terça-feira, 27 de novembro de 2012

PEDALANDO ENTRE CHEIROS E RUÍDOS, por João Maria Ludugero


Andar de bicicleta tem cheiro 
De mato verde e terra molhada
É algo assim corriqueiro, diga-se de passagem, 
Parece uma coisa banal sair por aí pedalando, 
Mas uma coisa é certa: 
Nenhum dia é igual ao outro, 
Os mesmos lugares se pintam diferentes, 
O vento a ventar na cara da gente 
Faz um bem da gota serena! 
Eu ganho o mundo a cada pedalada, 
Escuto pássaros e um bater de cancelas se abrindo 
A me levar a algum lugar, a um verde perto. 
E o coração ainda mais se excita 
Quando a gente voa de bicicleta. 
E dá pra sentir o interior das cidades, ruas, trilhas 
E caminhos que viram um leque 
De acordes a louvar Deus, 
Entre realidade e sonho, repleto de cheiros e ruídos. 
Dá para sentir o aroma do capim, do jenipapo maduro, 
A alma de flor a evolar, em dádivas antigas, 
O jasmim e as damas da noite. 
O rescender amadeirado das folhas secas 
Das mangueiras e dos cajueiros, 
O néctar das flores silvestres, 
O arisco odor do mel do riacho... 
De onde será que advêm tantos 
Cheiros a ativar o cérebro? 
Recordações de verdade deságuam, brotam 
Quando caem as primeiras chuvas... 
Cheias do céu, águas encharcam a terra seca 
E, levantando vapores, me levam 
Por léguas e léguas às lonjuras. 
Interessante, mas quando presencio 
Uma chuva que acabou de cair, 
Passo a viajar por dentro do cheiro 
Dos potes de barro com água, 
Que ficavam no quintal 
Da casa da minha avó Dalila. 
Pode fazer muito tempo, 
Mas é como se fosse agora, a me ninar 
Nesse pedalar de ideias 
Que me leva a inspirar bons ares. 
(Quando ando de bicicleta, 
Não só meus pés giram… 
De cabeça feita, 
Claro que deixo o coração circular).