a cadeira em frente a janela... Esta imagem nos preenche... E a imaginação de prontidão acompanha o texto nos trazendo tantas e tantas recordações...

Não sei se saudade ou apenas constatação... Memória poética como diria Kundera talvez...

Mas, há em nós algo como àquela cadeira... Algo que tudo observa, tudo testemunha; e de alguma forma registra calada...

beijocas-delírios

Sil Villas-Boas disse...

Bom dia Paulo.

Tua crônica está divina.
......E há tantas cadeiras vazias, solitárias e perdidas pelo mundo. A esperar que seus espaços sejam de novo preenchidos com outros infinitos..
Parabéns
Bjusss
Sil

Sam disse...

Paulo querido,
me trouxe uma sensaçao de nostalgia imensa.

A cadeira
de madeira
sao como as pedras-
nao falam
mas contam historias.
Meu carinho
Samara Bassi

Sonia disse...

Muito bom Paulo!
Me emocionei...

paulo disse...

Tantas cadeiras vazias por ai e vocês aqui, sentadas junto na minha saleta comigo, comentando.
Obrigado

Tatiana Kielberman disse...

Paulo, querido!

Sempre brilhante!!

Que possamos ter a chance, em todos os momentos da vida, de encontrar cadeiras vazias nos esperando por aí... até mesmo dentro da gente!

Beijos, parabéns!