sábado, 25 de junho de 2011

DO MAMULENGO À VENTRILOQUIA (A MÃO E A VOZ EM LINHAS DE POESIA)

Autor: João Ludugero

Eu escrevinho a sentir o mundo
Eu me bulo em movimento e graça 
Causo rebuliço público na praça 
A bordar sorrisos, encarnado em pano. 
Sou fantoche, sou ventríloquo,
Sou aquele que sabe falar sem abrir a boca
De modo que mudo de tal vez a voz
Que esta parece sair de outra fonte diversa.
Ledo engano, eu sou o dono da voz. 
Posso ter várias vozes.
Minhas várias enviesadas vozes.
Em tempo. Tempos nublados ou com sóis.
Várias vozes sem mover um lábio sequer.
Eu arregaço as mangas ao diálogo.
Eu abraço emoção ao inanimado marionete,
Dou vida ao morto-vivo, abraço o corpo. 
Faço gestos ilusórios com a mão 
Ao peito, uno versos adentro no ventre, 
Percorro o sagrado e o profano. 
Finjo ser o outro do outro rosto tingido 
Me visto tal e qual fulano de tal
Banco ser sisudo beltrano sem açaimos,
Quando ressurjo, exsurjo-me num lúdico sicrano.
É preciso ser boneco e homem, palco e praça 
Ao projetar-se na voz do outro,  
Que se ajeita nos trejeitos do ventríloquo. 
Sou poeta mamulengo, com honrarias,
Envolto no corpo de pano, leve e solto.
Se me perco no fio da meada, eira e beira, 
Desfio palavras do novelo 
Declamo visceralmente dentro do alto 
E as letras costuram meu poema,
Cingindo a instável face do boneco 
De cara e boca pintadas a retratar, de pronto, 
A lucidez, a loucura, o drama e a comédia
Do universo humano sob o disfarce que invento.
Quer saber, sei ser valente, animoso, de gentil presença
E a poesia foi o que me fez ser assim, senhor do meu nariz!
Logo posso ser o que eu quiser. Duvidas do meu intento?
Só te digo uma coisa, em alto e bom som:
Não sou de Deus a obra perfeita!
Nem tenho nas vísceras o segredo da matéria
O que tenho são versos entranhados

Pulsando na artéria, latejantes,
Querendo sair, girar o mundo 
Que rodopia em meu peito de poeta!