quinta-feira, 11 de setembro de 2014

VÁRZEA-RN: UM CAÇUÁ DE SAUDADES II, por JoãoMaria Ludugero

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
VÁRZEA-RN: UM CAÇUÁ DE SAUDADES II,
por JoãoMaria Ludugero


Eu fui a vargem, eu fui o açude do Calango.
Do meu solo primeiro veio a seara do Vapor.
Do rio Joca veio o rio de Nozinho e veio o riachão.
Veio o verdejante coqueiral, veio o riacho da cruz,
em razão da morte que outrora ocorreu ali na beira
do rio que desagua a renovar esperanças do estio,
além das cacimbas, do fruto e das flores advindas
de mulungu, fedegozo, beldroega, canapu e ingazeiros.

Eu sou a Várzea de Ângelo Bezerra.
Sou o chão-de-dentro com alpendres e varandas,
que se prendem ao habitat dos galos-de-campina.
Sou o pote que mata a sede de teu lar.
A mina alvorecida de teus ariscos,
A pedra verde-musgada dos teus lajedos.
Sou a espiga de milho, a macaxeira, a mandioca,
O jerimum, a batata-doce, o feijão-verde de teu roçado
e certeza tranqüila ao teu valioso esforço de subsistência.

Sou a razão de tua vida no agreste verde.
De mim bem-te-vieste pela mão do Criador,
e a mim tu voltarás no fim da astuta lida.
Só em mim acharás descanso e Paz.

Eu sou a Várzea, o berço da tua vida,
Uma bem-querida e singela seara-mãe potiguar,
Feito Ana do Rego ou dona Lucila de Preta,
Ícones da terra da prole de filhos, pais, avós.

Eu sou a Várzea de madrinha Joaninha Mulato
Que era sincera e abençoada mãe de Seu Bita;
Eu sou a Várzea de Dalila Maria da Conceição,
Rezadeira varzeana com determinação e afinco,
Mulher de fibra, de muita Fé em São Pedro Apóstolo,
Eu sou a Várzea das Acácias de Severino Silva Florêncio,
Sou a gleba, a gestação, eu sou o amor sem medidas.

A ti, ó varzeano, tudo quanto é meu.
Teu arado, tua foice, tua enxada.
A rede de algodão de teus filhos.
O algodão de tua veste de volta-ao-mundo
e o cuscuz de milho-zarolho de tua casa...

E um dia bem distante, oh varzeano que mora longe, esbaforido,
a mim tu voltarás, a correr dentro de coração partido de saudade
e, no canteiro materno de meu seio agreste, mesmo se chegares em estio,
tranqüilo dormirás, sem medo da cuca, a assanhar até os pelos da venta.

Daí,então, na propícia estação, neste torrão do coco-catolé,
Plantaremos a roça das favas, feijão, quiabos e melancias.
Lavraremos as leiras, eiras, beiras e o Vapor de Zuquinha.
Cuidaremos dos ninhos dos sabiás, dos canários-de-chão,
dos bem-te-vizinhos, das patativas, dos sanhaços e curiós,
Dos bodes, borregos, cabras, gado e dos lagos dos Seixos.
Fartura teremos desde o cultivo das Formas dos pintassilgos
aos sítios de Seu Tida, dos Umbus e até mesmo do Gado Bravo.
Felizes, assim, seremos, dentro do interior do destemido 'tô-fraco',

a correr, a voar dentro e alto na essencial seara do jasmim-manga.

VÁRZEA-RN: UM CAÇUÁ DE SAUDADES, por João Maria Ludugero

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

VÁRZEA-RN: UM CAÇUÁ DE SAUDADES,
por João Maria Ludugero

Em ti,
Lugar cantado dos lugares,
O acorde de sonho não tem fim,
A saudade lá tem seu início,
A sorte tem seu lugar,
Desde a Marisa ao Umbu
Desde os Seixos, Riacho do Mel,
Desde o Itapacurá às vertentes esperanças novas,
Da Forma aos ariscos de Virgílio Pedro...

Em ti,
Cidade da terna Joaninha Mulato,
Das rodas de conversa sussurradas pelas ruas,
Do pôr do sol, do Recanto do Luar de Raimundo Bento
De frente para a algarobeira
Da praça Kleberval Florêncio,
Das visões, dos projetos, das promessas,
A sorte tem seu lugar a correr dentro e alto
Na seara do Vapor de São Pedro Apóstolo.

Em ti, Várzea de Santina de Ocino,
Poesia clara em regalias,
Tradição pura e presente,
Desde as coalhadas de Seu Tida,
Da carne-de-sol feita por Picica Paulino,
Desde o bolo-preto de dona Carmozina
Aos flandres de brotes e bolo de milho
Da inesquecível e corajosa dona Zidora
Às raivas e carrapixos de Marinam de Lica...
O coração bate mais do que a idade,
E a emoção estala, toda, num repente.
Porque em ti,
Cidade de Ângelo Bezerra,
A sorte tem seu lugar, apesar do estio,
Desde ontem, agora, dia-após-dia.

Em ti,
Por tuas quatro bocas da lida,
O vão do vento ganha rumo,
com a brisa a ganhar o mundo
Que acompanha os meus passos,
E diz-me que em ti
A sorte tem seu lugar.
Porque em ti, só em ti,
A vida és tu, e tu não morres,
Nem hoje, nem nunca,
Por seres, o que és, amada,



Minha Várzea das Acácias!