quinta-feira, 13 de setembro de 2012

A PARTIR DO EU, por João Maria Ludugero

Minha cabeça acesa
Me amarra em liberdade
Desato-me os nós 
Solto pelo mundo,
Nada tenho a esconder 
Ensimesmado adentro
Muito ainda miragem no oásis
Por não saber me exteriorizar,
Mas já que estou no labirinto
Não deserto da raia, adiro,
Passo a correr afoito, cedo-me
De todos os lados atento 
Do centro à margem,
Apenas me acho à beira 
De dentro pra fora
Do umbigo do mundo, 
No que há
Para além
Do que há
Da porta à soleira:
A caça do oculto me leva
Das claras à gema, 
Fundura em superfície,
O mistério do amor longe
Sem segredos se achega
Perto de todas as coisas,
Ao alcance dos dedos ao fio
Da meada da mão de Deus 
Que me livra da mira dos medos!

FOGÃO À LENHA, por João Maria Ludugero


Na cozinha de dona Dalila
a gente era a gente mesmo:
Éramos fogo, fome e alegria.
Tenho saudade do que já foi, 
das velhas cozinhas de Várzea, 
com seus fogões à lenha, 
cascas de laranja secas, 
atiradas aos caibros,  
penduradas na cumeeira,  
usadas para acender o fogo. 
Bule de café borbulhando, 
biscoitos, tapiocas  
e bolachas regalias, 
lenha crepitando no fogo, 
um bom bocado de cheiros 
da fumaça e dos bolos 
E um magote de inquietos 
meninos e meninas  
de  bochechas rosadas, 
satisfeitos com os grudes,  
sequilhos e brotes à mesa.  
Minha alma tem saudades 
desse tempo bom 
rebuscado em cheiros, 
ruídos e temperos.