terça-feira, 29 de maio de 2012

PITACOS POÉTICOS EM PLATIBANDAS, por João Maria Ludugero


Só sonhando Várzea,
interior de sonhos acordados;
pra me deixar assim a dar pitaco,
acalentado em lembranças tão presentes,
pra me deixar assim, poeta com sede.
Vou correndo dentro do Vapor, vambora?
pelo retiro de seu Olival me atiro, satisfeito,
banhado em tanques d’água nos lajedos e Seixos.
Rua da Pedra, rua do Arame, rua São Pedro,
Rua Raimundo Rosa, de coloridas platibandas;
Rua grande em velhas paredes caiadas,
onde o tempo desenha versos ao arrebol,
versos que transbordam de um coração tão varzeano,
de corpo inteiro depois que a saudade apeia,
sem amarrar a catraca das horas
que segue seu curso passante
num tic-taqueado sem pressa, solene,
num barulhinho de bica a pingar tantas vezes
nos olhos d'água dos ariscos de seu Virgílio Bento!

sábado, 26 de maio de 2012

O DONO DA POESIA, por João Maria Ludugero

E a poesia, quando vem, estoura
sai assim feito música de dentro
é que passa o dia inteiro zoando.
é que ela já estava me ninando há dias
ou quebra o pote da alegria, de repente,
antes mesmo de ganhar o mundo.
A poesia, quando vem à cabeça,
já está feita no nicho do peito,
quer sair afoita, apressadinha
só para ter seu papel na lida, 
sem se furtar às cores animadas
nem às tintas que o sol inventa
ao desenhar o presente de dádivas. 
Tem horas em que o poema cochila,
descansa, se resguarda num escaninho
da alma, mas acaba por destravar as celas, 
um pouco atrasado, mas sempre chega indomável
e dita a palavra de esteio, senha consentida.
E assim, a tarde se deita mais bonita, 
se banha de lua e de prata, contente se encanta
ao relento da noite que descamba em estrelas.

quinta-feira, 24 de maio de 2012

BELEZA NATA, por João Maria Ludugero


A vida nos faz belos, sim.
Resta nus se olhar,  
tendo tudo a ver, 
a enxergar a forma
a olho nu 
no próprio espelho
e se gostar, 
assim mesmo.
Tem gente
que já nasce moldado
pronto para a beleza... 
e não resta dúvida,
nem carece de tintas
nem retoques de cores,
nem verniz na cara.
São dádivas de Deus
Criaturas assim,
são de estirpe
do tipo que são bonitas
até chupando manga!

segunda-feira, 21 de maio de 2012

HORA DO "ANGELUS", por João Maria Ludugero


Quando estou lá
na minha vasta Várzea das Acácias
de ariscos de água doce,
entre o canto do sabiá
e o encanto dos canários de chão 
quando a tarde cai 
sobre o Calango,
eu bebo taças de alegria 
eu voo rasante Vapor a dentro
na cadência das estrelas 
que, afoitas, passam de soslaio,
a mergulhar no açude verde-musgo.
O vento do rio Joca ora me atiça, 
ora me alcança trazendo de repente
o rumor da brisa amena da noite
que me embala de contente.
Embevecido, admiro as duas palmeiras
tal qual vassouras de luz em feixes
varrendo a casa de São Pedro Apóstolo,
sob o badalar do sino da Ave-Maria.

sábado, 19 de maio de 2012

O CANTO DO GUERREIRO, por João Maria Ludugero




Quando careço desopilar 
quando me chega o cansaço,
me deixo levar pela Várzea a dentro,
retorno às velhas trilhas do Calango, 
vou ao riacho do mel adoçar o espírito, 
seja ao meio-dia, ao Vapor das horas, 
ou à meia-noite pelas quatro bocas, 
consinto-me inteiro, deixo ir ao rio Joca, 
retiro-me ao aconchego do meu lugar, 
ao som bonito de uma cantiga de bem-te-vi. 
Logo me pego deitado numa rede 
a contemplar o açude do Itapacurá 
E assim vou balançando a saudade 
no embalo de um aceno apenas imaginário... 
Pela rua grande vejo uma cidade pacata, 
um magote de meninos em algaravia 
a brincar de contente, a pintar a praça 
indo ao encontro das tintas da terra. 
E assim os dias se arrastam mais leves, 
e o que me acalma é ter esse dom de me soltar, 
de me emaranhar feito maracujá em lembranças 
que se enraízam no cerne da alma, 
jorrando cântaros de uma paz sem igual 
infinitamente preso a pequenos rituais 
que só encontro quando, mesmo distante, 
sinto que meus pés nunca saíram do chão 
da minha Várzea das Acácias!

terça-feira, 15 de maio de 2012

NIRVANA EM FLOR, por João Maria Ludugero


Minha sublime 
flor varzeana, 
minha flor formosa 
de rara beleza,
naturalmente linda, 
ornamentada
na cor mais viva, 
esplendorosa.
Nascida no lodo 
salobro do rio Joca
És minha flor de lótus, 
singela e deslumbrante
A evolar o perfume 
da paz em flor, 
na terra agreste 
a adornar 
o altar-mor 
da lida da gente
desde o Vapor 
ao riacho do Mel.
E assim te vejo florida 
e tão gloriosa
envolta na pureza 
que emanas 
luzindo pensares 
em sopros e lumes 
no abençoado êxtase sutil 
do meu Nirvana!

domingo, 13 de maio de 2012

MÃE!, por João Maria Ludugero



Quando cai o breu da noite 
e calafrios chegam à espinha,
não tenho medo do escuro,
pois sinto tua mão 
de veludo a me fazer cafuné
a espantar as sombras.
Chamo teu nome: Mãe!
E um certo lume 
abre um bonito clarão.   
Um anjo-de-guarda
me leva sob os acordes
de cítaras em notas
de rara beleza de uma cantiga
pelo campo dos sonhos.
És tu que me ninas, ó mãe!
eu sou teu eterno menino
deitado no colo dessa deusa
que a qualquer hora me ampara, 
me sustenta a cada precipício.
Anjo que me sussurra com calma
acalanto da minha alma:
Durma, meu filho!
Não tenha medo dos sonhos!

quarta-feira, 9 de maio de 2012

CASA DE POESIA, por João Maria Ludugero


Adentro a casa,
observo as paredes, os vãos
chego aos caibros, à cumeeira.
Algumas telhas rachadas
são fendas para ver estrelas,
fecho os olhos acordado
e tudo o que pesa se esvai.
Deixo que a noite entre
que o poema acenda lamparinas
com seu ares de azuis
a inundar a casa de luz e perfumes,
expulso dos quatro cantos a poeira,
as cinzas amontoadas nos nichos,
a poeira acumulada, as flores murchas
e então, livro-me dos fardos interiores, 
enfeito a mesa com vaso de jasmins.
E no bater de cascos incansável do tempo
ainda sonho em volta da mesa,
onde todos os credos se unem 
a repartir o pão, na beira do fogo
a entrelaçar as mãos calejadas.
Então, a casa toda se acende, 
afasta-se o breu das sombras 
e uma sintonia de luz acontece
dentro da cantiga que invade o coração
dos que ali habitam!

quinta-feira, 3 de maio de 2012

A MANIA DE ESCREVER ME LIBERTA, por João Maria Ludugero



Eles invadiram minha casa,
podaram árvores, cortaram flores
apagaram os muros, 
cimentaram ofendículas,
eletrificaram cercas e arames,
travaram portas e tramelas,
fortificaram a cela, amordaçaram-me até à prisão.
Trancaram meus livros no arquivo morto. 
Coitados. Eles pensam que me venceram,
mas esqueceram de lavar meu cérebro
e o coração, este não sofreu nenhum transplante.
E lá estava eu diante da solitária. 
Trouxeram água, pão e mais nada.
Havia ali apenas um toco de lápis... e o papel do pão. 
E ter um papel e um lápis já é um consolo.
Rasgaram minhas vestes, vendaram meus olhos,
algemaram meus passos, tentaram me isolar.
Havia, porém, um lápis e um papel,
além da parede caiada. 
Mantive-me são na gaiola, sem desespero nem sede,
não me abateu fome nem me rendi à solidão. 
Parede, papel e lápis,
eles desconhecem
o poder desses instrumentos!
Eles me dão penas, mas posso
com estes renovar as asas cortadas
e, sem titubear, voo além da cela
ao escrever meus poemas!