segunda-feira, 30 de abril de 2012

ESPELHO, ESPELHO MEU!, por João Maria Ludugero


Meu caro,
Se você acha
que sou feia,
ledo engano!
De tanto viver
de bem comigo mesma,
não me sinto velha,
apesar dos anos.
Aprendi a me gostar mais,
a viver  bonita.
- Hoje, eu me acho tão linda
que nem preciso de espelhos
que me digam o contrário.
Pra eles, tô nem aí, arremedo,
estiro a língua, 
sem tédio nem medo.
Eu perdi a vergonha
de fazer caretas pra mim mesma
e ainda sorrio na cara, sem traumas 
porque tenho coragem de ser feliz.
Aprendi a me ver 
e a me aceitar assim,
sou uma criatura bela, sincera
com a face que Deus me deu,
graças a Deus!
Não duvide disso, pois eu me amo!

quarta-feira, 25 de abril de 2012

INSPIRAÇÃO, por João Maria Ludugero


O poema nasceu
antes de chegar ao papel.
Tinha corpo, alma
e asas próprias pra voar.
Poderia vir a ser
um lindo pássaro, 
talvez um bem-te-vi.
No entanto, escapou
ganhou o azul do céu, 
livre da moldura do alçapão
o poema ganhou o mundo,
levado pelas tintas feitas 
dentro da minha cabeça.
E o poeta segue contente
que só vendo, ao ouvir de pronto 
a cantiga, o som advindo dos versos
partidos do coração radiante
que pulsa em compasso a rutilar
na solene dança das horas, 
trazendo o mundo a girar, a girar
na evolução dos girassóis!

segunda-feira, 23 de abril de 2012

UM MEIO DE CONTEMPLAR O AMBIENTE QUE NOS COMPLETA, por João Maria Ludugero


Depois de muitos sóis, depois de tantas luas,
parei na beira da estrada e passei a observar ao redor,
só aí foi que vi que meu caminho era árido.
Sobre a terra nua as pedras, os saibros, os espinhos,
os tocos e e as achas sem vida me feriam...
e dificultavam minha caminhada. 
Percebi que eu não cuidava direito
dos lugares por onde passava.
Então, decidi que precisava plantar um gramado
para que o chão ficasse mais macio ao toque dos pés,
árvores me dariam sombra e flores enfeitariam o meio-ambiente. 
Aos poucos o meu chão foi mudando os cinzas,
ganhando outras cores, até que as árvores começaram a florir
e suas flores cobriram o chão,
caindo dos galhos altos ao sabor do vento...
nem me lembro mais da terra nua de outrora. 
Ora piso sobre a grama, as folhas secas e flores caídas.
Hoje, percebo que as flores são como os poetas,
que mesmo depois de mortos ainda são capazes
de despertar nossa sensibilidade com a beleza
que deixam espalhada pelo caminho.
Os cardos, os espinhos continuam em seus lugares,
assim como as pedras, mas já não me machucam como antes;
as flores e o capim suavizam seu contato com minha pele,
amenizam o passo descalço, evitando os calos secos
e a rachadura dos calcanhares.
Encho o peito, renovo o ar nos pulmões e agradeço sempre.
Bendita foi a hora em que resolvi semear...
e como valeu a pena! Fiz a minha parte,
e ora tiro proveito do que semeei.
Sou tal qual aquele beija-flor solitário encantado
com o néctar das cores de cada estação...
Não me sinto um sanhaço só
a cantar bicando os frutos maduros,
mas feliz por espalhar sementes detre outros verões.
A natureza agradecida me completa,
e eu agraciado com tanta riqueza,
agradeço a beleza de cada lugar onde passo,
por onde deixo sementes e perfumes das flores
que ali nascerão, carregadinhas de botões
e de outros brotos a desabotoar em renovadas
esperanças de amor que sustenta a nossa terra de cada dia.

quarta-feira, 18 de abril de 2012

SOLAVANCOS,por João Maria Ludugero


Eu vejo arte por toda parte
Eiras, trancos 
Platibandas, solavancos...
Beiras, barrancos e asas, 
Sobreiras nunca estanques 
Letras em ânimo e a forma
De palavras acesas,  janelas
Que ainda florescem em casas,
Crescem em vasos à flor da pele
Sem esmorecer ao vento,
Eu prevaleço esquecendo a hora
Do fechar as abas do livro 
E a voz da poesia que me valha,
Eu não terei arrependimentos
Eu vi tantos viverem tão mal, de sobejo,  
E outros tantos morrerem tão bem ao ranço,
Sem jamais saber alcançar a beleza nata
Que sempre esteve dentro
Do amor que não é longe 
Para quem não desiste afoito
De exorcizar seus medos sem data,
De soltar seus bichos e alar desejos, 
Ao ensejo de ser inteiro e não migalhas.
Chega de mofar junto ao último biscoito da lata! 

sexta-feira, 13 de abril de 2012

O PÁSSARO QUE TRAZ A CHUVA, por João Maria Ludugero


Ao correr dentro das letras,
aprendo manhas que me dão alento,
numa forma de dizer o que penso.
... Sou médium da beleza 
do que não está prescrito,
sou lida que encosta dando alma às palavras,
corpo aberto ao movimento do poema 
mesmo quando tudo parece quieto.
Escrever é ser muitos, é ser único.
É esquecer que sou um só, louco ou lúcido,
é falar para o mundo o que a boca não deixa,
é chegar ao êxtase sem carecer se decompor.
é uma loucura insana dessas que chegam de repente
fazendo a gente mergulhar bem fundo 
a divagar no vão das coisas, consentido.
É sentir perfume na rosa dos ventos
e ao mesmo tempo se evolar na magia 
de beber cada gota do horizonte
feito um pássaro que traz a chuva.

quarta-feira, 11 de abril de 2012

MACAMBIRA EM FLOR, por João Maria Ludugero



Flor da macambira,
Bela e encantadora
Que cresce e floresce na Várzea
Como guardiã desafiadora dos caminhos
Do solo nativo de essências sutis
A se evolar com a brisa
Que sopra toda tarde amena,
Repartindo-se em formas coloridas
Fascinação em porte e esplendor,
Quero-te sempre assim bonita e formosa
Como um livro escrito em verso e prosa
Como páginas da lida 'varzeamar'
Que me ensinou a conjugar o amor,
Apesar da aridez dos espinhos.

terça-feira, 10 de abril de 2012

NEGATIVO, por João Maria Ludugero

De repente, 
Aquele alvoroço
Todos correm, 
De súbito, 
Ao se aglutinar 
Fazendo pose 
Para a fotografia. 
-Olha o passarinho! 
Saiu todo mundo, 
De caras e bocas escarnadas, 
Sorrisos em flashes, 
Dentes clareados no "giz" 
Olhos puxados ao vermelho, 
Mas ninguém quis se revelar.

quinta-feira, 5 de abril de 2012

A Libertação da Páscoa

"Busque em seu interior durante toda a quaresma o que é a Páscoa para você e então se sentirá livre.
Páscoa é ajudar mais gente a ser gente, é viver em constante libertação, é crer na vida que vence a morte.
Páscoa é renascimento, é recomeço, é uma nova chance pra gente melhorar as coisas que não gostamos em nós.
Para sermos mais felizes por conhecermos a nós mesmos mais um pouquinho e vermos que hoje somos melhores do que fomos ontem."
(Pensamentos de Páscoa de um autor desconhecido)

COAXARES, por João Maria Ludugero


Ao cair da noite
na Várzea das Acácias,
O cão vira-lata
late que late
doido a uivar pra lua
de quina pra rua nova.
A lua baixa se emaranha
na rua do arame
onde se acha a alegria
em algazarra
que salta aos olhos
de um magote de crianças
numa rica ciranda
de marré de si.
Entre ramas de maracujá,
eu pergunto ao sapo afoito
por que ele insiste em coaxar?
Ele simplesmente nem dá trela.
E tchibum! mergulha no rio Joca
a nadar com as jias e caçotes.
E eu? eu fico a contar estrelas
na esperança de efetivar
meus três pedidos
na cadência luminosa
de alguma delas.
Permita-se




Permita-se,andar pela rua no dia de chuva e chutar as poças d'água, andar pela areia da praia com os pés descalços, deitar na relva ainda úmida na manhã que se apresenta, contemplando a natureza.

Permita-se rir de si mesmo diante do espelho, contar uma piada sem graça onde só você ri, falar do tempo com bom humor, contar estrelas em noite enluarada, perder a conta e recomeçar várias vezes...

Permita-se errar e admitir o erro sem culpa, permita-se ser seu próprio advogado, já que você defende tanta gente, ame-se!

Permita-se ser mais amigo que pai, e pai na hora que o filho pede um conselho.
Permita ser menos que "super-mãe" ser simplesmente acolhedora, colo de mãe não tem igual.

Permita-se ser amado, roubar um beijo, um abraço mais demorado, andar de mãos dadas pela praça, comer pipoca em um saquinho único, beber refrigerante com dois canudinhos, coisas bobas dos apaixonados, guardar papeizinhos, bobeira deliciosa...

Permita-se chorar de vez em quando, desopilar a alma, emocionar-se, permita o arrepio dos pelos, e no contato com Deus, permita o toque do Divino, e crer na força da transformação que existe em você.

Permita-se hoje, viver o amanhã, sem se preocupar com o que foi, pois assim é você, pessoa maravilhosa, que tudo pode dentro das suas limitações, e para quem já aprendeu sonhar, qual é o limite da própria vida?

Permita a invasão da alegria, seja feliz, ainda que a noite pareça não ter fim, o dia vai chegar e quer te encontrar sorrindo!

 (Paulo Roberto Gaefke)

segunda-feira, 2 de abril de 2012

O HOMEM POR INTEIRO, por João Maria Ludugero


Hoje não tenho vergonha

De dizer que choro. E choro mesmo!
Não me importa o pensar torto
De outrem a dizer que é sensível 
O homem que gosta de flor.
Elas me fascinam, as flores.
Eu dou o braço a torcer,
Confesso: quando preciso, 
Debulho-me em lágrimas.
Quando sinto saudade, 
Marejo os olhos ao cair da tarde. 
Eu me assumo: sou poeta!
Eu gosto da vida. Eu sou de carne e osso.
Eu tenho um coração que sente. 
Nunca minto pra mim mesmo:
Se carecer, boto a boca no mundo
E choro, doido por um cafuné.
Choro por um dengo, por um beijo
Pra curar meu coração machucado.
E funciona: Acabo menino de bem com a vida
A cavalgar pelas calçadas da rua grande,
Querendo roubar um pingente de lua
Só pra enfeitar teu colar de prata 
Feito homem inteiro a correr
Num galope rasante a encostar
Minha vida na tua, sem medo
De que tudo venha desabar amanhã,
Ao desapear da tal burrinha da felicidade!

domingo, 1 de abril de 2012

ATOS


Por Guará Matos
  
Anastácio se senta no alpendre 
Da velha casa
E olha pro vazio
Revivendo o passado

Na lembrança lhe vem
O terno bem cortado
O jeito de moço charmoso
Brilhantina nos cabelos
Banho de Lancaster
Pra ficar perfumado

Sapatos com chapinha nas solas
Unhas bem feitas
O melhor sorriso no rosto
E o cigarro de palha aceso
Jogando fumaça 

O Dancing estava sempre cheio
Vinha gente de todo o canto
E recanto
O baile era o que havia
Naquele lugar

Orquestra de vários instrumentos
Inclusive um mastro
E um piano pequeno
Vindos do Rio de Janeiro

Mesas com tampos de mármore
Cadeiras de madeira de lei
E balcão comprido 
Como aqueles de velhos saloons 
Dos filmes de bang bang

E lá
Sentada na ponta
Estava a mais linda
De todas as damas

Fumando com piteira
Bebendo seu drink
Preparado com esmero
Pelo barman Nicolau
Luci sorriu
Ao ver seu par

O esperou dar-lhe a mão
Seguiram para o centro do salão
E começaram a bailar
Nas musicas que irradiavam magia

Perderam a conta
De quantas foram as canções

Não paravam 
De descanso não precisavam
Os corpos suados
Colados
Queriam apenas 
Calor

O baile acabou
E veio a despedida
Luci disse que iria 
Para a cidade grande
Melhorar a própria sorte

Sem entender o porque
Anastácio treme as pernas
Procura um encosto
Escorrega de bêbado
E cai sobre o chão

Quando consegue olhar em volta
Não vê mais ninguém
Estava sozinho
Sem nada a dizer

O tempo passou
E ele sempre sentava-se 
Naquela alpendre
Para relembrar

Foram quase dez anos
Que lhe atormentavam
Sem compaixão

Deitou a cabeça entre as pernas
E assim pretendia ficar o tempo que fosse
Não tinha pressa
Pra mais sofrimento

Todavia, naquele momento
Uma voz lhe chamou atenção
Ele teve outro tremor daqueles
Mas teve força pra olhar

Luci estava em pé
Com as malas ao lado
Continuava linda
Apesar de algumas rugas vadias

Os cabelos estavam pintados
Para esconder alguns esbranquiçados
As mãos continuavam finas
E a elegância altiva

Diante do espantado homem
Ela pede uma dança
A música eles imaginariam
Pois a arte dominavam

Ele a abraçou pelos quadris
E rodopiaram sobre o gramado quintal
Aproximaram-se o rosto
E o beijo aconteceu

Ali mesmo fizeram amor
Naquela tarde de outono
As folhas comemoravam
Mais um ato da vida

Não houve perguntas
Eram sem necessidade
A resposta foi dada pelo destino
Amar sem olhar pra trás.