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sábado, 2 de julho de 2011

"O BARBA-AZUL"

Autor: João Ludugero
Eu careço ir ao fundo do poço,
Quero ir com o balde
Dependurado
Descer junto à corda da roldana.
Quero ir chafurdar
A água lá no fundo,
Bem lá do fundo do fosso,
Sentir a tempestade alta a passar
A ganhar outros ares e se evolar
Nas asas da ventania.
Que venha o turbilhão, de súbito,
Mas que seja único, sem túnica.
Que me encharque toda alma troncha.
Mas depois me traga de vez a calma,
O fio e a meada a arrematar os acordes
Do meu coração desalinhado em dó.
Tudo por culpa de mais um amor que matei,
E que ora me deixou de queixo caído,
Boquiaberto, até botei a barba de molho.
Mas fazer o quê, me diga, se outro vai chegar?
E assim vai pintar outras cores,
Porque esse danado do amor,
Apesar das perdas e danos,
Vale a pena vivê-lo de novo,
E por ele, tantas vezes, perder a cabeça.
Acho até que esse danado do amor
Tem muito mais que sete vidas.
E haja fôlego!

sábado, 11 de junho de 2011

Dia dos eNAMORADOS

Prisioneiro em LIBERDADE inCONDICIONAL
Dia "d" eNAMORADOS:
a liberdade que me olha no espelho
 é a mesma que me enamora todo santo dia-após-dia!
João Ludugero
  Pronto. Já decidi. Já me arranjei:
Eu vou passar o dia dos namorados
Eu comigo mesmo, desprendido.
Cara, estou de cara comigo no espelho!
Aprendi a falar com meus botões,
Calado aprendi a pensar alto!
Eu estou precisando ficar a sós,
Sem esse negócio de cobranças ou dotes,
Nem me sentir moeda de troca ou barganha,
Aceitar 'mea culpa' sem perder a cabeça.
Careço amar meu eu do jeitinho que ele é
Numa iluminada introspecção.
Mais turbando a mente
Que de costume, me pego a divagar,

Alivio  o peso dos ombros, relaxo.
Me faço em caras e bocas, gargarejo.
Eu me zombo. Há tempos que aprendi 
A fazer gozação de mim mesmo.
Não preciso de pré-datados
Para me presentear,
Mando-me flores.
Estou certo de que vou achar
Um meio sadio de cometer loucuras,
Sem precisar usar camisas
De força ou de vênus.
Porque eu já me enamoro.

Quando estou de
'saccus scrotalis repletissimus', 
Canto e danço comigo mesmo!
E consigo chegar ao clímax,
Folheando estrelas!
É o que tenho pra hoje,
De presente para mim.
  Fico à vontade, afrouxo a gravata,

Me presto socorro, aperto o cinto.
Desnudo-me em domicílio,
 À torta e à direita,
Ao vivo e em cores no ar
Num dia "d" enamorado
Que é todo santo dia:
Eu tenho amor próprio
Que não me deixa na mão,
Que não me ganha pelo estômago
Nem me aluga pela barriga,
Nem me põe coleira de estimação.
Esse Amor, num simples 'toque de me dás', 
Ganha-me inteiro, doa-me,
Eu já me entrego em potencial,
À primeira vista, num piscar de olhos.
Porque a liberdade que me olha no espelho
É a mesma que me enamora, de fato, 
Repito: todo santo dia-após-dia!

sábado, 4 de junho de 2011

AS SANDÁLIAS QUE FICAM


Autor: João Ludugero

 Meus pés de moleque não me abandonam 
Sempre que recorro a eles, 
Toda vez que teimo em esmorecer.  
E, logo logo me reanimo,
Redobrando o vigor das canelas. 
Meu tio João Pequeno,
Fiteiro de aresias, já conversava:
Esse menino ainda me ganha o mundo!
Recordo de sua fala mansa, 
Quando profetizava essas coisas.
O tempo passou, passei sebo nas canelas.
Arrebentei as cordas e os cucos,
Quebrei meus cabrestos, 
Reviravoltei as ampulhetas,
Arregacei os punhos e as mangas,
 Desgarrei-me no real da vida.
Mas ainda choro ao lembrar do chão
Dos corredores da minha casa,
Da gaitada de meus irmãos
A zombar de mim, dessas miudezas
Em laços que me acompanham.
Como esquecer das podas
Tão necessárias às roseiras,
Dos botões arrancados do tergal,
 Do linho da minha camisa
De tecido volta-ao-mundo,





E das transparentes-sandálias-verdes-bala-soft
Da minha avó Maria Chiquinha da Conceição,  
Que ficaram esquecidas, largadas num canto, 
Num escaninho da estante da sala de estudos, 
Depois que ela embora se foi morar com Deus?
Só sei que deve ter um anjo-da-guarda
A me calçar o destino
Que me protege à sombra dos abrigos.
E eu sigo sempre alerta, de mãos dadas

Com  a lida, apesar dos perigos
E das cotidianas aleivosias.
Porque aprendi a segurar

Essa mão invisível.

Minhas Flores desabrochadas

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