quinta-feira, 25 de junho de 2015

CANTIGA VARZEANA, por João Maria Ludugero

 
 
 
CANTIGA VARZEANA,
por João Maria Ludugero

Se acaso me perguntares onde fica Várzea
Sigo a rota que o meu coração partido invade,
Cruzo pelas trilhas de algum cabra da peste
A colher, feijão-verde, milho, macaxeira, maxixe, jerimum
E comungo ao canto de um astuto bem-te-vizinho afoito
E bem me achego ao rincão do Maracujá ao fim da tarde amena
Ou me deparo ao Umbu a partir de uma manhã espairecida,
Tendo o sol como uma brasa que ainda arde ao Vapor,
Mergulhando num Riacho do Mel repleto de varzeanidade,
A marejar meus olhos d'água a transbordar de saudades,
Ao andar, a correr dentro e a voar alto pela seara de Ângelo Bezerra,
Terrra da inesquecível madrinha Joaninha Mulato!

Tanta e quanta cantiga agreste e brasileira
Desta terra que eu amo desde menino levado da breca,
Em flores de marmeleiros, macambiras, gravatás, beldroegas,
Jatobás, canapus, urtigas, juncos e melões-de-São-caetano,
Verde-musgados Seixos das mangas, cajus, cajás, jenipapos,
Terrra dos mulungus das quebradas do açude do Calango...

E na hora do arrebol que ainda me nina
Observo o sol do agreste entardecer alaranjado
Com o Gado Bravo vindo virar minha cabeça,
Sem medo da cuca esbaforida, mas, se preciso for,
Sou mesmo de assanhar até os pelos da venta
Para dar Formas aos momentos de viver
E nos olhos vou levando o encantamento
Desta Várzea que eu amo com tamanha devoção.

E cada poema que eu componho é um pagamento
De uma dívida de amor e da mais sincera gratidão.
Escuto a cantiga potiguar e brasileira
Desta Várzea que eu tanto amo desde cedo,
Flor de vida, Itapacurá de mel de abelhas europeias,
Recanto de caldo de canas-caianas e curimbatórias
Lá do engenho de tio João Pequeno e dos carregos de sacos
De pitombas, alguidares de paçocas e queijos de coalho
Lá do possante sítio da inesquecível dona Julieta Alves;
Arisco de Virgílio Pedro das mangas, castanhas e cajus,
Sem jamais esquecer dos beijus, grudes e tapiocas
Lá da casa-de-farinha de dona Tonha de Pepedo,
Seara de amores e das mais renovadas esperanças.

quarta-feira, 17 de junho de 2015

SÉRIE: RELICÁRIO DA VARZEANIDADE, por João Maria Ludugero


 
 
 
 
 
SÉRIE: RELICÁRIO DA VARZEANIDADE,
Autor: João Maria Ludugero


Eu, terno menino poeta João maduro Ludugero,

Bem sei que trago no coração uma saudade sábia,
Feito menino levado da breca, sou de assanhar
Até mesmo os pelos da venta ao Vapor,
Pelas quatro bocas dos Seixos aos Ariscos de Virgílio Pedro,
Do Maracujá ao Umbu das jacas, cajus e dos cajás-mangas,
Pelas casas-de-farinha do Itapacurá de Tio João Pequeno
E do carrego de pitombas de dona Julieta Alves,
Pelas Formas a encontrar o Gado Bravo,
Pelas macambiras do Gravatá à Lagoa Comprida,
Da beira do rio Joca ao açude do Calango,
Pelas trilhas da Várzea dos Caicos, dos Marreiros,
Pelas renovadas esperanças de dona Tonha de Pepedo,
Deixando as coisas passarem,
A andar, a correr dentro e a voar alto
Como se não passassem pela seara
Da inesquecível madrinha Joaninha Mulato;
Livrando-as do vão do tempo.
O caminho está construído com afinco
E eu permaneço em contínuo desafio,
Salvando a sua essência num legado
Da mais plena e pura varzeanidade.
É a única maneira, aliás, de lhes dar permanência,
Ou seja, imortalizando-as no fundo do peito
Num singelo e esplêndido relicário de amor
À bonita terra agreste de Ângelo Bezerra.