segunda-feira, 15 de setembro de 2014

O MENINO JOÃO MADURO: - EU ERA TÃO CRIANÇA E AINDA SOU. por João Maria Ludugero

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
O MENINO JOÃO MADURO: - EU ERA TÃO CRIANÇA E AINDA SOU.
por João Maria Ludugero

Por diversas vezes, eu já fiz cócegas na minha irmã Aldenira só pra ela parar de chorar. 
Já me queimei brincando com vela, junto aos meus irmãos com medo de assombração, com receio de ver almas com cheiro de jasmim, às onze-horas em flores no quintal da casa de Vó Dalila Maria da Conceição, benzedeira de todas as mãos pelas quatro bocas da lida varzeana.

Também já fiz bola de chiclete e melequei todo o rosto, já conversei com o espelho, e até já brinquei de ser bruxo, sem medo da cuca, tão menino medonho de assanhar até os pelos da venta.

Já quis ser médico, veterinário, brinquei com a lua feito astronauta, me salpiquei de estrelas cadentes, quis ser violonista, mágico, caçador e trapezista. E ora sou advogado, analista jurídico, poeta e escritor, gosto de compor versos a correr dentro e alto nas composturas da vida ou até fora delas, sem carecer de ser cabotino.

Já me escondi atrás da cortina e esqueci os pés pra fora.
Já passei trote no céu ao contar estrelas, sem medo de nascer verrugas no joelho. Com fé, já fiz os três pedidos ao contemplar uma estrela cadente. 
Já tomei banho de rio, açude, riacho e lagoas compridas e acabei me viciando em banhos de lua ou chuva de prata, a apreciar a figura esbugalhada de São Jorge guerreiro disposto na vastidão da lua, sem receio de nenhum dragão.
Já roubei beijo, já furtei cenas só para fugir dos impossíveis labirintos.

Já confundi sentimentos, já me consenti em amar tantas vezes, a me caçar no coração partido, e ainda permaneço apaixonado pela vida, bem-querendo crescer, amadurecer, renascer menino medonho João maduro levado da breca, ainda sou...apesar de pegar atalho errado, mas continuo andando pelo desconhecido em busca de achamentos, eu caçador de mim. Fera ferida ou menino-pássaro que fez escapulida do fojo e do alçapão, ao restaurar as asas feito esbaforido bem-te-vizinho, afoito sanhaço só a degustar mamão maduro, galo-de-campina sem medo do chão-de-dentro dos sabiás e das patativas.

Já raspei o fundo das panelas de arroz-doce, cocadas, puxa-puxas, mungunzá, canjicas, quebra-queixos, apuratório de natas batidas para fazer manteiga-de-garrafa. Já queimei os beiços um bocado de vezes, na roubada dos corações a passarinho ou até mesmo a degustar crocantes torresmos.

Já me cortei fazendo a barba apressado.
Já tentei esquecer algumas criaturas, mas descobri que
essas são as mais difíceis de esquecer de uma vez.
Já subi escondido no telhado pra tentar pegar estrelas, já subi em galhadas de árvores pra roubar fruta, já caí da escada, mas sem desistir do meu intento, de me achar inteiro, pois meias pela metade não me servem.

Já fiz juras secretas e eternas, já escrevi em caules de plantas e no muro da escola desenhei corações em setas de segmentos almejados na lida.
Já fugi de casa pra sempre, e voltei João redondo no outro instante do repente.
Já corri esbaforido só para não deixar alguém chorando, já fiquei
sozinho no meio de mil pessoas sentindo falta de uma só na multidão.

Já vi lusco-fusco em pôr-do-sol cor-de-rosa e alaranjado, já me joguei no
lago e no açude sem vontade de voltar, já bebi pinga, aguardente, tantos vinhos tintos, cachaça, cerveja até sentir dormente a minha boca, disposto de pé na jaca, já olhei a cidade de cima e mesmo assim não encontrei meu lugar no interior.
Já apostei em correr descalço na rua, já gritei de felicidade, já
roubei flores num enorme canteiro de jasmim-manga da Várzea das Acácias.
Já me apaixonei e achei que era para sempre, mas sempre era um
"para sempre" pela metade, igual 'tô-fraco' de galinha-de-Angola.
Já deitei na grama de madrugada só pra espiar a estrela Dalva e vi a Lua virar Sol, já chorei por ver amigos partindo, mas descobri que logo chegam novos, e a vida é mesmo um ir e vir na tentativa de se achar, mesmo por qualquer razão que seja.

Foram tantas coisas feitas, momentos fotografados pelas lentes da
emoção, guardados num baú, um arquivo-vivo de um relicário chamado coração, ainda se revelando dia-após-dia desde quando eu era criança e ainda sou, mesmo maduro João Ludugero em acordes de sonhos sem dieta, pois ainda sou aquele menino medonho tão levado da breca que não se cansa nem se esgota em amortecer as dores da vida ao escrever poesia.