terça-feira, 11 de novembro de 2014

O MENINO JOÃO LUDUGERO MADURO, DEPOIS DE TANTOS SÓIS, por João Maria Ludugero

 
 
 
 
 
 
  
 
O MENINO JOÃO LUDUGERO MADURO, 
DEPOIS DE TANTOS SÓIS,
por João Maria Ludugero

Então, agora percebo, não só de manjar,
Mas jamais tranquei a vida em uma cela qualquer.
De retorno a um tempo qualquer, 
Eu me acho menino levado da breca.
E ainda sou...
Apesar das recordações
Retidas no arquivo-vivo da memória:
Os sonhos da velha infância,
Os beijos do amor perfeito
Em peras, uvas, maçãs e outros lumes.
Os brinquedos, os amigos, as escolas, as professorinhas,
As corridas pela vargem a dentro, a pelada e o jogo de bola.
Os banhos no açude do Calango, no riacho da Cruz e de Nozinho,
A pescaria lá no rio Joca, com um magote de meninos
Junto ao Antonio Picica de Xinene de Cícero Paulino...

Depois de tantos sóis, depois de tantas luas,
Tantas coisas astutas, bonitas, engraçadas e coisas ousadas.
O pular de corda das meninas junto às duas palmeiras imperiais
De fronte à magnífica igreja-matriz de São Pedro Apóstolo.
A saia-de-chita rodada das faceiras meninas de cintura fina,
Sendo chamadas de pitéus pelo inesquecível Plácido 'Nenê Tomaz' de Lima.
O jogo de bolas-de-gude, bilocas e petecas na calçada da igreja,
Carrinhos-de-rolimã, amarelinhas.
Os três pedidos na contagem de estrelas,
As verrugas nascidas e retiradas na casca-de-banana.

Ficou combinado o futuro o que a gente queria,
Se um dia crescesse. E, de presente, ainda somos tão meninos.
Crescemos! Mas não cancelamos todas as chaves desse quarto.
Eram tantas tramelas e tantas fechaduras, que chegavam a sete.
E as deixamos em nicho da varanda do alpendre da casa do Vapor.
E as dispensamos num caçuá da história da Várzea das Acácias.
Mas aquela da outra sala-de-estar, no corredor da espeguiçadeira,
A da dúvida, de amortecer dores e a ilusão na corrente da lida,
Essa nunca a perdi, trago-a lacrada no cofre do coração.
Era uma só. Mas tão preciosa na peleja.

E, dia-após-dia, a tenho aqui comigo,
Acorrentada ao vão dos meus pensamentos,
Que me inspiram em bons ares, a correr dentro e alto,
Sem carecer de ser cabotino.
Eu, João Ludugero, um dos homens mais felizes da vida.
E, ao escrever, observo satisfeito, em como eu sou rico
E tão filho do Dono do Mundo,
Que chego a assanhar de vez
Até mesmo os pelos da venta!

A CHAVE DO DESPERTAR DO APRENDIZADO, por João Maria Ludugero

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
A CHAVE DO DESPERTAR DO APRENDIZADO,
por João Maria Ludugero

O conhecimento desabrocha a alma em flores,
Num astuto acordar de sonhos em lumes e essências
E aumentando a doçura no amadurecimento do fruto.
Assegura o destemido tô-fraco feito galinha d'Angola,
Diminuindo a amargura da velhice, sem mais se esbaforir,
Colhendo pois a autêntica sabedoria, sem medo da cuca,
Em feliz idade nova, assanhando até os pelos da venta,
Armazenando suavidade presente para o amanhã desperto.
Eis a chave e a senha para o pleno despertar do aprendizado.

CANTIGA PARA VARZEAMAR, por João Maria Ludugero

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
CANTIGA PARA VARZEAMAR,
por João Maria Ludugero

Se um dia fores embora,

Não te esqueças da água verde-musgo 
que molha o paredão do açude do Calango.
E queiras nunca esquecer de levar sabores e temperançasem possantes delícias de beijus, mungunzás, grudes de coco, tapiocas, quebra-queixos, puxa-puxas, cocadas, raivas, carrapichos sonhos em papos-de-anjo e algodão-doce, línguas-de-sogra, soldas, 
regalias, brotes, bolos-pretos e de fubá, babau de batata-doce, 
dindim de coco-queimado, paçoca-de-amendoim e do cuscuz de milho-zarolho...
Se acaso não puderes os carregar na memória,
então, faças igual a este menino levado da breca,
carregue tudo no sagrado nicho do coração.

E ainda assim, se no peito não puderes por acaso os levar, 
quebre o pote da fantasia e os carregue de banda, 
num jeito inteiramente astuto, 
em acordes de sonhos espairecidos no pensamento
queira os transportar leves em suas lembranças.

E se aí assim também não os couber, 

amorteça as dores do meu inexaurível coração partido, afoito
por tanta coisa da Várzea que guarda como relicário,
ainda tão ávido e vivaz em seu arquivo-vivo de ideias. 

Eu: continuo aquele tão terno João Maria Ludugero, 

tão maduro e ainda tão menino, 
a bolar o futuro combinado 
desde a velha infância 
que não se apaga no esquecimento.