segunda-feira, 5 de novembro de 2012

AZUIS, por João Maria Ludugero


Eu já pintei de azul os meus sapatos 
por não pode azulejar as ruas,
depois, despi-me do terno azul marinho
e colori as minhas mãos e as tuas. 
Descalços, ficamos nus em pelo, sem vergonha
de derramar em nós o azul firmamento
e armar no céu a lua de prata...
Enfim, depois de tantos sóis, sem cansaço,
Entornamos simplesmente o azul 
sobre vestidos, juízos e gravatas.
E mergulhados em nós, 
tangemos os percalços,
e cheios do céu, caímos feito chuva 
a molhar a terra toda prosa e nua às tintas,
afoita para receber nossos pingos azuis...
E assim achados no azul nos contemplamos arteiros.
E foi aí que vi teus olhos d'água a marejar os meus,
e num piscar de olhos, pude ver tua íris de soslaio 
a me convidar a correr dentro do teu olhar contente 
vertiginosamente azul. Azul-piscina,
onde meu olhar se espiou ao mergulhar inteiro.

CABIDES E RABIÇACAS, por João Maria Ludugero



E dependurado em ideias me inspiro
se miro até onde a vista
do meu eu-menino alcança. 
De danadices de menino, 
o moleque aqui entende de cor; 
posso até dizer prolifera-me 
em mais ser do que ter 
sob os ângulos tangentes do ente adulto 
rente às retas onde o corpo demora, 
até atravessar o arco da velha, de súbito, 
sem cancela ou calos, com sebo nas canelas, 
a distância que em outros me desdobra. 
Ó serelepe da mulinga esse menino afoito, 
que dá rabiçacas nas horas pesadas do tempo 
e logo passa a limpo os ponteiros do relógio, 
sem descuidar de arregaçar as mangas, 
nem cós nem colarinho ali se avia. 
Cá com seus botões, cinge casas, descabido, 
arrematando estripulias, quebrando vidraças, 
arremedando pássaros e abrindo gaiolas, 
girando sóis e a roda do mundo 
e até atirando pedras na lua. 
Sem temer as convenções de compostura 
seu corpo recusa, feito menino agreste, 
a correr solto pelas capoeiras da Várzea, 
e esquece as medidas impostas 
ao homem e a sua hora. 
─ Pouca ou nenhuma serventia 
terá por preocupação, 
pois terá abolido o método e a forma 
que queira pendurá-lo num cabide, 
pois dará rasteira no quebranto, benza-Deus! 
e, teimoso, se levantará novinho em folha!