terça-feira, 31 de maio de 2011

De que adianta?

Por: Paulo Diesel



De que adianta o cérebro
se não sei raciocinar?
De que adiantam os olhos
se não sei te olhar?
De que adianta a boca
se não sei te beijar?
De que adiantam as mãos
se não sei te tatear?

De que adianta a vontade
se não sei me empenhar?
De que adianta teu incentivo
se não sei te incentivar?
De que adianta teu amor
se sei não te amar?
De que adianta a paixão
se sei não me apaixonar?
De que adianta?
De que adianta?
Pára, pára...
que eu quero parar...

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Inverno.....

Por: Sil Villas-Boas


Nas horas frias, em que as manhãs 
se vestem em roupas sem cores
Subo as escadas do sótão da casa, 
E passeio em telhados cobertos de gelo. 
Das gotas de gelo que respiram no teu olhar.

Nem o teu inverno,
Tua acidez,
Tua escuridão
Tua insensatez
Amargam-me as palavras. 

A minha língua, 
Agora, solta,
Saboreia os teus frios pensares
Sem se amendrontar.

Agora, os meus versos 
Travessos, acesos, inquietos
Chegam de mansinho para me aquecer


De todos os invernos....

domingo, 29 de maio de 2011

A CURIOSA HISTÓRIA DE JOÃO E MARIA DO BARRO

Autor: João Ludugero

Quer saber quem sou eu, 
Ora, pois me apresento, sem galhos.
Eu me chamo curió. 
Sou um pássaro cantador
Aprendi a cantar desde filhote
Só de escutar o assobio do meu pai,
Que tinha um canto mais que perfeito.
Meu velho sempre me dizia:
Filho, serás um excelente cantor ou um imitador!
Só tu poderás escolher entre preservar
A pureza nata de tuas notas musicais ou
 Facilmente aprenderes a copiar
O canto de pássaros fora da tua laia.
Poderás aprender depois de velho,
Se fores cabeça-mole, ou seja, curió que vai com os outros,
Que ao escutar um canto diferente do seu, troca de canto.
Eu preservo minha estirpe, logro mais êxitos,

Apesar de criado solto na vida,
No meio do mato verde perto dos currais da Várzea.
Foi naquelas redondezas que conheci 

Meu compadre João-de-barro, pássaro trabalhador.
Desculpe-me, mas fui autorizado 
A abrir o bico e lhes contar
Essa que não é mais uma mera história de passarinho.
É baseada em fatos reais. Acredite.
Eu, curioso que sou, fui testemunha ocular
Dessa historinha que passo a desfiar.
Meu amigo João, arquiteto do barro,
Com esmero montava seu ninho, sua casa.
Em postura altiva, metia a mão na massa, com garra
Construindo sua morada
No tronco de um mulungu em flor, ajudado de perto 
Pela sua amada Maria-do-barro,
Fêmea habilidosa nos amassos
E na oleira empreitada da bica.
Cúmplices, eles viviam de amores
Aos arredores do ninho,
Tremulando as asas, passavam os dias
A cantar estridente em curioso dueto,
Enquanto carregavam barro.
Pareciam satisfeitos. Tudo às mil maravilhas.
De tão parceiros, parecia que ali reinava a felicidade.
Mas a vida dos outros é a vida dos outros.
E a grama do bem-te-vizinho é sempre mais verde.

Até que um dia... chegou o infortúnio!
Nas idas e vindas da barranceira do rio,
Maria, faceira, deu trela ao curió Bicudo,
Meu primo de longe, que aprendeu a cantarolar
Imitando a vistosa 'passarinha' alheia.
E ela semitonta, assanhou-se toda,
Arriando as asas num segundo encontro.  
Afoita entregou-se ao estranho,
De lado, debanda sob às artimanhas cruzadas  
Daqueloutro bico, ao ser decantada, admirada, possuída.
Foi ofuscada pelo laço passarinheiro

Daquele forasteiro que lhe prometera
Castelos, mundo e fundos, eira e beira.
Inclusive, dominada, logo despejou João

Do seu ninho ainda em construção. 
João perdeu tudo. 
Tudo o que conquistara a duras penas.
Desiludido, maior abandonado, ele se tocou.
Abriu mão de sua pretendida, não mais valia a pena!
Ela era muito inconstante, arrastava a asa
Pra qualquer bicudo que aparecesse jurando amores.
Enquanto João se mantinha fiel,
Até que acontecesse um próximo enrabicho.
Mas, entre mortos e feridos, cansou de chorar
As pedrinhas da moela. O tempo tritura quase tudo.
E João, artesão do barro, sábio detentor de amor próprio,
Não fechou o bico à obra. Decidiu levantar nova morada.
E, só depois, é que partiu
Para achar sua outra nova costela.
E, de bolas em rebolos, levou o barro pra frente,
Deu forma a novo empreendimento,
Dividindo-o em dois compartimentos,
Com a porta de acesso ao seu interior
Voltada p'ro norte, à prova de chuva e vento,
Onde ele agora adentra sem ter de abaixar a cabeça,

Acompanhado de esposa e filhotes, ora sobrevoa por cima.
Mas já argamassou muita poeira, lama e até esterco
Só pra fazer barro na lida.
Ah, da ex-Joaninha-do-barro,
Digo Maria, nunca mais se soube.
Minto. Conta-se que foi vista, sim,

Detida pela sorte a fazer fita de bico calado
Num rodízio, jogada num canto, alquebrada,
Sem casa nem comida, de olhar perdido,
Quiçá num longe horizonte demolido,
De fogo apagado, curiosamente penalizada,
Com o pires na mão a chorar as minhocas perdidas
E a pigorar os insetos de troncos de árvores,
E até pousando recostada nos paus dos currais,
Após ter sido largada por mais um bicudo de fama
Ao amparo da sorte, num poste de iluminação pública
Onde a lâmpada sem energia não acende mais.

sábado, 28 de maio de 2011

CANTIGUEIRO

Autor: João Ludugero
No parapeito da ponte,
    No alto do abismo,
Eu me apassarinho,
Esvoaçante me arribo.
Pego a direção dos ventos
Numa pétala roubada
Da rosa dos ventos.
Dou espaço ao tempo
Que não me cerca
Com esperanças novas.
Não lamento a sorte
Nem o ermo roteiro, de certo
Nem a asa baleada me dói.
Eu consigo alar-me a céu aberto.
Eu sigo nas asas de um cantar mavioso
A buscar meu norte.
Ao me achar bonito, não me furto a cores,
Apenas afugento a dor por encanto.
E o canto me revigora por dentro,
Desde a hora em que a aurora
Me abre os olhos
Cedo eu madrugo a sonhar,
Cuido de ganhar o mundo
Sem medo dos choques ou atritos
Quando pouso nos fios dos postes,
Atento nas luzes postiças, de sorte,
Acendo meu canto a me orientar,

Por mais que haja sombras,
Estufo o peito de contente.
E o amor me escuta de longe.
E o amor me abre um clarão,
Apesar do escuro da mata,
O amor não se expira nunca,

O amor me restaura as penas,
Porque o amor me rapta
Para um ninho seguro.
E a flor/esta não me fecha sozinho,
Pois me dispara afetos e avenças
A inserir-me em coro
De outros passarinhos
De bicos afinados
Em airosa cantiga,
Rumo a outros paradeiros.

Sonhos



Colaboração: Sidarta Reis 


Sem sonhos, os monstros que nos assediam, estejam eles alojados em nossa mente ou no terreno social, nos controlarão. 

O objetivo fundamental dos sonhos não é o sucesso, mas nos livrar do fantasma do conformismo.  

Quem não é generoso consigo mesmo jamais o será com os outros. Quem cobra muito de si mesmo é um carrasco dos outros.  

A generosidade é um dos maiores sonhos que devemos difundir no grande “caos social”.  

Generosidade é uma palavra que habita os dicionários, mas raramente o coração psíquico.  

Só dorme bem quem aprende primeiramente a repousar dentro de si.  

É possível fugir dos monstros de fora, mas não dos que temos dentro da mente. 

Os egoístas vivem no calabouço das suas angústias, mas os que atuam na dor dos outros aliviam a própria dor. 

Sou apenas um caminhante que perdeu o medo de se perder. 

Os que vendem sonhos são como o vento: você ouve a sua voz, mas não sabe de onde ele vem e nem para onde vai.  

O importante não é o mapa, mas a caminhada.  
Não existem heróis. Todo gigante encontra obstáculos que o transformam em criança. 

Se quiserem vender o sonho da solidariedade, terão de aprender a enxergar as lágrimas nunca choradas, as angústias nunca verbalizadas, os temores que nunca contraíram os músculos da face.   

Nunca procurei meu filho e lhe perguntei quais eram seus temores ou suas mais marcantes frustrações.

Impus regras para eles, lhe apontei erros, mas jamais vendi sonhos de que sou um ser humano que precisa conhecê-lo e precisa ser amado por ele. 

Nunca procurei um aluno que expressasse um ar de tristeza, irritabilidade ou indiferença. 

Mas a vida me ensinou... 
Somos criativos em excluir, mas inábeis em incluir.  

Começamos a entender que, quando somos frágeis, aí é que nos tornamos fortes.

Não existem pessoas imprestáveis, mas pessoas mal valorizadas, mal utilizadas, mal exploradas.   

O ser humano morre não quando seu coração deixa de pulsar, mas quando de alguma forma deixa de se sentir importante. 

Aprenda que uma pessoa pode ferir seu corpo, mais jamais poderá ferir sua emoção, a não ser que você permita. 

A vida se extingue rapidamente no parêntese do tempo. Vivê-la lenta e deslumbradamente é o grande desafio dos mortais.

(Do livro O vendedor de sonhos - Augusto Cury)

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Pra que te quero?!

Por: Rosamaria Roma

Planos...
Pra que te quero?!

Chega a soar como uma grande bobagem
Esse hábito de ficar fazendo planos
Quando não sabemos nem o que nos espera no dia seguinte.
É incerto mesmo para os mais felizes.

Ninguém deveria fazer promessas para o futuro.

Mesmo o que já possuímos pode nos escapar e, nessa hora
Em que pensamos estar bem, um mal pode nos arrasar.
O tempo transcorre segundo leis invisíveis, é certo, mas obscuras.


E por que me importam as certezas do dia a dia
Se eu permaneço na incerteza?

Não vamos deixar nada para mais tarde.
Vamos acertar nossas contas com a vida no dia após dia.

Que a razão do nosso viver seja sempre nós mesmos.
E que a Paz interior seja nossa maior meta.
 
Vamos viver cada dia sem planejar o amanhã.
 Não deixando nossa vida na pendência de um futuro incerto. 

 Sil e amigos!
Obrigada pelo carinho
Bom final de semana
Beijos

TUA POESIA

Por: Sil Villas-Boas




Pousei em mim tua poesia
Poesia que me acende inteira
Poesia que me faz voar
Leve, solta e livre ao vento

Poesia que me toca e me faz respirar
Teus sabores
Teu hálito agridoce
Teu beijo que arrepia
A tua boca na minha 
É Poesia

O calor do teu abraço
Acelera meus pensamentos
Perco todos os sentidos
A razão, a lógica, a lucidez

Nos teus versos desconexos
Faço-me (in)quieta
Insana felina
A arranhar tua  pele
A acarinhar tuas feridas
Tua Poesia atiça minha timidez.

terça-feira, 24 de maio de 2011

Somente um vulto

Por: Paulo Diesel




Ontem...
noite escura:
um vulto,
passos.
Folhas balançando nas árvores,
uma pedra atinge a única lâmpada acesa.
Pavor
e medo.

Em fuga
tropeças
e cais
e rolas
e acabas nos braços
do vulto
que sou
eu.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

CHÃO

...



Por @LoucaDeMente

...



Escorregadio...

E o líquido escorre pelo vazio;

No vazio escorrega-se!

Embriagada de líquidos vários;

Escorrega-se e cai!



O vazio transbordava faltas...

E o visco que o mundo a transformara?

Ela mesmo escorregadia... Vadia!



E tudo escorregadio... Caiu!



Mas, ainda não terminou;

Caiu onde... e por que não parara de cair?



E neste escuro, há tantas cores!

Tantas mãos, tantas bocas, tantos líquidos e gritos...

Contidos ou não.

Gemidos espremidos, mãos estendidas e pés que buscam o chão!



Almas em suspensão!



Mas, não há mãos seguras a segurar.

Escorregadio... Escorregadias a suar;



Escorregadias como a saliva de línguas num beijo de sufocar...

Como lágrimas de dor a rolar... Como o suor após o coito afoito! Que no vazio da carne tudo insiste em ficar solto...



Livre! Liberdade que se quer refém! Liberdade que quer alguém... Quer se vender... Por bagatela, por uma porção de emoção... Por uma mão... Um olhar de perdão... Alguém que seja seu chão!



E no entanto... Tão livre!



Escorregadio... E quem nunca brincou de escorregar? Escorrega/dor!



E este vazio transbordante, este escuro tão colorido, esta solidão tão multidão; este cair sem cessar...



Escorregar sim, mas há de em algum lugar se chegar!



...







domingo, 22 de maio de 2011

Chegou o Sol


Por: Sil Villas-Bôas

E hoje o sol chegou.
Depois dos dias chuvosos ocorridos, 
a fazer tarde e noite entristecidas e sem cores.
Sol que chega e clareia cada pedacinho dos recantos ensombreados pela falta dos sons da vida.

Rei Sol chegou
Veio para transformar lágrimas em risos,
Mágoas em sabedoria,
Prosa em Poesia.
Veio para apagar imagens antigas 
Das lembranças desprovidas de sentidos.

Sol ilumina (dor)
Sol fascina (ação)
Sol a nascer no (a)mar
E ficar no coração.

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Meu Coração Azul Tinteiro em Poesia


Autor: João Maria Ludugero

A poesia é como um riacho,
Leito de verbos
Que o mel adoça,
Onde a alma do poeta se banha,
Sob os primeiros raios
Do amor derramado
Ao quebrar de toda manhãzinha.
Sei que amar/é/linha
De sol, amar-elo,
Um deitar manhoso,
Manso abrindo janelas à imensidão,
No remanso das palavras
Que se prestam ávidas
À soberana manha
Do sentir, arte e ofício.
Poesia é unir/verso,
É perfume visível
Que não desaparece
Quando entranha na pele. 
É devoção, poder, paixão tamanha.
Poesia é meada,
É fio de esperança que se alinha
No equilíbrio de um pote sagrado
Sustentado na cabeça
Sob a rodilha
Do  eterno cio
De um rio onde
Se fecundam sonhos,
Mesmo que salobros sonhos,
A duras penas fertilizados
Em versos testemunhos.

Poesia é magia e potestade,
Que singra horizontes por dentro
Da carne viva do coração
Que se esvai sem medo,
E fortalecido se dobra
Até à boca do céu
E desce encarnado,
E cobre de azul tinteiro
A nobre veia do poeta,
Querendo fazer
Um pacto de sangue
Multicolorido.

Fazer Planos


Por: Cristian Steiner



Elaborar
Planos perfeitos.
Levantamento,
Descobrindo todo defeito
Todos eufóricos e contentes
Todos tem idéias maravilhosas
Soluções e táticas coerentes
Planos que defendem com unhas e dentes
E põem-se a frente da gente, impacientemente, e mente pra própria mente doente e conseqüentemente, Inconscientemente sente...
...o peso da responsabilidade, haja personalidade!

Executar...
Dor no peito
Descontentamento
O plano não feito direito
Diante da retórica, inocentes.
As barreiras são numerosas
A prisão da prática, uma corrente
Que prende a gente a gentes
Impõe o dormente batente, latente patente que nem a gente está ciente que é descanso da mente que mente Inconsequentemente pra gente...
...a práxis é a realidade, é a louca verdade.

Cristian Steiner

Imagem: Salvador Dali - Don Quixote

"Fazer planos e tomar resoluções proporciona muitos sentimentos agradáveis; e aquele que tivesse a força de ser somente, durante toda sua vida, um forjador de planos seria um homem muito feliz: mas deverá, em algum momento, descansar dessa atividade, executando um plano - e então se verá envolvido pela raiva e pela desilusão."

Friedrich Wilhelm Nietzsche
No livro  Miscelânea de Opiniões e Sentenças
Titulo  Original: Vermischte Meinungen und Sprüche

Texto publicado inicialmente no blog Cotidiano

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Tarde

Por: Fernanda Villas-Boas


A caminhada é a mesma que faço há alguns anos. O dia está espetacular: entre as nuvens que ultimamente ocupam boa parte do céu, o sol se deixa vislumbrar em tons  alaranjados de final de tarde, banhando as calçadas com a sua luz morna.

O balançar das árvores ao sabor do vento lembra cantigas de ninar que embalam sonhos. Mesmo em meio aos caos da cidade grande a natureza se faz prevalecer com sua força espetacular. Tive a impressão de que as pessoas pararam um instante, apertaram o pause das suas vidas para contemplar o belíssimo por do sol.

Um dia que começa a esmorecer, seu lume gentilmente dando lugar ao sereno. Deixo-me levar pelo instante, derramo todas as minhas inquietudes e permito que só fiquem o bom, o belo, o calmo. Está tudo bem.


Publicado em http://potedepalavras.blogspot.com/ 

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Sendo

Por: Cristian Steiner



Eu poderia ser sincero,
E não ser tão arrogante,
Direto
No mesmo instante que sutil,
Ao menos fosse claro
Não sendo tão concreto.

Eu poderia ser instável,
E ainda não deixar a desejar
Não esquecer de mim,
Nem de você
E de toda essa história.

Eu poderia ser direto,
Claro e objetivo.
Eu poderia até ser você.
Eu poderia ser eu.
Eu poderia ser qualquer coisa
Que não fosse o que nunca fui.

Poderia também
Alcançar objetivos
Passar por cima dos valores
Pisar nos bons adjetivos
E anestesiar minhas dores.

Teria muito trabalho pra definir.
Poderia mesmo ser tudo isso.
Poderia ser nada disso.

Cristian Steiner