quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

FANTASIA: A HORA DO PAPANGU, por João Maria Ludugero

Ele se entregou sem bloqueio.
Caiu na colorida folia da rua.
O carnaval lhe chamou de jeito.
Não teve desculpa, aderiu 
Sem protesto ao batuque
Dos tambores e das fanfarras. 
Foi fundo na vida, 
Nem pintou a cara de tédio,
Não quis água nem talco, 
Não quis a vista embaçada
Quis a alma solta em festa,
O corpo livre de alegoria.
Quis alegria sem máscara
Quis a combustão das coisas vãs,
Quis acreditar na graça, na utopia
Ao se mostrar sem medo, extasiado,
Desnudo ao encontro da praça.
Incorporou o bicho que nele existia,
Recebeu de encosto o papangu
Que nele se alojou, ocupando sua mente.
Pensou: se tudo isso é o que o olho inventa
A gente pode ser o que desejar. 
Uma ressalva: só tem que ver
Se a cabeça realmente aguenta!
Nem titubeou - Ele caiu na farra, exposto à chuva
De confete e serpentina. Foi lá em bloco
E disse a que veio, dispôs-se ao brilho,
Realçou sua fantasia e, de súbito, de banda
Desapareceu no ar feito purpurina,
No meio da multidão eufórica a ferver.
E ninguém mais soube do seu paradeiro,
Só ficou a marca da ilusão no meio-fio:
Uma máscara rasgada jogada ao relento,
E junto com ela, estilhaços de vidro ainda na moldura
A refletir um coração diluído no sumidouro do espelho.