sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

VÁRZEA-RN: O AMOR QUE FICA... Autor: João Maria Ludugero

 
 
 
 
 
 
 
VÁRZEA-RN: O AMOR QUE FICA...

Autor: João Maria Ludugero

Várzea
não a Várzea
da mulher que chora infeliz
com uma troucha de roupa na cabeça
e na outra mão a puxar uma criança faminta,
não a Várzea politicamente dividida
de um lado corujões
do outra banda, bacuraus

Várzea de São Pedro
sim a Várzea unida
das quermesses
das fogueiras
das novenas
dos folguedos
das quadrilhas de Seu Bita
do 'anarriê' de dona Conceição Dama
da feirinha livre aos domingos
Várzea que aprendi a amar desde cedo
Várzea do milho e da pipoca

Várzea da minha infância
da sinuca do Salão São Luís
de Seu Lula Florêncio, pai do Silva
do Seu Otávio Gomes, pai do Maninho
da rua grande do mercadinho
onde a gente brincava de tudo
da rua onde morava Seu Walfredo
onde a gente ganhava torrões de açúcar pra fazer puxa-puxa
da rua onde plantadas as duas majestosas palmeiras
do Seu Minô de dona Marina que proseava ali na esquina
sentado numa cadeira de balanço
a espreguiçar a rotina numa pele de carneiro tingida de laranja

Depois do jantar as famílias tomavam a calçada com cadeiras
conversas jogadas fora, fiados mexericos
namoros no oitão da igreja, amassos e risadas
um magote de meninos e meninas brincava no meio da rua
um magote de gente de bem com a vida,
gente que não carecia de razão alguma pra ser feliz

Porque a felicidade estava o tempo todo ali, de sobra
mesmo que fosse de vidro
o anel que a vida nos desse,
porque brilhante era o sorriso
que ladrilhava nossa rua
e a gente adormecia no colo de Mãe Dalila,
a sonhar com o amanhã,
a pegar com a mão o sol de um novo dia
essa é a Várzea que a gente leva
pra sempre guardada no coração,
relicário do Amor que fica...

MÃE CLAUDINA, por João Maria Ludugero

 
 
 
 
 
 
 
 MÃE CLAUDINA, por João Maria Ludugero

Oh, minha Virgem Maria!
vejo que lá do Calango
subiu um corisco
abriu-se um clarão
rasgando o céu
sol sumiu, acho
que se deitou no açude
deixando a tarde toda um breu

O véu do tempo se rasgou
tremeu terra e arvoredo partiu,
tremeu a cruz do rio 
parecia mais um rojão
daqueles de festa de São João,
só que de estampido maior
do que fogo de artifício

Estremecendo tudo
labaredas tão medonhas
a cortar as nimbos,
bem que vi fogo cair
do céu de São Pedro

A chuva caiu aos cântaros,
choveu noite e dia, sem trégua
feito tromba-d'água
veio a cheia do rio,
trouxe jias, trouxe sapos
a enchente alagou as capoeiras
encharcou os caminhos de Vapor

O Calango sangrou tão bonito
se derramou pela Vargem
o Joca se espraiou pelos roçados
sob o canto mavioso do bem-te-vi
no balanço das duas palmeiras

Lembro-me disso muito bem,
a gente tinha receio disso não,
pois o pavor se dissipava ligeiro
sob a reza forte de Mãe Claudina,
benzedeira de mão cheia,
que era também parteira
a gente sempre tinha esperanças novas

Ela, tão pequenina, enfrentava
de cabeça erguida, sem assombração,
munida apenas de seus credos,
de baforada em baforada no cachimbo
de fumo de rolo, confiante na fé,
destemida, afastava até mesmo
os perigos da natureza

que viesse raio ou trovão
ela não escondia os espelhos
pegava linha e agulha
e costurava nossos medos

Quem foi que disse
que havia tempo ruim
lá pras bandas da minha Várzea?
se ninguém ouviu, eu quero agora
com esses versos simples louvar,
bendizer a ilustre e bondosa Mãe Claudina,
guerreira de luz, saudosa senhora
desatadora de nós, 
um pouco mãe
de todos nós varzeanos...




A REDE DA AMIZADE, por João Maria Ludugero

 
 
 
 
 
A REDE DA AMIZADE, por João Maria Ludugero

Dantes cantava-se que 
Até os mortos vão ao nosso lado, 
Mas o problema hoje são os vivos 
Que se esquecem que o são... 
Portanto, caros amigos, 
Sinceros, sem cera mesmo! 
Cravos ou (es)cravos da vida, 
Dentro e fora da alma em flor, 
Maior que o pensamento porvir 
Por esse destino amigo, venha logo! 
Não percas tempo que a ventania 
Dia-após-dia, é minha amiga também! 
Em terras firmes, a correr dentro, 
Em todas as fronteiras da lida, 
Seja bem-vindo quem vier por bem... 
Se alguém houver que não queira 
Traga-o contigo aos magotes 
E aqueles com medo da cuca, 
Ó Santa Maria, Mãe de Deus! 
Aqueles que ficaram com os vaga-lumes 
Com o pisca-pisca ligado na bunda 
(Em toda a parte todo o mundo tem) 
Risonhos bem venham me visitar, também... 
Traga esses outros benditos a mim, 
Porque a casa é nossa 
E o alpendre nos chama, 
Bem-nos-querendo na rede 

Em acordes movidos de sonhos!

AMIZADE SINCERA, por João Maria Ludugero

 
 
 
 
 
 
 

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
  
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
AMIZADE SINCERA, 
por João Maria Ludugero. 

O tempo chega no vai-e-vem, 
No balanço da praça 
Do encontro 
Das quatro bocas... 
Os anos marcam 
Seja na face, corpo, 
Em sua mente reverdecida: 
Seja no cantar de cada 
Parabéns! 
E também quando chega uma época 
Em que não se quer dizer mais a melhor idade. 
O engraçado, é que o inverso também acontece: 
Tem gente que se renova, como fênix renascida... 
Parece que os anos voltam: 
Se sentem mais soltas, contentes como crianças 
Ao ganhar o brinquedo que almejavam. 
Outras tantas, remoçam de verdade. 
Apesar dos aniversários advindos, 
Essas têm cheiro de flor na alma, 
Asas de anjo, sem os dentes de antes, 
Mas continuam doces como mel. 
Pois se vertem no chão de dentro a ocupar sopros de amor: 
Onde repassam, renovam também aqueles que estão à sua volta. 
Pois cativam com seu carisma deixando quem está do lado, 
Com jeito de cravo e rosa a florir também, 
Pelo menos por algum tempão de todos os lados... 
As amizades assim são muito bem-vindas! 
Colorem nossas vidas, dentro e alto, 
E não nos deixam esmorecer ao desânimo.