sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Pensamentos de Clarice



Nunca sofra por não ser uma coisa ou por sê-la...


Acho que devemos fazer coisa proibida - senão sufocamos. Mas sem sentimento de culpa e sim como aviso de que somos livres. 


Tenho que ter paciência para não me perder dentro de mim: vivo me perdendo de vista. Preciso de paciência porque sou vários caminhos, inclusive o fatal beco-sem-saída."


Olhou-se avidamente de perto no espelho e se disse deslumbrada: como sou misteriosa, sou tão delicada e forte.


Que vontade de fazer uma coisa errada. O erro é apaixonante. Vou pecar. Vou confessar uma coisa: às vezes, só por brincadeira, minto. Não sou nada do que vocês pensam. Mas respeito a veracidade: sou pura de pecados.


O que me atormenta é que tudo é 'por enquanto', nada é ' sempre'.  


E assim sou, fútil e sensível, capaz de impulsos violentos e absorventes, maus e bons, nobres e vis, mas nunca de um sentimento que subsista... Tudo em mim é tendência para ser a seguir outra coisa; uma impaciência da alma consigo mesma, como uma criança inoportuna; um desassossego sempre crescente e sempre igual. 


Estou sofrendo de amor feliz. Só aparentemente é que isso é contraditório. Quando se sente amor, tem-se uma funda ansiedade. É como se eu risse e chorasse ao mesmo tempo. Sem falar no medo que essa felicidade não dure. 


Ser feliz é uma responsabilidade muito grande. Pouca gente tem coragem.


(...) ás vezes me parece que estou perdendo tempo, ás vezes me parece que, pelo contrário, não há modo mais perfeito, embora inquieto, de usar o tempo: o de te esperar. 


"Não sei" não é resposta. Aprenda a encontrar tudo o que existe dentro de você.


Ah viver é tão desconfortável. Tudo aperta: o corpo exige, o espírito não pára, viver parece ter sono e não poder dormir - viver é incômodo. Não se pode andar nu nem de corpo nem de espírito." 


Sou minha perna, sou meus cabelos, sou o trecho de luz mais branca no reboco da parede, sou cada pedaço infernal de mim – a vida em mim é tão insistente que se me partirem, como a uma lagartixa, os pedaços continuarão estremecendo e se mexendo. Sou o silêncio gravado numa parede, e a borboleta mais antiga esvoaça e me defronta: a mesma de sempre. De nascer até morrer é o que me chamo de humana, e nunca propriamente morrerei. 


Vou continuar. É exatamente da minha natureza nunca me sentir ridícula. Eu me aventuro sempre. Entro em todos os palcos.


Luto para não ter o pior de todos os sentimentos: o que de nada vale nada.


E todos os dias ficarei tão alegre que incomodarei os outros, o que pouco me importa, já que eu tantas vezes sou incomodada pela alegria superficial e digestiva dos outros.


...eu romperei todos os nãos que existem dentro de mim, provarei a mim mesma que nada há a temer...

- queria poder continuar a vê-lo, mas sem precisar tão violentamente dele.