sexta-feira, 30 de maio de 2014

VÁRZEA-RN: MEU REFÚGIO, por João Maria Ludugero

VÁRZEA-RN: MEU REFÚGIO, 
por João Maria Ludugero

Hoje estou em Brasília,
Mas ainda me acolho, Odilon, meu pai,
À sombra da tua gravioleira.

Aqui tenho ipês de toda cor,
Tenho também flamboyant 
Da cor de brasa, cor de fogo, 
E outras patas de vaca
Que dão flores brancas e rosas.
Não tenho o Maracujá em rama,
Tenho quaresmeiras roxas
E um pôr-de-sol quase lilás, 
Tão bonito quanto o crepúsculo daí, 
Tipo aquele que se faz 
De laranja a encarnado 
Quando a tarde varzeana cai pra lá 
Pelas bandas do açude do Calango.

O céu daqui é mais perto, 
Tendo em vista que estamos 
No Planalto Central do país.
Tenho saudades das duas palmeiras
Da catedral de São Pedro Apóstolo
E do Vapor que, para mim, 
Não envelheceu, apesar das ruínas
Do velho casarão assombrado.

Sei que, além das acácias,
Plantaram pelas ruas da Várzea
Copados 'ficus' verdejantes,
Mas a frondosa algarobeira 
Continua lá, maior ainda.
Sei que o fogão-a-lenha lá de casa 
Rachou o barro, cheio de cinzas.
As jarras, tinas, potes e bilhas 
De armazenar água dos Ariscos
Caíram em desuso, 
Estão encostados no puxado 
Que foi feito na cozinha.

A água agora vem encanada da Una,
Lá das bandas da vizinha Espírito Santo.
O Cruzeiro, não me esqueço, que bendito,
Foi preciso substituí-lo pelo velho modelo.
A saudade de tudo é grande.

E a dona Maria Dalva, a nossa mãe, 
Não está nem volta, pois agora brilha 

Bem lá no alto do céu de São Pedro!