quarta-feira, 27 de junho de 2012

BEM-TE-VI, por João Maria Ludugero


Um bem-te-vizinho 
canta perto 

da minha janela 
logo pela manhã.
Meu mundo se enche de luz:
luz na pele, poros, 
luz pelos cabelos

luz que corre pela casa,
luz que adentra 
do peito à cabeça,
luz que fosforesce 
por todos os lados.
Vinde a mim, meu bem-te-vi,
vou bem-te-vivendo, de fato, 

dentro da minha alegria solta
encantando alto a lida. 
Passo a entender tua cantiga:
meu bem, mal te vi, já te quero,
bem te espero e me realizo contente. 
Saiba que sou pro teu bico, e digo mais:
um bem querer assim tão natural
de flor em flor, tal qual um colibri,
faz-me animar a alma em poesia.
E assim levanto voo rasante, de sorte
só pra não mais lamentar 
as penas de outrora
uma vez que me libertaram o coração!

terça-feira, 26 de junho de 2012

GOL, por João Maria Ludugero




E assim é tão natural 
a gente gostar de jogar futebol,
de correr atrás da gorduchinha, e pimba! 
de criar jogadas, dribles incríveis e olés 
até o momento do grito na pelada, 
um momento da mais pura alegria, 
um instante de paixão 
e glória sem preço, 
um momento assim 
comparado ao orgasmo. 
O momento do gol na rede 
que estufa o peito e apraz 
sob o apito da simples euforia 
dessa gente arteira 
que dá rasteira na tristeza 
e a joga pra longe 
no intuito de voar 
de braços abertos 
ao encontro da paz, 
a correr para o abraço feliz 
nos campos da Várzea, 
só pra comemorar um golaço 
numa peladinha de segunda. 
O objetivo é esse: chegar lá, 
montar na eguinha da felicidade 
e simplesmente acreditar na força 
do coração, sem acertar na trave.

sexta-feira, 22 de junho de 2012

ERA UMA VEZ UMA FORMIGA CABEÇUDA, por João Maria Ludugero


Foi-se!
Escafedeu-se de vez.
Adeus aquela criatura atarantada
Que se preocupava demais 
Com as pulgas de trás da orelha,
Com coisas de somenos importância, 
Acabou ficando com a cabeça cheia de minhocas.
Um formigão bem que lhe deu então a ideia de fuga:
De usar as minhocas lá com seus anzóis, 
Numa pescaria sem compromissos, só pra relaxar,
Para se distrair a tempo de não perder a cabeça 
Com as preocupações da lida baratinada
dentro do labirinto do dia-após-dia.
Mas ela não se deixou incutir com a dica e, alheia, plufth!
A maldita cuca pegou em cheio. E jaz! 
E era uma vez a tal criatura 
desfeita assim tal qual formiga cabeçuda 
Atordoada com todos os grilos. Coitada!

quarta-feira, 20 de junho de 2012

NÃO ME CANSO DE ESCREVER, por João Maria Ludugero


Tenho sede insaciável 
de sentir o que as palavras
têm a me dizer. Já amanheço 
com o gosto delas nos olhos, 
consentidas ou não, 
alvoreço de boca seca 
e logo me alivio, 
ao compartilhar dádivas advindas 
da luz que entra e me desenha 
sentidos em cores vivas 
que não deixam secar 
a força do coração e a nitidez da mente. 
Escrevinho sempre com o ânimo 
de quem está para reverdecer 
e quem risca pensando, 
caminho os olhos numa lida 
que me dá a sorte de ganhar o mundo, 
com as mãos sempre ávidas, 
dispostas a compor 
versos e reversos, 
num universo sem rimas. 
É por isso que só escrevo 
e não me sinto só, leio-me, 
invento casas, crio asas 
e passo a correr dentro, de súbito, 
até quando me ponho na cela 
depois de tantas luas, 
mas tão logo me liberto ao acordar 
sob os primeiros raios de sol.

terça-feira, 19 de junho de 2012

UMA ROSA A TODAS AS MULHERES VARZEANAS, por João Maria Ludugero


Rosas, 
Penhas, Luzias, Marias, Ritas, 
Júlias, Anas, Lucilas, Benas, Dálias, Glórias, 
Maricas, Marocas, Joanas, Zildas, Nedas, Isas,
Nanas, Nenas, Ninas, Nininhas, Nucas, Nanucas 
Dadas, Piedades, Sinhás, Zélias, Netas, Nitas, Jaciras, 
Rosildas, Dalilas, Querubinas, Beatrizes, Julietas, Ângelas,
Socorros, Cleones, Vitórias, Benildes, Anatildes, Alices, 
Claudinas, Carminhas, Cilas, Onélias, Santinas, Ianes, 
Carmozinas, Albanitas, Cidas, Leniras, Crislaines, Marinas, 
Suzéus, Zidoras, Do Carmos, Das Neves, Das Dores, Da Luz,
Wilmas, Dezildas, Oneides, Nices, Neides, Zeneides, Tivas, 
Neuzas, Geniras, Sofias, Dalvas, Lídias, Sônias, Sandras, 
Leilas, Cleides, Leides, Noildes, Risolitas, Gabrielas, 
Veras, Inês, Lilas, Verônicas, Hernocites, Sulamitas, 
Lourdes, Lúcias, Lucindas, Clarices, Divas, 
Fátimas, Rosários, Célias, Beneditas, Zitas, 
Graças, Ceiças, Raimundas, Gildinas, Amélias, Dóias,Tonhas, 
Elietes, Elinas, Jandiras, Belas, Pretas, Belinhas, Zabéis, 
Tinhas, Ticas, Tecas, Terezas, Telmas, Severinas, 
Viras, Camilas, Miras, Lolas, Arletes, Vânias, Licas
Rosálias, Luzias, Celinas, Palmiras, Franciscas, 
Lenices, Marinans, Tecas, Biricas, Zefas, Zefinhas... 
São tantos os nomes das mulheres de Várzea! 
Me perdoem se esqueci de mencionar alguém nesse rol, 
mas sintam-se aqui especialmente representadas. 
Todas são dignas. Sábias. Cabeças erguidas. 
Elas construíram/constroem a base, o alicerce 
dos lares da nossa Várzea das Acácias. 
Mulheres de coragem, esposas, mães, filhas, devotas, 
amigas de todas as horas no batente da vida! 
Seja em casa, a cuidar da família, dos entes queridos, 
seja na cozinha, na lida diária, na escola, na igreja 
ou até com a trouxa e a lata d’água da cabeça. 
Mulheres destemidas, heroínas de fé e esperanças, 
pacatas senhoras das terras do agreste verde. 
Rainhas da doçura, de quanta ternura e beleza, 
apesar de toda a aridez dos caminhos. 
Mulheres que acreditaram/acreditam 
em Deus e em si mesmas! E hoje, escrevem 
uma nova página na História das mulheres varzeanas, 
que com garra, brio e determinação ajudaram a criar, 
a fincar as raízes da Várzea que aí está, 
mesmo agora quando muitas 
já seguiram para o outro andar, 
onde estão lá no céu de São Pedro apóstolo, 
mas que deixaram suas marcas patentes 
aos descendentes pra luta continuar, 
arquitetando sonhos e esperanças, 
que prevalecem como exemplo 
da força e da grande expressão 
da Mulher Varzeana! 
À toda essa gente linda, dedico este poema
e uma rosa com muito carinho e consideração!

O INTERIOR DA DEVOÇÃO, por João Maria Ludugero

A procissão 
Sob crédulos olhares
Se arrasta
Na tardezinha 
Pelas quatro bocas suplicantes
Rezando Ave-Marias. 

O velho caminho do Calango, 
Se desfaz, passo a passo,
Tranquilo e passadiço, 
Engolindo a sombra do dia 
Que se avulta aos arredores
Das simples casas caiadas,
De onde fumegantes cheiros
De pão, cuscuz e carne assada 
Se espalham pelas ruas e becos
Da nossa pequena Várzea.
As mulheres preparam 
Suas novenas,
As mulheres preparam 
Suas iguarias 
E vão se achando 
No fio da meada,
Enquanto dona Neves Mulato 
Tece seus coloridos fuxicos
Com todo prazer e desvelo,
Outras fazem corda de agave, 
Desde meninas, a ver 
As próximas cenas,
Os entraves e tramas 
da mesma novela, 
Enquanto outras barrigas 
Tricotam novelos e crochês
Pelos 'quilaros' da TV.
Enquanto são acesos 
Outros candeeiros,
Enquanto outras velas 
Ardem suas parafinas, 
Enquanto outros seres ao desmantelo
Acendem seus pedidos suas sinas... 
E os meninos continuam não rezando. 
E São Pedro apóstolo, 
Lá no topo da igreja, 
Assiste a tudo de camarote, 
Enquanto o povo ao andor aclama,
Enquanto a outra imagem retorna 
Ao altar-mor, sob uma salva de palmas,
Enquanto o fogo da fé se inflama,
Enquanto o padroeiro não dá as costas
Pra nenhum varzeano, de sorte,
Muito menos pra rua do arame!

sexta-feira, 15 de junho de 2012

BRINCAR DE POESIA, por João Maria Ludugero


Quem brinca de escrever poesia,
brinca com palavras nuas 
passa o tempo a senti-las na alma
dentro do colorido que realça a vida,
consente-se a achar fios e meadas,
a tecer coisas que só o coração desenha. 
Brincar de fazer poesia anima, instiga a pensar,
faz a cabeça da gente girar, ganhar o mundo,
depois de muitos sóis, depois de tantas luas.
Brincar de escrevinhar versos afasta o tédio,
é arrimo, é amparo que não deixa a cuca pegar. 
É como se brinca com bola, papagaio, pião.
Só que bola, papagaio, pião 
de tanto brincar se desgastam.
As palavras não: quanto mais se brinca com elas 
mais novas e ávidas ficam. E como significam!
Como a água na correnteza do rio Joca, 
como água sempre nova a brotar 
direto da fonte dos ariscos, cristalina 
assim como olhos d"água que não secam nunca,
como cada dia a reverdecer em esperanças novas.
E aí, que tal, vamos que vamos brincar de poesia?

quarta-feira, 13 de junho de 2012

CURICA, por João Maria Ludugero


E lá vai o menino com seu carretel de linhas...
Ele segue desnudo a se descobrir, a se revelar
livre, leve e solto com sua pipa no ar
a conquistar o céu, desde pequeno,
a ganhar linha espaço a fora.
O menino empina a pipa, com garra,
há paz dentro da inocência de ser,
há um desapego a cumprir seu papel.
É assim quando a linha se quebra
acima de sua cabeça, o artefato ao léu
ganha as alturas, e o menino sonha,
voa junto até o brinquedo tocar o horizonte,
a brincar como se fosse papagaio ao vento...
Nenhum medo mais o assola nem o assombra,
nem mesmo a cuca pega, nem os grilos,
nenhum papa-figo o amola... que nada!
Ele volta à oficina de brincar de avoar,
E assim se refaz, num instante se consola,
num piscar de olhos constrói outro instrumento
e lá se vai na nave do contente da vida
o menino a pintar o sete dentro do quintal
com sua nova curica que o leva pra longe.

segunda-feira, 11 de junho de 2012

TRAVESSIA, por João Maria Ludugero




Vamos que vamos 
colorindo as horas, 
versando sentimentos 
fincando nossas raízes 
no solo que fertiliza 
todas as saudades 
no caminhar pelas bermas
que iniciamos, sem medo, 
seguindo esperanças renovadas
em pegadas sob os cascos 
incansáveis do tempo 
nas andanças
de braços abertos, 
salvaguardando a nossa 
travessia.

sábado, 9 de junho de 2012

GENTE RICA SEM SE DAR CONTA, por João Maria Ludugero




Até parece que foi ontem...
Como num folguedo de rua
no final do dia, um magote 
de meninos acendia rojões e traques 
na fogueira de achas 
no terreiro de dona Alice de seu Abílio 
bem próximo ao beco de dona Neda, 
que baforava seus fumos 
num respeitável cachimbo 
pra afugentar as muriçocas. 
Antonio Horácio já fora se deitar 
a se balançar na rede de algodão, 
onde até os remendos alinhavados 
mais pareciam arte que necessidade. 
E toda rua do arame se punha a cantar, 
até mesmo aqueles que não sabiam cantar, 
caíam na dança improvisada de arrasto 
com as meninas faceiras vestidas de chita, 
e na gandaia dos meninos travessos de calças curtas. 
Ao passo em que seu Cícero cego dedilhava a sua sanfona 
num forrozeado de lascar o cano, de relar o bucho, 
de levantar a poeira do chão batido da rua do arame. 
Outros contavam estórias, riam, cochilavam na paz 
após degustar as guloseimas, doces e pitéus de dona Sinhá... 
E a gente se sentia tão rico, e com tão pouco fazia a festa. 
Mas o que era ser rico mesmo? 
Isso não importava, não se dava conta, 
pois a gente se misturava contente, 
de barriga cheia, de alegria, de pronto 
agradecia a São Pedro por aquele estado de graça interior. 
A gente era humilde sim, mas podia sorrir de verdade, 
tão simplesmente aquela paz cabia na rede de dormir. 
Até parece que foi outro dia...


quarta-feira, 6 de junho de 2012

CÉU ABERTO, por João Maria Ludugero


Queria ser aquele pássaro azul 
que ao cantar seu mavioso encanto 
chama a chuva, ainda que inconstante e breve. 
Queria abrir as cortinas das nuvens
 fazer a chuva cair cheia do céu... 
Queria ser um farfalhar de relampejos
 a alumiar o chão da minha Várzea.
 Entrar, invadir as casas, trazer a chuva
 para molhar os campos do Vapor,
 molhar os seixos, os lajedos
 e as macambiras em flor. 
Ah, coração varzeano,
 bem sei de onde vens, 
bem sei por onde andaste. E como sei... 
Vens das bandas dos verdes ariscos, 
 dos sítios aromáticos do Itapacurá,
 onde as mangueiras florescem,
 onde há pitombas, cajueiros e mangabas.
 Vens da ribanceiras
 lá da beira do Joca,
 rio de água salobra, 
onde os coqueiros se aprumam
 e se curvam aos beijos do vento
 e onde, em noites de lua cheia, 
longe e perto, passeia o carro encantado
 rondando pelas ruas por onde perambula
 a mulher que chora: lenda viva,
 espírito do ar noturno da Várzea de ontem. 
Ah, como eu quero ser essa chuva bendita 
que invade as ruas, becos 
 e telhados das casas caiadas 
 da minha Várzea das Acácias! 
quero encher o Calango, escorrer pela vargem, 
sangrando em esperanças novas,
 a molhar o agreste chão.
 Muito me agrada andar em tua companhia, 
porque eu te quero muito bem, 
doce chuva de São Pedro, 
que inunda meu peito, 
me deixa todo contente 
 e assim tão agradecido, satisfeito
 a contemplá-la escorrendo pelo céu aberto.

segunda-feira, 4 de junho de 2012

MANUALMENTE, por João Maria Ludugero


Há dias em que já acordo assim afagado,com meu corpo tomado dos pés à cabeça por mãos que me apalpam de passagem num gozo extremo de alma sedenta: são tantas mãos nunca santas, e como que afoitas me inflamam ao tato, de fato, que me tocam a lida, em bulas e cores, que apressam compressas com vigor, que arredam ziquiziras, banzos e tédios, que me esfregam sem pena na pele um paliativo, que me ungem, benzem quebrantos, mandingas que me curam das dores e de outras mazelas que se encostam na vida, de repente. E assim vão amassando a impermanência, antes mesmo que a louca decida levar seus anéis, lavar as mãos e transitar em julgado sua última sentença! 


sexta-feira, 1 de junho de 2012

NA HORA DO BANZO, por João Maria Ludugero



Da minha Várzea parti 
um dia já bem distante 
p’ra voltar, quando não sei 
parti, mas nunca de lá saí,
pois ela mora em meu peito
sinto uma saudade tremenda
dessa que castiga a gente.
Sou canário fora do chão,
galo longe da campina,
quem te viu, quem te vê
assim tão bem-te-vizinho solitário,
pintassilgo, pássaro engaiolado dentro
do alçapão da minha cabeça feita,
que não se contenta com o alpiste
que lhe trazem ali, à mão.
Estou moleque entristecido,
esquisito que só vendo,
na hora em que a cuca pega
solta os bichos num cri-cri de grilos,
longe da sua terra querida,
que se dana a pensar, em puro banzo,
fica de cá, só cubando com calor
a vida que o leva acolá, consentido,
doido de jogar pedra na lua, e como
só pra ver se enramar seus pés de jerimuns.
E, de tal sorte, destino ou sina
de se encontrar noutras searas,
afastado a tantas léguas
da sua Várzea amada,
do seu Vapor tão vital,
embora entretido noutra lida,
sente o coração ardente afoito a bater,
a crepitar nessa chama interior,
certo de que o amor não fica longe!