terça-feira, 11 de dezembro de 2012

DONA ZEFINHA, A BONEQUEIRA, por João Maria Ludugero


Dona Zefinha é uma mulher feita 
de fragmentos de vida.
Viceja versos em poemas 
que faz a si mesma ou para ninguém.
Reinventa romances entre personagens 
criados com suas bonecas de pano, 
mistura cores, cantigas de ninar, sorrisos e silêncio. 
Não tem consciência de sua pequenez diante da imensidão. 
Nem se preocupa em saber acerca disso. É feliz em sua humildade.
Solidão? Nunca sentiu. Nem mesmo depois dos três maridos, 
dos quais a vida deu cabo, tudo a seu tempo. Deus os levou.
E seus três filhos, estes ganharam o mundo e não olharam para trás.
Filhos de chocadeira, nem lhe dão sinal de vida. 
Para ela não passam de mortos vivos. 
Mesmo assim, não se incomoda,
não reclama da sorte. Não se sabe só, 
vive cercada de bonecas de pano. 
Abre o olhar diante de uma vastidão 
de possibilidades num amanhecer.
Trata de decantar, filtra 
e destila vertigens extasiada apenas 
com as estampas sob tecidos variados. 
Uma mulher de retalhos. 
Dona zefinha vai completar 81 anos, 
saudável lúcida, leva as tardes amenas da eternidade 
a costurar suas bonecas de pano... 
e ainda sorri, banguela, mas resignada, 
pois não queria outra vida viver 
que fosse diferente. Vestida de chita, 
com cheiro de alma de flor e alfazema, 
sente-se rica, tão modesta em seus aposentos, 
sem fazer conta das bonecas de pano, 
que vende a R$1,00 a unidade 
aos curiosos que a visitam 
em sua casinha caiada de branco 
de chão encarnado de cimento queimado, 
no alto da Várzea das Acácias, 
situada na rua das pedras, 
com acesso às quatro bocas, s/nº.