terça-feira, 19 de junho de 2012

O INTERIOR DA DEVOÇÃO, por João Maria Ludugero

A procissão 
Sob crédulos olhares
Se arrasta
Na tardezinha 
Pelas quatro bocas suplicantes
Rezando Ave-Marias. 

O velho caminho do Calango, 
Se desfaz, passo a passo,
Tranquilo e passadiço, 
Engolindo a sombra do dia 
Que se avulta aos arredores
Das simples casas caiadas,
De onde fumegantes cheiros
De pão, cuscuz e carne assada 
Se espalham pelas ruas e becos
Da nossa pequena Várzea.
As mulheres preparam 
Suas novenas,
As mulheres preparam 
Suas iguarias 
E vão se achando 
No fio da meada,
Enquanto dona Neves Mulato 
Tece seus coloridos fuxicos
Com todo prazer e desvelo,
Outras fazem corda de agave, 
Desde meninas, a ver 
As próximas cenas,
Os entraves e tramas 
da mesma novela, 
Enquanto outras barrigas 
Tricotam novelos e crochês
Pelos 'quilaros' da TV.
Enquanto são acesos 
Outros candeeiros,
Enquanto outras velas 
Ardem suas parafinas, 
Enquanto outros seres ao desmantelo
Acendem seus pedidos suas sinas... 
E os meninos continuam não rezando. 
E São Pedro apóstolo, 
Lá no topo da igreja, 
Assiste a tudo de camarote, 
Enquanto o povo ao andor aclama,
Enquanto a outra imagem retorna 
Ao altar-mor, sob uma salva de palmas,
Enquanto o fogo da fé se inflama,
Enquanto o padroeiro não dá as costas
Pra nenhum varzeano, de sorte,
Muito menos pra rua do arame!

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