domingo, 27 de outubro de 2013

EN/CANTO DE GALO-DE-CAMPINA, por João Maria Ludugero


EN/CANTO DE GALO-DE-CAMPINA,
por João Maria Ludugero.

Alvoreço ao sol da vida com a cor real
Do meu canto. O vermelho contra o branco.
Suavizo a dor de existir com a garganta
Por um fio. Um espinho sangra apenas,
Dentro e alto na encarnada flor cardeal.

A Várzea das Acácias toda se ilumina.
O galo-da-campina numa orquestra
De pássaros. A cantiga reluz ao Vapor.
No peito chama, clama e açoita a dor.

Amor e flor fulgindo do fogo inflamado 
Da beleza. Eis a vida em plenitude.
O vento me levou, resisti quanto
Pude. Nada fingimos, por atitude.

O rubro, o branco, o negro combinados flamejantes
Formam a cor da real beleza, o brilho e a penumbra.
Nós levamos da vida o que vivemos com afinco
Na nossa luta contra a morte em flor rutilante.

O HOMEM MAIS RICO DO MUNDO por João Maria Ludugero

O HOMEM MAIS RICO DO MUNDO
por João Maria Ludugero. 

Para que servem meus pés, 
Pernas, pra que as quero? 
Para que sandálias e sapatos, 
Para que servem minhas mãos e braços, 
Se tenho asas para voar reluzente 
Inteira a mente, dentro e alto, 
Sem medo da cuca pegar os diamantes, 
Aos solavancos de qualquer maneira. 
Sou rio a desaguar potável pelo interior 
A desvendar a beleza do chão mais rico... 
Voar é viajar em ideias inspiradas 
Pelos belos ares na linha do eu-lírico, 
Advinda da imaginação arrimada, dia-após-dia, 
Em verso e anverso, lado e banda, eira e beira! 
Eu sou João Ludugero, filho de Seu Odilon 
E da inesquecível estrela Dalva, Dona Maria! 
E o orgulhoso Pai da Jordana Majella e do Igor Gabriel! 
Eis o meu terno selo de garantia, 
Com validade para sempre!!!

SAUDOSA MANGA VERDE, por João Maria Ludugero.


                                               Depois das aulas de Dona Zilda Roriz, 
Eu te mirava, a correr dentro e alto,
Debaixo daquela mangueira frondosa,
Teus cabelos soltos ao vento,
Da cor da terra aqueles caracóis,
Parecia a entrada do paraíso,
Da Várzea das brincadeiras,
Depois dos deveres da escola.
Eu acelerava a cópia, as contas,
e tudo o mais, para te esperar,
ali, naquele lugar, só nosso
Bem ali na praça do Cruzeiro…
E tu, menina bonita, vestida de chita,
De caracóis ou de tranças,
Com laços cor de mel,
Os nossos olhos tanto brilhavam,
Tantas juras fizeram, naquele lugar.
E, daquela flor da mangueira,
Aos ‘carregos’ de tantas mangas!
Escolhemos uma maior como nossa,
Aquela que comeríamos juntos, 
O nosso selo da promessa de amor!
Todos os dias a olhávamos,
À espera que ganhasse tamanho e cor,
Para o dia da consagração!
Quis a vida que abalasses,
E foste embora para outro lugar,
Bem distante daquela linda seara…
Zangado com o nosso destino,
Arranquei a manga verde,
Magoado com a surpresa da lida 
E com o teu longínquo paradeiro.
Já mãe, senhora do teu destino, 
Nos reencontramos frente à frente,
E perguntaste-me, com os olhos inquietos,
Se a manga tinha sido rosada ou espada,
Se tinha sido bem deliciosa?
Disfarcei, disse-te que sim,
Mas ainda sinto forte nostalgia:
Oh manga verde, manga verde,
Porque não amadureceste para mim?

CAJU: A FRUTA-SEMENTE, por João Maria Ludugero

 CAJU: A FRUTA-SEMENTE

O tempo fluiu em acessório fruto
A correr dentro e alto
No lapso entre o vão
E a castanha
Do lado de fora do interior 
Da fruta a ganhar forma
Na tênue carne verde, amarela,
Laranja ou vermelha
Onde semeio sustentado sonho, 
Que já vingou pseudofruto,
Onde o pedúnculo 
Assenta a semente 
Onde a fruta em si é o caroço 
Em forma de meia-lua no seu ápice!

SOB OS ACORDES DE SONHOS, por João Maria Ludugero

SOB OS ACORDES DE SONHOS,
por João Maria Ludugero. 

Sob a mira do interior, os passarinhos cantam... 
Longe os escuto, mas os trago aninhados no meu coração... 
O horizonte azul só é o nicho de um novo porvir, 
se o povoamos em acordes de sonhos. 
Na penumbra da noite escura, estrelas cintilantes o guardam... 
Nos dias de chuva, o esplendor de um arco-íris o revela...
Tecer sonhos é cavar na lida o alvorecer de um novo tempo...
É preciso sonhar... É preciso lutar...
Sonhar, lutando é navegar, a correr dentro e alto, sem medo da cuca.
Navegar é viver na loucura de ser e estar, na necessária peleja
buscando, dia-após-dia, um sorriso além...
Além do suor e das lágrimas salobras.
Além do tédio e do desalento... há um disparado sorrir, 
Um sorriso tecido de palavras e silêncios... Rio a desaguar 
de cantos e poesias... de travessuras, travesseiros e travessias... 
Um sorriso levantado pela vida que é feito de alvoradas, de amanhãs 
que desejam quebrar o relógio e renasceram no aqui e agora do nosso tempo...
Nosso tempo é frágil, volúvel e cruel...
Outros tempos teimam e almejam a poeira do mundo, 
as pedras do caminho, pois, sonham com a vida transformada...
Outros tempos querem ser paridos...a contento.
Um tempo de ternura e não-violência...
Um tempo de solidariedade e justiça social...
Um tempo de trovas, serestas e cantigas; campinas floridas 
e riachos cantantes no caminho onde água, terra, fogo e ar 
perambulam para o mar abraçando e triscando 
a incendiarem de sonhos o horizonte azul...
Viver é perigoso, canta o poeta João Ludugero...
A vida endureceu, petrificou-se e, demente, agoniza...
Disseram e acreditamos: no poder absoluto do agora...
Mas, ninguém vive alijado do canto das manhãs 
que são profecias encantadas do amanhã que engravida a vida, 
sendo, contudo, abortados pelas cinzas que eternizam as dores do presente, 
excluindo do horizonte as estripulias da História...
Deixemos a vida seguir para o mar...
Abramos as cancelas do destino...
Sonhemos. Lutemos... Acordemos.
Naveguemos: navegar é preciso...
Embora, não baste navegar à deriva... 
Naveguemos, cultivando no hoje os brotos do amanhã... 
Assim, seguiremos... Seguiremos sabendo que sonhamos 
e lutamos por um outro mundo possível... 
Pois, já não conseguimos viver sem o cais da alegria geral... 
Alegria que se achegue na primavera de todos 
e para todos os acordes de sonhos inenarráveis...
Só, assim, a vida deixará de lastimar pelos sonhos 
que lhe são diuturnamente furtados... Acorde e lute, 
avante! Ainda há chance!!!