domingo, 22 de dezembro de 2013

54 ANOS: UM PASSADO A LIMPO: VÁRZEA PRA SEMPRE, por João Maria Ludugero.


54 ANOS: UM PASSADO A LIMPO: VÁRZEA PRA SEMPRE, 
por João Maria Ludugero.

Vou-me embora pra Várzea
Lá sou amigo do rei
Lá tem coisas "daqui, ó!"
A menina do pitéu
De Seu Plácido Nenê Tomaz de Lima,
Craúna, Xibimba e Vira de Lucila de Preta
Vou-me embora lá pra Várzea.

Vou-me embora pra Várzea
Porque lá, é outro astral
Lá tem carros-de-boi
Que nos levam aos Ariscos
De Seu Virgílio e de dona Eugênia Bento,
Pra o sítio de Zé Canindé
E pra o Retiro de seu Olival de Carvalho
Lá tem garapa, caldo de cana-caiana e tapioca
Lá tem caranguejo de Seu Antonio Lunga.
Lá tem sinuca de seu Otávio e de Seu Lula.

Lá dançarei um forró, rela-bucho
Lá na rua do arame
Lá é uma brasa mora!
Só você vendo pra crê
Assistirei Rim Tim Tim
Ou mesmo Jinne é um Gênio
Vestirei calças de Nycron
Faroeste ou Durabem
Tecidos sanforizados
Tergal, Percal e Banlon
Verei lances de anágua
Combinação, califon
Escutarei Al Di Lá
Dominiqui Niqui Niqui
Me fartarei de Grapette
Na farra dos piqueniques
Vou-me embora lá pra Várzea 
de Nina de Joaninha Mulato,
Vou comer beiju e tapioca
Com manteiga de garrafa.

Lá na Várzea do passado tinha Jerônimo 
Aquele Herói do Sertão
Tinha Cícero Cego a tocar sua sanfona
Lá na rua da Matança dava a maior diversão
Tinha passeio nas bicicletas de Zé Estevão
Tinha cinema de Zé Onório
Lá na Escola São Pedro,
Onde a gente assistia Tarzan,
Eu, Gracinha Bento, Marily, Riselda 
E Terezinha Tomaz de Lima.

Quando toca Pata Pata,
Cantam a versão musical
"Tá Com a Pulga na Cueca"
E dançam a música sapeca
Ô Papa Hum Mau Mau
Tem a turma prafrentex
No salão de Manoel de Ocino
Cantando Banho de Lua 
E dançando Gretchen...
Tem Picica de Xinene de Cícero Paulino,
Tem Chiquinho de Antonio Euzébio
Tem a praça do Encontro
E os hibiscos dobrados rosas e encarnados
De dona Maria Orlanda de seu Nestor,
Dando cores e aromas pela rua
Vou-me embora lá pra Várzea,
Vou namorar na rua Grande
Vou-me embora pra Escola Dom Joaquim de Almeida
Onde a merenda de dona Maria Gomes era boa demais!

Lá tem meninas "requebrando"
Ao cruzar com um rapaz
Elas cheiram a pó de arroz
Da Cachemere Bouquet
Coty ou Sherazade,
Colocam Rouge e Laquê
English Lavanda Atkinsons
Ou Helena Rubinstein
Saem de saia plissada
Ou de vestido Tubinho
Com jeitinho encabulado
Flertando bem de fininho,
Na esquina de Seu Minor.

E lá no cinema de Zé Onório
Se vê broto a namorar
De mão dada com o guri
Com vestido de chita ou organdi
Sem gola de tafetá.

Os homens lá da Várzea
Gostam de andar tinindo
Sapato Cavalo de Aço,
Kichute e conga 
Ou tênis esportivo
De camisas Volta ao Mundo
Só cheirando a Áqua Velva
A sabonete Gessy
Ou Lifebouy, Eucalol
E junto com o espelhinho
Pente Pantera ou Flamengo
E uma trunfinha no quengo,
Brilhantina cintilante como o sol.

Vou-me embora lá para Várzea, 
Lá tinha tudo que há de bom!
Lá na Várzea era outra história!
Outra civilização...
Tinha Bidu e Nequinho 
Tinha Sué e Biga pai da Edilza, 
Aprontando o caldo de cana,
Tinha Albertinho Limonta
Tinha também Mamãe Dolores,
Marcelino Pão e Vinho
Tinha Bat Masterson, Daniel Bonnie e Lessy,
Túnel do Tempo, tinha Rintintim e Zorro
Lá na casa de Dona Risolita Ribeiro,
Máe do inesquecível Ré da Viúva!

Lá no passado tinha pouco recurso, 
Mas viver era um estouro
Tinha rádio com olho mágico
ABC a voz de ouro,
Se ouvia velhas audições musicais
Cancioneiro de sucesso,
Tinha também Repórter Esso
Com notícias atuais.

Tinha petisqueiro e bufê 
Junto à mesa de jantar
Tem louça de toda cor
Bule de ágata, alguidar
Se brincava de cabra cega
De drama, de garrafão
De rolimã na ladeira,
De rasteira e de salpicão 
De mamona.

Lá, também tinha radiola 
De madeira e materiais de zinabre, 
Lá se fazia caligrafia
Pra modelar a escrita
Se estudava a tabuada
Com dona Marica Fernandes
Ou na Cartilha do Povo
Lendo Vovô Viu o Ovo!

Tinha na revista O Cruzeiro 
A beleza feminina da hora
Já aparecia menina misse 
Faceira botando banca
Com seu maiô de elanca
O famoso Catalina
Tem cigarros Yolanda
Continental e Hollyoodd
Tinha o Conga Sete Vidas
Tem brilhantina Zezé
Escovas Tek, Frisante
Relógio Eterna Matic
Com 24 rubis
Pontual a toda hora.

Se ouvia página sonora 
Na voz de Ângela Maria
"— Será que sou feia?
— Não é não senhor!
— Então eu sou linda?
— Você é um amor!...
Canta Baba-Lu ou um Tango pra Teresa"

Quando não queriam a paquera
Mulheres falavam: "Passando,
Que é pra não enganchar!"
"Achou ruim dê um jeitim!"
"Pise na flor e amasse!"
E AI e POFE! e quizila
Mas o homem não cochila
Passa o pano com o olhar
Se ela toma Postafen
Que é pra bunda aumentar
Ele empina o polegar
Faz sinal de "tudo X"
E sai dizendo "Ô Maré!
Todo boy, mancando o pé
Insistindo em conquistar.

No passado tinha remédio
Pra quando se precisar,
Lá tinha seu Bita Mulato
E a farmácia da família,
Que tinha prazer de curar,
Lá tinha Água Benta, Sonrisal,
Mel Poejo e Biotônico Fontoura,
Bromil e Capivarol
Arnica, Phimatosan
Regulador Xavier
Tem Saúde da Mulher
Tem Aguardente Alemã
Tem também Capiloton
Pentid e Terebentina
Xarope de Limão Brabo
Pílulas de Vida do Dr. Ross
Tinha também, aqui pra nós,
Uma tal Robusterina 
A saúde feminina.

Vou-me embora pra Várzea
Pra não viver sufocado
Pra não morrer poluído
Pra não morar enjaulado
Lá não se vê violência
Nem droga nem tanto mau
Não se vê tanto barulho
No passado é outro astral
Se eu tiver qualquer saudade
Escreverei pro presente
E quando eu estiver cansado
Da jornada, do batente
Terei uma rede possante
Daquelas de algodão cru
Num quarto calmo e seguro
Onde ali descansarei
Lá sou amigo do rei
Lá, tem muito mais grilo e vaga-lume,
Mas isso dá medo não!
Vou-me embora correndo 
Lá pra Várzea do passado,
Comer cuscuz de milho zarolho,
Sequilhos e munguzá,
Chupar pitomba, caju e cajá-manga
Lá na casa de dona Julieta 
Lá no Itapacurá de seu Orlando Cunha, 
Pai da Edileusa de Maria José Alves...

RenoVARZEADO, por João Maria Ludugero.

 
 
 
 
 
 

 
 
 
 
 
 

RenoVARZEADO,
por João Maria Ludugero.

Da espera se faz o tempo 
RenoVarzeado a contento
De um e de outro lado:
Melhor, é esperar atento na Fé;
Pior, seria não ter se animado.

Há um momento dado
Em que pode a ventania
Delirar, por ser soprada,
E já não respondemos ao tempo
Dentro e alto na alegria!

FELIZ NATAL E PRÓSPERO ANO NOVO!

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FELIZ NATAL E PRÓSPERO ANO NOVO!


É sempre tempo
De  renovar
E de viver em paz.
Possa o Natal ser igual a um jardim
Onde a alegria floresça em cada coração
E a felicidade cresça e apareça
Na vida de cada um de nós
Por anos e anos... Amém!

E que venha o Novo Ano!
Um brinde à sua chegada, tim-tim! 
Com saúde e esperanças renovadas,
Pois não existem limites
Para nossos sonhos,
Basta acreditar. 
FELIZ 2014!

Sinceramente,
São os votos do poeta
João Maria Ludugero

O VELHO FLAMBOYANT DO VAPOR, por João Maria Ludugero


 
 
O VELHO FLAMBOYANT DO VAPOR,
por João Maria Ludugero. 

A brisa da tarde amena que acaricia o rosto, 
remete-me ao passado, à nossa velha infância varzeana...
Meu coração se enche de saudades daqueles dias de outrora 
em que, à sombra do flamboyant do Vapor, 
nós aos magotes de meninos levados da breca, 
passávamos horas, deitados sob sua galhada florida 
a espiar a revoada de passarinhos, saltitando de galho em galho...
Suas ramas coloridas pelo amarelo, vermelho e laranja de suas flores, 
desciam até o chão e dançavam ao vento, 
como a querer brincar também...
Hoje, fecho os olhos e ainda posso ouvir o farfalhar das folhas secas, 
caídas e varridas pelo vento da tarde varzeana.
O mesmo vento que cantava por entre as árvores,
forrando o chão com um lindo tapete de flores...
E o entardecer, como era belo!
O sol, a se por no horizonte, lançava 
por entre os galhos suas frestas douradas, matizadas de vermelho...
Na minha ideia inocente, eu não queria que o dia acabasse.
Mas noite insistia em chegar...E ela vinha impiedosa, de mansinho, 
cobrindo com seu negro véu, todo aquele colorido que eu tanto amava...
Os pássaros se recolhiam aos seus ninhos,
o orvalho começava a umedecer as folhas, as flores...
E mais um dia se findava...
Ao longe, a voz de dona Lourdes do Vapor que me chamava ao recolhimento:
“- Menino, já é tarde, está ficando escuro, venha tomar café com tapioca de coco
para seguir o rumo de sua casa!”
Eu me achegava à sala das guloseimas e delícias, 
dentre tapiocas, beijus, coalhada, cuscuz, queijo de coalho, ovos estrelados e cocadas... 
Após, pegava o rumo de casa lá na Várzea das Acácias... 
E aguardava com ansiedade a chegada de um novo dia...
Como eu gostaria de poder reviver aquele tempo...
Oh, quanta saudade do Vapor!

DO MAMULENGO À VENTRILOQUIA (A MÃO E A VOZ EM LINHAS DE POESIA), por João Maria Ludugero



Eu escrevinho a sentir
 o mundo
Eu me bulo em movimento e graça 
Causo rebuliço público na praça 
A bordar sorrisos, encarnado em pano. 
Sou fantoche, sou ventríloquo, 
Sou aquele que sabe falar sem abrir a boca 
De modo que mudo de tal vez a voz 
Que esta parece sair de outra fonte diversa.
Ledo engano, eu sou o dono da voz. 
Posso ter várias vozes. 
Minhas várias enviesadas vozes. 
Em tempo. Tempos nublados ou com sóis. 
Várias vozes sem mover um lábio sequer.
Eu arregaço as mangas ao diálogo.
Eu abraço emoção ao inanimado marionete,
Dou vida ao morto-vivo, abraço o corpo. 
Faço gestos ilusórios com a mão 
Ao peito, uno versos adentro no ventre, 
Percorro o sagrado e o profano. 
Finjo ser o outro do outro rosto tingido 
Me visto tal e qual fulano de tal
Banco ser sisudo beltrano sem açaimos,
Quando ressurjo, exsurjo-me num lúdico sicrano.
É preciso ser boneco e homem, palco e praça 
Ao projetar-se na voz do outro, 
Que se ajeita nos trejeitos do ventríloquo. 
Sou poeta mamulengo, com honrarias,
Envolto no corpo de pano, leve e solto.
Se me perco no fio da meada, eira e beira, 
Desfio palavras do novelo 
Declamo visceralmente dentro do alto 
E as letras costuram meu poema,
Cingindo a instável face do boneco 
De cara e boca pintadas a retratar, de pronto, 
A lucidez, a loucura, o drama e a comédia
Do universo humano sob o disfarce que invento.
Quer saber, sei ser valente, animoso, de gentil presença
E a poesia foi o que me fez ser assim, senhor do meu nariz!
Logo posso ser o que eu quiser. Duvidas do meu intento?
Só te digo uma coisa, em alto e bom som:
Não sou de Deus a obra perfeita!
Nem tenho nas vísceras o segredo da matéria
O que tenho são versos entranhados 
Pulsando na artéria, latejantes,
Querendo sair, girar o mundo 
Que rodopia em meu peito de poeta!