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terça-feira, 17 de janeiro de 2012

CRISÁLIDA, por João Maria Ludugero

Minha Várzea das Acácias, 
flores, jardins 
arbustos
Vapor
um quintal, um terreiro, 
uma Vargem, um lajedo 
de quina para o rio Joca 
um verdejante coqueiral, 
mulungus, muçambês, fedegosos, maracujás, 
marmeleiros, macambiras e juazeiros... 
E sob um galho dependurada, numa tarde amena 
uma lagarta solta a pele e produz um invólucro, 
uma almofada de seda 
presa por um gancho 
e, dentro da casca, 
uma crisálida a se contorcer.
Um momento lúdico eclodiu, 
movimento perfeito, 
lentamente a crisálida latente 
rompe a casca, abandona sua antiga casa 
e a borboleta sai, voa fora da casca, 
pairando no ar se apresenta, 
faz seu show ao vivo e em cores
para exibir a beleza 
que esbanja ao 
borboletear 
majestosas 
asas!

sábado, 26 de novembro de 2011

CHÃO DE DENTRO - João Ludugero

 O lavrador ara o solo
das mãos lança a semente
o sol aquece o vapor
que carrega a nuvem
cheia do céu,
a chuva cai de vez, tromba d'água,
o rio Joca se alarga na enchente,
inunda a vargem
espalha cheiro de terra molhada

encanto de sapos, caçotes e jias
alegria que se expande
pelas quatro bocas,
pelos quatro cantos,
apesar do suor e da mão calejada
labuta em renovar a peleja
que alimenta a esperança,
luz que banha de verde o sonho,
o leirão e o pé de feijão,
bem antes do meio-dia

a pino o sol se desabrocha 
lavoura em flor de algodão,
sobe o som do afiar 
das enxadas de ferro...
santa é a cantiga

que fecunda a Várzea,
as árvores florescem,
os frutos crescem
em reverência ao chão 

que se alastra em promessas 
por um agreste verde.

domingo, 9 de outubro de 2011

PORTA-POESIA - por João Ludugero

Eu porto bandeiras, cartas, chapéus
porto estandarte e alegria, de passagem
porto malas, retratos, respostas, voz.
Porto lembranças que duram
Estou no cais das idas e vindas, 
sou veleiro em flor.
Porto mudanças e estações 
Porto vidas inteiras, buscas e rotas 
Porto olhos marejados, lenços e adeus 
em partidas e chegadas
Porto amores, laços, esperanças, dores
Porto sentidos, consentidos ou vãos
Porto sóis, luas pingentes e penumbras
Porto astros, lábios, nortes 
bússolas e viagens
Porto náufragos e garrafas de SOS
Comporto mapas adversos e temperança.
Não estou apenas portador da poesia,
Eu careço de escrevinhar, 
a contento vice-versando, não me contenho, 
e uno opostos, num átimo de segundo. 
Eu preciso chegar à alma das palavras, e as acho.  
Se deserto há, é aí que me encaixo no meio
de me achar num oásis farto,
porque tenho sede de letras
que me abrem um clarão na lida  
que só me saciam em palavras que escavo 
que escrevo com afinco, 
que bem me apontam 
o lápis da Poesia.

sábado, 8 de outubro de 2011

O Voo do Colibri - Por João Ludugero

Sabe de uma coisa,
sabe que eu ando assim
parecendo aquele pássaro
que brinca de helicóptero...
eu vou pairando no ar,
dando s
entido às palavras sisudas.
Calado, elevo-me, não carrancudo,
sentindo letras em néctares,
saindo da penumbra da moldura
feito disposto colibri de flor em flor,
pensando em beber o arco-íris,
desses que as tintas do sol 

tingem em gotas de chuva,  
compondo-me um pote de alegria avivada
em redonda ressonância.
Acho que ando afoito redemoinho
a se perder sem destino no céu
com o desejo de ser aragem
a me perder por aí, poeira, pó,
bem mais que brisa de passagem,
consentindo-me a ficar de bobeira,
à toa na vida, vaidoso avoante ao léu.
Assim, consigo ganhar o mundo!
Ao longe e ao perto desbravo o horizonte

que treme-treme em minhas asas.
Encontro-me, dentro do alto, firme.

O rosto da terra se renova em lavras.
Liberto-me embevecido em orvalhos.
Um ouvido desperta noutro ouvido,
uma língua se acentua noutra língua
a pulsar desejos em órbita e poesia.
É para o meu bico esse ardor soberano
que me dita inebriantes palavras

que afinal me dão azo ao voo,  
quando eu quero é mais 
perder largamente o juízo!

sábado, 13 de agosto de 2011

DesesPeRadamente!


Autor: João Ludugero

Queria te amar assim 
sem o desespero de estar longe.
Não me deixar ficar fora de mim, sem ti 
como que a arrebatar do corpo a alma.
Mas acabo por me entregar, de súbito, 
e escorro pela flor da pele, pelos poros,
sinto suores, dores, frios e, sem norte,
tal qual um cachorro doido
corro pela lua cheia que me banha
em busca de uma saudade sem tamanho,
que não se acalma com sintomas de labirintite.
E o foco dessa saudade
é flor que me assanha 
que se abre em meu peito, arranha 
e o escancara fundo, 
oriunda desde a Espanha.
Amo-te com desejo de seiva e sorte,
que em tão e tanto mar seja acolhida,
e em teu coração me haja o suporte,
ao adornares meu veleiro em flor.
Não sei se mais aguentaria
outras promessas tais,
que, antes de cumpridas,
caíssem por terra,
sofressem outras ardentes podas,
 para o desate da ilusão que me acolhe
ou para a solidão desta seara ser banida.
Que cada fio do teu perdão me cinja o corte,
mil temores e cores da pele bandida,
que nunca mais a mim nada importe,
além de ti, meu amor pra toda vida.  
Que nunca mais me enlouqueças
ao ponto de cortar os pulsos,
longe de mim ter um coração suicida.
Quero ter a paz que ora me nina,
continuar na lida passo a passo, no batente, 
arregaçar as mangas, pintar o sete
e o diabo a quatro, viver a bem-me-querer.
Quero alvorecer aceso artesão, de certo 
acordar e ainda sonhar no meu ateliê 
com a firmeza de um amor concreto,
não regulado à euforia
de um gostar-relâmpago.
Por que sob o efeito de anfetaminas,
muitos se lançam ao proclamar extasiados
que amam de pedra a sapato,
e desesperadamente!

sábado, 6 de agosto de 2011

O BALANÇO

Autor: João Ludugero

No quintal da minha casa
tem uma velha mangueira frondosa e verde.
Nela há um balanço feito de um pneu usado
há muito tempo dependurado
num braço da árvore
por espessa corrente.
Sempre que sobra tempo,
Eu vou lá a sentar no balanço,
subo, desço e faço um balanço da vida.
Recordo-me de instantes ali vividos,
das pessoas que cresceram comigo
E que tiveram que seguir outros rumos
E de tantas que já não mais voltam,
uma vez que se foram balançar noutro plano.
Eu continuo meu balançar
Pra cima e pra baixo,
Alegre brincando, encantado,
Sem vontade de parar tão cedo.
E assim vou levando a sina,
não com a barriga, mas com a vontade
de fazer bem feito a lida,
conversando cá com versos
que me ajudam a empurrar
meus sonhos desde criança.
E ora adulto não me sinto inválido,
não me canso desse eterno balanço.
E vou vendo esse filme passar,
a sorrir, chorar ou vice-versando,
sem me preocupar com a menção da crítica,
Vou decorando as próximas cenas.
E que venha o sol irradiar seus flashes
sem me furtar as cores
que vão e que vêm a cada capítulo
minha vida toda enfeitar
nesse balanço tão vívido,
de levantar a alma leve e solta,
sem escapulir de mim,
dando-me corpo à liberdade!

sábado, 30 de julho de 2011

ONÍRICO

vertigem
Autor: João Ludugero

Hoje tive um sonho
estranho num labirinto
desses do tipo pesadelo,
de se lutar com desmantelo
debater consigo mesmo,
de pelejar com toda força  
de só querer acordar, de súbito.
Só Deus sabe como viajei
assim sem rumo
fui bater no cafundó de Judas,
Onde Maria perdeu o mapa e o dote
E, por pouco, quase não acertei 

o caminho de volta.
Isso depois de me valer de todos os credos,
de rezar a varejo, só pra sair inteiro
do tal beco sem saída.
Prendi a respiração,
o ar ficou rarefeito
E foi aí que o vento fez a curva,
entrei na rota do redemoinho
acordei desnudo no chão batido.
Acho que até dormi nos espojadouros,
entrei na baixa da égua
e saí no lombo de  uma vaca atolada,
Só de botas sete-léguas
E com a mão no bolso pelo avesso.
E acredite, não estou de lero,
Acordado, continuei a sonhar.
E, apesar de alguns sonhos que me doem,
outros me chegam bem-aventurados,
E insistem em tomar pé, sem querer se ir.
Se tanto me dói que os sonhos passem,
De certo é porque cada instante 
em mim é verdadeiro, autêntico,
ao buscar um bem definitivo viver,
onde as coisas do Amor se eternizem,
assim juntamente com as cicatrizes
que a vida me tatuou no peito.
E ainda costumo alertar àqueles
que têm medo de sonhar:
o pior da vida é perder os sonhos de vista
– em todos os reais sentidos, 
O mais sagrado da vida 
ainda é botar fé no sonho 
e  nele  acreditar acordado.

sábado, 23 de julho de 2011

BALADA PARA UMA VACA LOUCA - ANTES DE SECAREM SUAS TETAS

Autor: João Ludugero

Se tiver que chorar,
que chore suas lástimas,
entorne suas lágrimas
aos cântaros,
antes que sequem
seus olhos d'água.
Chore de alegria,
se preciso for,
arremede seus mugidos,
estire a língua aos medos,
refaça-se em bocas e caretas
ou desate a tristeza,
pois mesmo depois
do leite derramado,
o importante é pensar
que a vida continua
e a vaca não morreu,
que está viva,
apesar de agora louca,
e segue outras bermas,
após sair do atoleiro do brejo
com as próprias pernas,
só carecendo, de fato, 
não de um empurrãozinho,
mas de ficar sempre alerta
para não escorregar em corte,
na engorda das barras do dia
ou na calada da noite,
ao deleite de outrem,
nas escancaradas mamatas
dos filhos da outra mãe.

Minhas Flores desabrochadas

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