domingo, 2 de novembro de 2014

SÉRIE: VÁRZEA-RN - UM CAÇUÁ DE SAUDADES, Autor: João Maria Ludugero

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
SÉRIE: VÁRZEA-RN - UM CAÇUÁ DE SAUDADES,
Autor: João Maria Ludugero

Um bem-te-vizinho
Um canário-de-chão
Um Vapor de Zuquinha
Que já foi de Zé Catolé
Uma cantiga de galo-de-campina
Um beiju, uma tapioca, um grude de coco,
Umas soldas da prendada dona Carmozina,
Um bocado de paçocas, umas línguas-de-sogra
Uns bolos-pretos ou cuscuz de milho-zarolho,
Um alguidar de farofa-de-cebola-roxa misturado
Com temperanças de alhos, pimentas malaguetas e coentros,
Um flandre de raivas, carrapixos, cocadas, doces-de-leite,
Quebra-queixos, queijos-de-coalho, algodão-doce,
Além de tantos bem-bolados sonhos em papos-de-anjos
Esmiuçados por Suetônio de dona Zidora Paulino...

Um se degustar em peitos-de-moças e puxa-puxas
Em fartura de regalias em bolachas, brotes e sequlhos
Além das delícias dos pitéus de faceiras meninas varzeanas
Como senha de astuta e singela beleza entre tiaras e tranças
No inesquecível ditado de Seu Plácido 'Nenê Tomaz' de Lima,
Que agora mora no céu de São Pedro Apóstolo...
Uma alma sem corpo, um carro encantado
Uma mulher que chora(va) encostada num sanhaço só,
Um zumbido de abelha ou zangão,
Um coaxar de cururus e caçotes pelo riacho da Cruz...

Um ninho de anum a chocar no verdejante juazeiro
Lá na beira do rio Joca da Várzea das Acácias
Ou no paredão do açude do Calango
Ou pelas leiras dispostas pela seara do Riacho do Mel
Ou a colher um balaio de jabuticabas
Ou uma fileira de cajus, cajás, mangas
Ou um carregado saco de pitombas
Lá no Itapacurá de dona Julieta Alves
Ou no sítio da casa-de-farinha de tio João Pequeno...
Aonde a gente catava um caçuá de castanhas, macaxeiras,

Batatas-doces e um possante balaio de feijão-verde e favas.

ERRO MEU NUM 'MALEDETO' CASO DE AMOR, por João Maria Ludugero

 
 
 
 
 
 
 
ERRO MEU NUM 'MALEDETO' CASO DE AMOR,
por João Maria Ludugero



Sem rumo andei por muito tempo, a correr dentro,
No alçapão, na gaiola e no fojo de muitas prisões;
Depois de tantas luas, depois de tantos sóis,
Durante muito tempo busquei na praça do encontro
O construtor destas minguantes celas.

Em muitas esbaforidas encarnações
Lutei pela luz do pleno habite-se do amor,
Em vão busquei a ilusão da astuta morada
Na procura de descobrir a fonte da erva-daninha
De onde provinha o assanhado enfado da existência.
Mas agora te reconheço, maledeto,
E me presto a amortecer as dores!



Já não careces mais construir
Para mim a casa da estricnina.
Sim, o erro bem-bolado se desfez de uma vez
E todas as correntes do sofrimento ganharam zás!
Assim se romperam, ao se quebar o pote da fantasia...
Pelas bermas do desencanto ao desvario
Nem mesmo o nicho da tua casa existe mais;
Ela não passava de uma esboço vão em ruínas
De minha própria pessoa em perdidas garatujas.



Estou liberto das teias-de-aranhas da perdição
E agora vou em paz sem mais santas peçonhas
Rumo à plena realização, a partir de outro coração,
Encontrei a melhor parte de mim: o amor-próprio!


UM PASSADO A LIMPO DE PRESENTE: EM TERNAS MEMÓRIAS ETERNAS, por João Maria Ludugero

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
UM PASSADO A LIMPO DE PRESENTE:
EM TERNAS MEMÓRIAS ETERNAS,
Autor: João Maria Ludugero

EU ME LEMBRO SEMPRE, DIA-APÓS-DIA,
BASTANTE DE TODAS AS PESSOAS AMADAS
QUE SE FORAM EMBORA MAIS CEDO
MORAR NO ANDAR DE CIMA
JUNTO AO SUPREMO ARQUITETO DO UNIVERSO,
MAS ELAS NUNCA SE VÃO
LONGE DO CORAÇÃO DA GENTE,
POIS SÃO ETERNAS E FICAM REAVIVADAS,
PRA SEMPRE PASSADAS A LIMPO
A CORRER DENTRO E ALTO
A CINTILAR FEITO PÉROLAS
NO PRESENTE DE NOSSAS MEMÓRIAS!