sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

CASA-DE-TAIPA: UM POEMA PARA TANGER FELICIDADE AO INTERIOR, por João Ludugero


Minha casa fica lá no interior
é tão modesta, tão singela minha tapera
tão simplesinha dessas com apenas porta
e janela que não carecem de trancas,
precisando só de uma tramela.
na minha casa o alicerce é feito de taipa,

divisórias de barro, areia e escoras
o chão peito de saibro socado, batido,
é coberto de cimento queimado, quase encarnado,
as paredes são caiadas de branco
sujeitas a intempéries, sóis e chuvas,
ventos uivantes, luas e trovoadas
e a mobília? tão tão pobrezinha, mas suficiente:
uma mesa, uns tamboretes e uma cama de juncos
Na cumeeira guardei meus fantasmas de outrora
mas, nela também vislumbro as estrelas
nos caibros há cinzas das horas idas
na cozinha, hás tisnas na parede do fogão à lenha
há feijão na panela, café no bule, farinha no saco
carne de lata, araruta e brotes
na sala de estar não tem estante,
mas os sonhos nunca são estanques
estão em cada recanto ou na algibeira 
há outras quimeras, em cada canto uma reza
com mesa farta de credos, devoção e flor 
dentre esperanças e promessas
o telhado traz formato de livro aberto
com frestas de luz e cascas
de laranja secas dependuradas no teto
para acender o fogo da lida
que nunca mais se apagou sequer um dia,
depois que descobri sem precisão de espelho,
que eu, o dono da casa, sujeito humilde com jeito de mato,
 era mesmo sim um rico proprietário
 trazendo o semblante contente de dono do mundo,
mesmo sem guardar ou herdar
um milhão em botijas de ouro,
sendo como é dono de uma paz infinda
que nenhum dinheiro pode comprar.
Então, pra quê angariar maior legado, me diga,
se na verdade ora não caibo em mim
ao tocar no chão da minha Várzea, meu tesouro,
tangendo a burrinha da felicidade?