quarta-feira, 1 de outubro de 2014

VÁRZEA-RN: UM NICHO DE INTENSA SAUDADE A CORRER DENTRO DA LIDA, ENTRE NÉCTARES, LUMES, CHEIROS E RUÍDOS, por João Maria Ludugero

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
  

 
 

 
VÁRZEA-RN: UM NICHO DE INTENSA SAUDADE A CORRER DENTRO DA LIDA, ENTRE NÉCTARES, LUMES, CHEIROS E RUÍDOS, 
por João Maria Ludugero

Cheiros de infância. Sempre fui muito ligado em cheiro. Olfato muito apurado, era o primeiro a sentir cheiro de tudo: algo queimando, gás, até chuva chegando. O que mais me fascina é a capacidade que um perfume tem de transportar a gente pelo tempo. Chuva chegando, por exemplo, me conecta imediatamente à minha infância: ozônio, terra molhada, aroma de capim em terra molhada, reverdecida e dando pinta aos verdes-musgos dos lajedos no paredão do açude do Calango...

Outros cheiros que me fazem voltar a ser criança:

Rio Joca. Cheiro de beira do rio, das cacimbas, de limo, cheiro salobro tornado doce, com afinco. Indizível, único, ímpar.

Lembro a casa de taipa caiada do meu tio João Pequeno bem lá na seara do Itapacurá dos cajás, mangas, pitombas, cajus e castanhas assadas. Bolo no forno do fogão de lenha. Brotes de goma, grudes de coco...

Eram bolos de milho-zarolho, beijos de coco enrolados em papel crepom cheio de franja, tudo feito em casa, e mais compota doce de caju e tantas outras regalias. Tudo feito com uma certa magia de encantamento por dona Zefinha tecedora dos serviços. Tudo da forma mais simples, cheia de fartura e afazeres, mas com recheio de muito felicidade!

Aqui em casa o magote de meninos curtia muito o cheiro de queijos-de-coalho assados na brasa, além de raspar as panelas e tachos de resíduos e pregas de queijo deixados nas bordas e fundos das panelas de zinco.

Agradáveis conexões: 
Várzea, eu e eles, 
eu e minha velha criança interior, 
e eu ainda sou...

Vivia ali na Várzea das Acácias uma dona Zidora Paulino de boas ideias a tecer seus bolos-pretos de mandioca-mole, rapadura, cravos, erva-doces  e coco-ralado, sem fazer conta de tantos flandres de zinco repletos de bolos de fubá,  raivas, sequilhos, grudes e  tantos carrapichos...

Vivia ali na Várzea de Joaninha Mulato uma amiga sua chamada Carmozina que fazia soldas de goma, mel de cana-caiana, brotes de milho, quebra-queixos e puxa-puxas para adoçar a vida da gente com tantas regalias, dentre bolachas e biscoitos...

Vivia ali na Várzea do rio Joca uma Ana de Manoel de Anísio que fazia louças, panelas, chaleiras, alguidares, travessas, moringas e potes de argila queimados no forno do quintal próximo aos lajedos da rua do Arame, pelos arredores da bodega de Seu Zé Anjo.

Vive ali na Várzea de Vira de Lucila de Preta uma Ana Moita, benzedeira de mau-olhado,  ínguas, ziquiziras, quebrantos, dores-de-dente, espinhelas-caídas, acocorada ao pé  do borralho do fogão-de-lenha,  olhando para o jirau perto do fogo onde fica o alguidar de farofa de tirar feitiço... Em nome de Ogum. Orixá.  Macumba, terreiro.  Ogã, dentre outros pais-de-santo e passes de rezas, curas e similares.

Viviam ali na Várzea de São Pedro Apóstolo tantas lavadeiras dos Ariscos de dona Beatriz, dos Marreiros, da seara das mangas e dos cajus de Virgílio Pedro, marido de dona Eugênia Bena Bento, pais de Walter Pedro e de Gracinha Bento, dentre outros....  

Eram bons ares de cheiros gostosos d'água e barras-de- sabão.  Baldes, bacias, latas e latões, rodilha-de-pano. Trouxas de roupa,  pedras-de-anil. Ornadas de coroas verdes de canapu, melancias-da- praia, beldroegas, juncos e melões-de-São-Caetano. 

Vivia dentro da Várzea a dona Dalila Maria da Conceição, rezadeira tão devota das novenas de São Pedro Apóstolo, tão ilustre dona de casa, tão cozinheira. Cravos, alho, pimenta malagueta e cebola. Pitéus e quitutes bem feitos. Panelas de barro.  Alguidares. Cozinha antiga toda entisnada no fogão-de-lenha. Bem recheada de favas, feijões, farofas, cuscuz de milho-zarolho, cocadas, doces, tapiocas, torresmos e paçocas de carne-seca. Pilão de cumbuco de coco.  Coentros, erva-doces. Pisando pimenta-do-reino, alho-sal entre outros açafrões e colorau.

Vivia dentro da Várzea  a mulher Rosário Gomes, irmã de Livramento, Antenor e Ailton.  Filhos de dona Maria e de Seu Antonio Gomes, o bem-feitor de tarrafas da rua São Pedro, amigo do outro tarrafeiro Antonio Euzébio, pai de Chiquinho, colega de Raimundo de Nide, de dona Alice de Abílio, de Antonio Horácio, de Joaquim Rosendo do Pastoril e de Nanuca de Palito lá da rua do Arame.  Gente do bem, destemida, dentro da coragem, de vertentes de sangue bom, de boa risada em rodas-de-conversa pelas calçadas em espreguiçadeiras, gente desabusada, sem preconceitos, de casca-grossa, de chinelinha,  e distinta prole em filharada.  

Vive dentro de mim a eterna estrela: dona Maria Dalva, minha terna mãe - Mão da doçura. Enxerto do sertão potiguar, descendente dos Pachecos de Angicos e de Santana do Matos. Trabalhadeira.  Madrugadeira.  Tão corajosa. Bem parideira. Bem criadeira. Intensa prole. Seus quatorze filhos,  seus tantos netos. Vive dentro de mim esta mulher estrela Dalva pra vida inteira, apesar de ora ocupar outra seara no andar celeste...  tanta nostalgia, tanta saudade se esbugalha pelo interior da minha Várzea das Acácias... 

Sigo minha vida, sem exaurir esses vastos amores, apesar de estar de coração partido, a escrever poesia, a amortecer as dores com afinco, procurando se achar animado, ser alegre, dia-após-dia, e, se precisar, não tenho medo da cuca, chego a assanhar até os pelos da venta...

Todas essas vidas dentro do meu poema: Eu, menino João Ludugero maduro, sem carecer de ser cabotino  -  levando a vida a correr dentro e alto, a versejar feito homem do interior do tempo, na latente lida das Águas Claras da bela Brasília, Capital do Brasil!

Os anos vão passando e a gente vai lembrando as coisas boas que aconteceram há muitos anos atrás. São memórias que fazem parte de nossas vidas. E se tais recordações trouxerem coisas boas, a isto chamamos de saudades.

Tenho saudades de brincar na enxurrada da rua quando chovia. Tenho saudade de apanhar frutas direto do pé, de brincar nos bancos de areia que havia em frente à minha casa.

Tenho saudades dos meus amigos de infância; tenho saudades do cheiro dos lençóis limpos pendurados no varal e de quando passava correndo por eles. De olhos fechados, o pano deslizando sobre meu rosto enquanto eu corria. Tenho saudades de minhas idas ao Arlindo barbeiro, o qual recebia os clientes com aquela sua capa branca característica. Tenho saudades do cheiro da água velva que ele passava no "pé do cabelo" e que dava um friozinho por toda a cabeça.

Acho que cada pessoa guarda um aroma ou um sabor de alguma comida que lhe traz bonitas recordações de infância. Desconheço a razão para este fenômeno, mas a verdade é que há cheiros e sabores que posso passar muito tempo sem sentir, no entanto assim que os sinto novamente, recordam-me de todos esses bons momentos.

Quem é que não se lembra de quando criança, acordar sentindo o cheiro do café e cuscuz de milho zarolho, brotes, beijus, tapiocas, coalhadas com mel, pão quentinho que vinha da cozinha?

O olfato é o primeiro dos sentidos que desenvolvemos, dizem que ainda no útero materno e a memória olfativa é a mais impactante para nós, pois uma vez que sentimos um aroma ele provavelmente ficará gravado em algum lugar de nossa memória.

Sabe quando de repente vem aquele cheiro de uma pessoa que a gente gosta? Ou então quando estamos caminhando pela cidade e ela começa a ter cheiro fome?

Ah, nesse meio de tarde, aqui onde estou, está cheirando a café com pão, cheiro de passado, de casa da avó, de cozinha de mãe, cheiro das coisas simples da vida que emocionam e deixam histórias gostosas de serem contadas, ou então apenas a gostosa recordação de ser sentida. 

Como era bom o cheiro dos brotes e biscoitos caseiros que minha avó e minha mãe faziam. Os de minha avó eram feitos no forno à lenha que tinha lá na casa aonde morava. As brasas eram retiradas com uma vassourinha feita de alecrim do campo, que soltava um cheiro delicioso e que ficava um impregnado nas bolachas e pães.

Ah, o cheiro dos beijus, tapiocas e omeletes de minha mãe. Cheiro que deixava até os cachorros da rua parados e sentados na porta de casa, cheiro de saudade, de temperos e amor.

Hoje, é o cheiro do vazio com o qual se aprende a conviver depois da ida deles para outros planos.

Como diz o Drummond em seu poema, "acredito que existam almas perfumadas, porque creio que os sentimentos também têm cheiro e tocam todas as coisas com os seus dedos de energia". Minha mãe era assim. Minha avó também.

Elas perfumaram nossas vidas com luzes e cores. E o perfume delas era tão gostoso, tão suave, tão delicado, que hoje penso que elas só mudaram de frasco e o cheiro continua vivo no coração de tudo e todos que elas amaram.

E tudo o que eu amar vai encontrar, de alguma forma, os vestígios desses perfumes que vêm de Deus, que durante anos de minha vida estiveram/estão presentes para me falar de amor, a correr dentro e alto, a deixar o coração partido e os olhos d'água marejados, de tamanhas saudades, dentre lumes e cheiros sem fim...