sexta-feira, 31 de agosto de 2012

DOIDINHA, por João Maria Ludugero

Encontrei Luíza 
Na feirinha de domingo;
Trazia flores do campo 
Nas mãos inquietas
E um aceso fogo de esperança. 
Seus olhos luziam,
Faiscando só pra mim, 
Enquanto proseava na rua das pedras, 
Enlevada pelo Vapor da tarde amena.
Seu sorriso era potável, doce de beber
Como as águas minadas dos ariscos.
Havia nela varzeanidade e ternura,
Falava-me de lucidez e de loucura.
Observava-me, longe e perto, atenta
E logo me acenava, entretida
Com a beleza do seu mundo 
A evolar tantos perfumes de flor 
Pela Várzea a dentro.

MEMÓRIAS DA NOSSA VÁRZEA, MINHA TERRA, MEU AMOR: JOÃO REDONDO (MAMULENGO), por João Maria Ludugero

MEMÓRIAS DA NOSSA VÁRZEA, MINHA TERRA, MEU AMOR: 

JOÃO REDONDO (MAMULENGO)



A bem da verdade, tinha razão o folclorista Deífilo Gurgel, que deu o título de Cidade da Cultura a Várzea, ao recordar que, na época em que foi diretor de promoções culturais da Fundação José Augusto, em 1979, quando pesquisou sobre o mamulengo no Rio Grande do Norte, descobriu que a nossa cidade estava inclusa entre aquelas cidades onde havia um dos últimos mamulegueiros no estado. O mamulengo faz parte da cultura popular nordestina. A origem do nome é controversa, mas acredita-se que o termo deriva da expressão “mão molenga”, mão mole, numa referência à mão ideal para manipular os bonecos. Nele há um pano à frente, atrás do qual se escondem um ou mais manipuladores que dão voz e movimento aos bonecos.

Fui testemunha ocular dessa manifestação cultural, digo o teatro de bonecos em nossa Várzea. Lembro-me muito bem da alegria quando se reunia a criançada e os adultos para ver a montagem e encenação do João Redondo na casa de seu Pedro Calixto, situada na rua Deputado José Lúcio Ribeiro, vizinha de dona Zidora Paulino.

É com imenso orgulho que me recordo do varzeano Pedro Calixto, que manuseava o João Redondo, o qual era apresentado por detrás de uma cortina colorida na sala de estar de sua morada, e as histórias eram baseadas num quotidiano envolvente, caricaturando tipos e situações do dia-a-dia. Essa forma teatral popular tanto agradava a adultos como crianças. Como espetáculo, possibilitava um contato imediato e espontâneo com o público presente, sendo capaz de comunicar de forma ideal junto das diferentes faixas etárias da comunidade de Várzea.
Por oportuno, cabe cingir que o teatro popular de bonecos recebe várias designações em todo o Nordeste. Em Pernambuco, por exemplo, chama-se Mamulengo, enquanto no Rio Grande do Norte e Paraíba é denominado "João Redondo". Essa expressão da cultura popular, originária da Ásia, trazida pelos ibéricos, encontrou no Nordeste um verdadeiro celeiro de calungueiros, como se chama o homem que manipula os bonecos em nosso estado.
Um teatro simples, irreverente, apresentado por bonecos rústicos, feitos de pano, muito expressivos, acoplados nas mãos de apresentador, dando-lhes vida em pequenos atos hilariantes, permitindo que sua duração varie, ao sabor das circunstâncias.
Por derradeiro, vale ressaltar que em Natal, a arte do João Redondo permanece viva graças aos calungueiros, como Chico Daniel, segundo Ariano Suassuna, o maior “bonequeiro” do Brasil. Após o falecimenteo de Chico Daniel, seu filho continua mantendo acesa a chama do teatro de bonecos popular. Também pode se encontrar no Conjunto Nova Natal o Zé Relampo, carroceiro de profissão que apresenta o “João Redondo” de forma tradicional, destacando sua voz.
Viu, só gente! É Várzea presente no cenário artístico cultural, no imaginário popular do nosso povo, são as nossas raízes que, apesar de adormecidas, como é o caso do João Redondo, ainda pulsam e poderão, por que não, renascer das cinzas. Importante é, pois, compreender que tudo isso pode ser resgatado, uma vez que empenho, determinação e espírito entusiasta não faltam ao repertório cultural da nossa gente, que tem o prazer de fazer bem feito. E que sobrevivam as raízes da Cidade da Cultura potiguar, nossa amada Várzea!

João Maria Ludugero da Silva, 
poeta e escritor varzeano.