sábado, 6 de setembro de 2014

A VÁRZEA DO MENINO MEDONHO, por João Maria Ludugero

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

 
A VÁRZEA DO MENINO MEDONHO,
por João Maria Ludugero



Oh, menino varzeano,
Cabra levado na lida,
Que foi astutamente guiado
Nessa infância vaporizada.
Garoto que entende de tudo,
Rolimãs, joão-redondo,
Ludugero levado da breca:

Algum dia viu anum no juazeiro,
Mulungus, jasmim-manga,
Dama-da-noite, beldroegas?
Já sentiu a dor que a ávida roça
Injeta no desafio de uma enxada?
Então, não sabes que o pastoril
Nascia em bornal de Joaquim Rosendo
E o boi-de-reis era embolado
Pela ginga colorida de Mateus Joca Chico,
Que se não mexesse na massa de mandioca,
Bem depressa, a manipueira não escorria?
Com que boneco de mamulengo em João redondo
Seu Pedro Calixto esbanjava alegria
Pelas quatro bocas da rua grande,
Onde um magote de meninos medonhos
Burilava o furdúncio nas quadrilhas de Seu Bita?

Sempre ia saber de Antonio Ventinha
O que era torresmo, tripa assada e sarapatel suíno,
Sequilhos, soldas e brotes de araruta de Carmozina,
Bolo-preto, puxa-puxa, raiva e carrapicho,
canjiquinha de dona Zidora Paulino,
Sem se queimar com grude de tapioca
Numa tigela de farofa de carne-de-sol
Num tacho de fogão de lenha, a paçoca
Feita na batita do pilão junto com cebola-roxa,
Além do gostoso cuscuz de fubá de milho zarolho,
Espiar Zé Miranda não fugir de zangão zangado,
Nem de cobra dos Ariscos de Virgílio Pedro,
Nem do gado bravo além dos Seixos!

No olhar do sol amar-elo a ver as onze-horas
E a estrela Dalva da madrugada
Se espojar dentro da aurora bendita
Após as benzeduras de Ana Moita,
Numa Vargem de capim, mata-pasto e juncos
E se largar ruminando na tarde amena que me nina
Num degustar de coalhada, leite cru, espuma e orvalho.

Deixar a roça criadeira dos galos-de-campina
Te penetrar viva seiva em néctares,
Sabendo lavrar a terra com vida,
Sentir a seara no cio, sem coivaras,
Germinando vivência em bons ares
Dentro e alto do agreste verde...
Rico menino que sempre
Pôde ser irmão do rio Joca!

Saber que ali tem um riacho do Mel,
Segredando à beira do rio de Nozinho,
Abeirando-se em tantas confidências,
A rolar de sentinela toda a infância astuta



Espairecido em cantiga de bem-te-vizinho.

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