terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

A MANIA DE ESCREVER ME LIBERTA, por João Maria Ludugero

 
 A MANIA DE ESCREVER ME LIBERTA,
por João Maria Ludugero

Eles invadiram minha casa,
podaram árvores, cortaram flores
apagaram os muros,
cimentaram ofendículos,
eletrificaram cercas e arames,
travaram portas e tramelas,
fortificaram a cela, amordaçaram-me até à prisão.
Trancaram meus livros no arquivo morto.
Coitados. Eles pensam que me venceram,
mas esqueceram de lavar meu cérebro
e o coração, este não sofreu nenhum transplante.
E lá estava eu diante da solitária.

Trouxeram água, pão e mais nada.
Havia ali apenas um toco de lápis... e o papel do pão.
E ter um papel e um lápis já é um consolo.
Rasgaram minhas vestes, vendaram meus olhos,
algemaram meus passos, tentaram me isolar.
Havia, porém, um lápis e um papel,
além da parede caiada.

Mantive-me são na gaiola, sem desespero nem sede,
não me abateu fome nem me rendi à solidão.
Parede, papel e lápis,
eles desconhecem
o poder desses instrumentos!
Eles me dão penas, mas posso
com estes renovar as asas cortadas
e, sem titubear, voo além da cela



ao escrever meus poemas!

CHUPA-CABRA, por João Maria Ludugero

CHUPA-CABRA,
por João Maria Ludugero

Sabe que escrevo poemas, 
Alegres, tristes ou doloridos
E retoco a lida sempre bela, 
Apesar das cascas de ferida,
Mas não só de manjar ou cubar a guia
Daqui meus pés nunca arredo.

E sendo assim minha musa, 
Eu jamais te apedrejo ao desvão.
Contigo, a cabra não irá para o brejo,
Mesmo no papel de filhote de cruz-credo!

PIRRAÇA, por João Maria Ludugero

 
 
PIRRAÇA,
por João Maria Ludugero

Há uma vaca no centro dos Seixos.
Ela fica imóvel num singelo curral
Como uma estátua solene ao sol
Traz uma bela flor no seu dorso.

Um astuto colibri vem beijar a flor;
Um menino levado da breca
Vem que vem mamar nas suas tetas.
A vaca pasta a grama, com ares de graça,
Enquanto o moleque mama e se contenta,
Não só de pirraça afoito aplaude a vaquinha,
Que muge feliz perto da burrinha da felicidade.

MEMÓRIAS DA VÁRZEA-RN: AS MENINAS DA VÁRZEA DE ONTEM, PRA SEMPRE! por João Maria Ludugero

MEMÓRIAS DA VÁRZEA-RN: 
AS MENINAS DA VÁRZEA DE ONTEM, PRA SEMPRE!

por João Maria Ludugero

No começo era o colo e chorava na rede 
E se encorajava na sombra em tais estripulias
E amava mais que a mãe na peleja da lida
E sobre todas as coisas do interior animava
E antes de mais nada e com todas as palavras,
Não só de manjar a menina faceira jogava 
A afiar o olé e o drible rumo ao gol 
Numa bonita performance de viver
A renovar a esperança de ser astuta
E acreditar na sensata vitória 
Que se alcança no jogo da vida!

E pela Várzea das Acácias
No princípio era o verbo que me ninava no campo 
E agitava na vida e amava mais a correr dentro
Com a varzeana e sobre todas as coisas bonitas
E antes de mais nada e com todas as palavras...
Nossa Várzea das meninas destemidas
No princípio ia com a bola e chorava de alegria 
E se contemplava na grama e amava mais
Que todas as coisas do chão de dentro
E antes de mais nada brindava ao fechar o gol
E apesar de todas as palavras, sem alarido, 
Como era empolgada a nossa ala varzeana 
Das comportadas e vitoriosas meninas!

O JARDIM DAS ONZE-HORAS (À VERA, MINHA PRIMA DE LONGE), Autor: João Maria Ludugero

O JARDIM DAS ONZE-HORAS (À VERA, MINHA PRIMA DE LONGE),

Autor: João Maria Ludugero

Momentos há na vida que a gente nunca esquece,
Mormente aqueles bem guardados no interior.
Recordo-me do sítio de seu Zé Canindé,
Onde ele tinha uma casinha caiada
De portas e janelas azuis,
Um jardim de girassóis a onze-horas,
Um curral e uma casa de farinha de mandioca.
Parece besteira lembrar dessas rusticidades.
Podendo até, para alguns, isso soar piegas,
Mas ainda guardo comigo o privilégio
De tê-las vivido, e ora poder ter o prazer
De acentuá-las ao escrevinhar esta poesia
Assim tão repleta dessas coisas simples 
E suas pobrezinhas essenciais 
A recender os aromas da terra
Junto ao canto do curió nos galhos em flor.
Assim, saudoso, reinvento meus passos,
Sob o escaldante sol da minha Várzea, 
Como quem evapora de mansinho seus longes
Junto aos cheiros da casa-de-farinha
Pelos confins da estradinha de chão,
Que só era cortada pelo rio Salgado,
Riacho de águas tão mornas,
Cheinho de piabas e jacundás.
E lá íamos eu e minha avó Dalila
Que me levava à travessia do rio,
Muitas vezes montado em pêlo no lombo de um jegue.
E, como num toque de mágica, num piscar de olhos,
Aparecia um magote de moleques.
E o banho de costume logo se transformava numa festa,
Onde a gente lavava a alma, digo a potra. Arre égua!
E era assim sempre que buscávamos os bisacos de farinha
De mandioca, beijus, tapiocas e batata-doce.
E, de tal sorte, toda vez que escuto esses cheiros e ruídos,
Eu me ajeito num cantinho a ruminar, e matuto, sim,
Me apanho a escrever sem me 'pre-ocupar' com as rimas.
Sinto-me tal qual aquele menino travesso de outrora, 
Empolgado que só vendo, a contemplar o jeito de mato
Da minha acanhada prima Vera, afilhada 
do velho Zé Canindé (Cá pra nós, 
mas lá todo mundo era primo da gente,
Alegava meu pai, mesmo que não houvesse laços. 
E ficava por isso o vínculo, o parentesco, 
mesmo sem nunca ter sido). 
E agora, confesso aqui com todas as possíveis letras, 
Que me sinto o mais rico dos homens,
Porque ainda posso escutar o curió
E outros passarinhos a cantar e, até me atrevo, 
A sentir, e sinto, um exalar de manjeronas e alecrim,
Ao colocar um pé naquele tempo fantástico,
Ainda encantado a tocar minha mão buliçosa
No corpo daquela moça de sorriso maroto,
Que me enlevava na colheita dos ovos.
E como era bom brincar com as galinhas! 
Ora, ora, não há como dizer com palavras
Como havia doçura no semblante daquela donzela.
Como eu queria seus braços, seu jeito, sua boca.
Como não posso voltar ao passado, insisto, 
Em deixar a saudade falar nos meus versos. E ponto.

CATAPLUM! por João Maria Ludugero

CATAPLUM!

por João Maria Ludugero



E no cubar da lida, o tempo passa
E o menino do tempo sopra ao vento
E repassa o trem na estação do estio...
E tenebroso!...Pelos trilhos prossegue!
E vai!...Na tamanha solidão da lida!
Ao fim do fadário que persegue
Dentre vaga-lumes e percevejos.

Na estação, o trem ecoa medonho sino!
Retumba em melancólica procela! 
E a brisa retumba seca, cai a pino!
E açoita o sereno da tarde amena
Que me eleva ao passado a limpo,
Entretido em janelas que me ninam
A esbugalhar o pensamento ao desvão

Refulgem os trilhos encardidos!
Bem assim seguem compassados!
E se alçam em lágrimas pelo chão
De dentro, a partir do desvario
De um coração em campo minado!
Que embalde ressoa triste, por Deus!
E segue a carga do tempo, carregado 
E suspenso a uivar nas lembranças infindas:
E zás! Num cataplum: adeus!!!

POEMA EM TERNO FUNERAL, por João Maria Ludugero

araras em namoro-
 
 
POEMA EM TERNO FUNERAL,
por João Maria Ludugero

Este desvario cinza tão medonho 
De quando tive o coração partido
Apagou os acordes de um sonho
Sem mágoas de uns olhos tristes
Ah, esses não levastes, eram o fundo
Do mar azul onde tu não mais existes
Onde navega só um amor desprezado
Com limos de várias cores de estirpes.

Sonhar a vida e acordar a tal morte
Traz-me a saudade de sentir a sorte
Da sombra profusa deste desespero
Vai, sai agora e não voltes mais
Já distantes se ouvem meus ais
Ao alegre funeral deste enterro.