domingo, 19 de janeiro de 2014

SÓ PRA DESOPILAR, por João Maria Ludugero

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
SÓ PRA DESOPILAR, 
por João Maria Ludugero

Pelo avesso,
Eu trago um pouco de nós
Desatados, sem cortes 
Um pouco de tudo 
Que somos 
E do laço que perdemos 
Pelos vãos dos dedos, 
Pelos nãos dos medos, 
Pelas mãos dos ledos, 
Pelos sãos dos credos; 
Pelos tantos arremedos 
Pelas línguas estiradas 
Dos dias de tédio, 
Pelas bulas prescritas 
Pelos rótulos sem remédio 
Pelos unguentos em placebos 
Pelos pelos das ventas, 
Pelas tranças no cabelo 
Pelos poros, pelos suores 
Pelos goles tragados a seco 
Na esquálida esperança 
Das garrafas vazias nos cantos. 
Porque ainda tenho pés 
De moleque medonho 
Ainda não enferrujei as rotas 
Nem as rótulas dos joelhos arteiros, 
Ainda pretendo ir ao encontro do tempo, 
Ainda tenho um braço destemido, 
Ainda arregaço contente 
As praças, as taças e os brinquedos. 
Tenho cartas explícitas nas mangas, 
Não careço de camisas-de-força 
Nem quando tentado ir a Vênus. 
Mas, se me dou ao uso de coletes à prova de balas, 
Prefiro os de hortelã ou de anis-estrelado. 
Eu sou arauto de palavras benditas 
Que desopilam corações partidos.

ADEUS-SE... por João Maria Ludugero


ADEUS-SE...
por João Maria Ludugero.

Como dizer breve adeus,
Se ainda não fui embora
Não fui para além da vida
Do que já fui tenho sede
Não sou penumbra triste
Encostada a uma parede.

Como dizer breve adeus,
Se a vida ainda me atura
Vai morte para bem longe
Ai, como dói tal saudade
E o coração quase parte
Na ilusão desta alvorecida loucura!

LUDUGERO EM RARA INTEIRA METADE, por João Maria Ludugero

 
 
 
por João Maria Ludugero.

Não só de manjar,
Mas quando eu disse que sou Ludugero
Foi que me olhastes com os olhos ligeiros.
Tua astuta alegria foi cúmplice da minha,
Teu sorriso afoito cuidou do meu vislumbrado. 
Sou Ludugero, e só porque eu sabia, tu sorrias,
Como se tivesses encontrado algo raro em mim..
Logo eu, que não estava ali por acaso
Não só pra ver o tempo passar.
Eu estava ali ao avanço do sol
Talvez à procura de outra criatura. 
Mas sou Ludugero, um cara levado da breca…
E de repente, foi como um sonho lusco-ofuscado.
Tu destes de me conhecer, não mais te estranhei.
Daí partimos, com um adeus, para sempre, talvez.
Menos sozinhos a ganhar o mundo,
A correr dentro e alto, descabidos,
Mas gratos por tudo que vivemos.

PLENA DISTRAÇÃO, por João Maria Ludugero


PLENA DISTRAÇÃO,
por João Maria Ludugero

Eu já disse tantas palavras diante do espelho e perante a ti.
Tenho dito coisas que não se diz senão ao interior, 
Olhando alto e bem fundo dentro dos olhos.
Será que tenho dito coisas tão desconexas, não consentidas?
E agora só creio: será que tudo o quanto disse 
Ficou pelo vão das palavras soltas, além de esbaforidas,
Que se perderam ontem no profundo desvão de tal lida.
Mas se o passado não morrer, o amanhã não nasce...
Silêncio.
Não prestaste atenção.
Eu digo tudo no olhar!

LUDUGERO EM RARA INTEIRA METADE, por João Maria Ludugero

LUDUGERO EM RARA INTEIRA METADE,
por João Maria Ludugero.

Não só de manjar, 
Mas quando eu disse que sou Ludugero 
Foi que me olhastes com os olhos ligeiros. 
Tua astuta alegria foi cúmplice da minha, 
Teu sorriso afoito cuidou do meu vislumbrado. 
Sou Ludugero, e só porque eu sabia, tu sorrias, 
Como se tivesses encontrado algo raro em mim..
Logo eu, que não estava ali por acaso 
Não só pra ver o tempo passar.
Eu estava ali ao avanço do sol 
Talvez à procura de outra criatura. 
Mas sou Ludugero, um cara levado da breca...
E de repente, foi como um sonho lusco-ofuscado. 
Tu destes de me conhecer, não mais te estranhei. 
Daí partimos, com um adeus, para sempre, talvez. 
Menos sozinhos a ganhar o mundo, 
A correr dentro e alto, descabidos, 
Mas gratos por tudo que vivemos.

MEMÓRIAS DE UM MENINO VARZEANO (1ª parte), por João Maria Ludugero


 
 
  
 
 
 
MEMÓRIAS DE UM MENINO VARZEANO (1ª parte), 
por João Maria Ludugero. 

Eu era ainda muito criança, mas já observava a vida simples das pessoas do lugar. Tudo era muito puro e natural. Naquele lugar, num recanto do mundo, a vida corria devagar, entre pescarias no rio da Cruz e o coqueiral do rio Joca, a paz não tinha pressa e a alegria sempre era bem-vinda. A alegria andava solta e saltava aos olhos ao descer pelo sangradouro do Calango, que vertia sua água rumo ao pequeno terreno alagado da Várzea, transbordando pelos bueiros da estrada de barro que dava para o matadouro municipal. Ali alguns meninos treinavam uma "pelada" com bola-de-meia. E era o máximo jogar naquele terreno de onde brotavam capim e junco. Ao longe e perto, pastavam as ovelhas e os borregos do Seu Nezinho. E no caminho de estrada de chão que dava para a fazenda Maracujá, entre clarões de marmeleiros e mata-burros seguiam solenes os jegues carregados com seus barris de água potável do Calango. Vida boa, vida mansa, a vida varzeana. Tão pacífica e hospitaleira a cidadezinha que atraía até mesmo bando de ciganos que teimavam em ler a sorte da gente. 

Das minhas lembranças de menino, já faz algum tempo, mas não esqueço da minha avó paterna, dona Dalila, que toda manhã me conduzia ao Açude do Calango, com o seu pote de barro, rodilha na cabeça, a buscar água de beber. Lá mesmo, na beira do açude, eu enchia os olhos e limpava a visão no imenso espelho de luz que o sol fazia refletir nas águas do Calango, enquanto dona Dalila enchia sua cuia ou a lata de óleo Benedito e me banhava de corpo inteiro. Eu, despido de tudo, sentia-me um pequeno rei, parecendo que ia ser batizado naquela enorme bacia de zinco. Voltávamos para casa, de corpo e alma lavados. Inocente da vida, percorria o caminho do começo, de volta para casa. E a nossa casa ficava na Rua do Arame. E a nossa casinha, que na verdade era da nossa avó Dalila, era toda de pau-a-pique. E a nossa rua tinha um cheiro bom de pão, era o cheiro que vinha da padaria de Nenê Tomaz. Eta, que cheiro bom! Tem coisas que a gente leva para a vida toda. 

E as recordações não param por aí. Lembro-me das missas aos domingos. Logo me vem a lembrança da minha avó, empunhando o seu terço de contas azuis. Ela era muito poderosa, uma senhora de muita fé. Só sei que a minha avó Dalila, que era baixinha, com o seu terço na mão tinha a força de Sansão. Nós deixávamos a igreja, depois de adorar a São Pedro, e seguíamos direto para as barracas da feirinha na rua Grande, e ali mesmo no meio da rua, no meio da gente, entre feirantes e marchantes, diante de verdadeiras montanhas de abacaxis, bananas, jerimuns e garajaus de rapaduras, camarões e peixes, degustávamos os quitutes (picadinhos) de dona Sinhá e o bolo preto com suco de maracujá da banca de dona Zidora. Não esqueço de Seu Antonio Lunga a vender suas cordas de caranguejo e aratus. Ali havia tanta coisa gostosa, sarapatel, sequilos, cuscuz de coco, etc. Lembro-me de tanta gente, que prefiro não citar os nomes para não esquecer de ninguém. 

Tanta gente, tantos momentos bons, tantas festas... aliás, tudo era festa: até quando a dona Dalila, minha avó, estourava milho amarelo na panela de barro (usando a branca e fina areia do rio e não óleo para fazer pipocas). A gente era humilde e não dava para usar sempre óleo para fazer pipocas, então, apanhava areia do rio Joca e tudo era tão saudável. E quantas vezes minha avó dividia o pequeno balde de leite cabra que ela criava solta na Várzea. Eu sempre levava menos de um litro de leite de cabra para fazer pirão. Claro, completava com água, para render a porção. E tudo era tão bom, apesar de minguado. A gente era simples, não tinha muita coisa não, era pobre mesmo, mas sempre com tamanha dignidade, essa dignidade que a gente traz de berço para a vida toda. Quem a tem sabe do que estou falando. Nunca tive vergonha da minha origem humilde. Tenho mesmo é muito orgulho de saber de onde eu vim. E disso, não posso nunca negar, eu tenho estirpe, eu sou filho do soldado Odilon Ludugero da Silva e da dona de casa dona Maria Dalva da Silva. Dona Maria? Sim, ela mesma. Dona Maria de "seu" Odilon. Eta, família boa essa família de Seu Odilon. Que Odilon? Odilon de Dona Dalila, amiga de madrinha Joaninha Mulato. Madrinha Joaninha, mãe de Nina. Quem não se lembra do banco de Nina, quem não sentou ali para tomar ciência das coisas da cidade? 

Tem coisas que não esqueço nunca, que vivem permanentemente na minha memória. Acho gratificante recordar. Por exemplo, a montagem da árvore de natal da minha avó Dalila. Ela pegava no roçado um pequeno arbusto e o envolvia todo em chumaços de algodão. Ela plantava aquele galho seco num lata de querosene 'Jacaré' cheia de areia do rio. De repente, como num passe de mágica, a árvore ficava toda enfeitada repleta de bolas de vidro coloridas. Mais parecia um sonho quando uma bola se quebrava, apesar de todo cuidado dispensado. Mas o sonho da gente não se quebrava, era um sonho acordado, tão humilde e tão simples, mas tudo era tão honestamente feliz. 

Lembro da casa da minha avó, na rua do Arame, na sua casinha simples, toda de taipa e chão batido. Dona Dalila era uma rezadeira senhora de pulso. Ela mesma fazia a sua horta no quintal, onde plantava de um tudo: coentro, cebolinha, erva-doce, pimentão, tomate, quiabo e um pé de abacaxi. Esse pé de abacaxi vingou um fruto só, que pouco cresceu, mas logo ficou maduro. Lembro que minha avó dividiu aquele fruto para toda a família. Todos puderam provar do minguado abacaxi ali produzido. Minha avó tinha tão pouco, sua cama tinha colchão de junco que ela mesma tecia. E com tão pouco, mas sabia repartir o pouco que tinha e, ao reparti-lo, sabia multiplicar esse pouco que muito rendia ao ser dividido. Quanta sabedoria dona Dalila repassava com seu exemplo, com suas atitudes, que, mesmo sozinha e viúva, criara tantos filhos, sem nunca se deixava esmorecer. É assim que lembro a minha avó, com todo carinho. 

E por falar de boas recordações, não é demais expor mais uma grande lembrança, esta agora com a minha irmã mais velha, a Lúcia de Seu Odilon, quando todos nos juntávamos na época das festas de fim de ano, à tardinha, imbuídos pelo espírito natalino, para confeccionar cestinhas coloridas de papel crepom, as quais seriam recheadas com castanhas de caju assadas, e eram vendidas pelas ruas da cidade, penduradas num cabo de vassoura. Tudo tão rústico, tão simples, mas divertido, tudo acalantado ao som de músicas natalinas que partiam do centro do mercado central. E o sino da matriz quebrava o silêncio da tarde, trazendo o timbre festivo daquele tempo bom, em que éramos tão felizes, e com tão pouco. 

Tem um episódio da minha vida, que gosto de relembrar, e com orgulho. Foi durante a vinda de Frei Damião para Várzea. A cidade toda em festa para receber o eminente padre. Eu fui vendedor de água benta. Pegava água nas cacimbas do rio e enchia garrafas de água mineral, todas tampadas com rolhas de mulungu. Fui vendedor de água benta, com muita fé e orgulho. Eu só sei de uma coisa: nasci para acreditar que um dia eu chegaria lá, lá aonde só chegam os vencedores. Não medi esforços, não cruzei os braços. E aqui estou eu. João Maria, advogado em plena Capital do Brasil. De Várzea para o Brasil. Eu tinha certeza que eu chegaria lá. Uma coisa já me dizia. Eu acreditei. 

Ah, um dia fui convidado a trabalhar(tomar conta) dos livros da Biblioteca Municipal Ângelo Bezerra. Única Biblioteca de Várzea. E eu só tinha 12 anos. Ali no meio de todos os livros, de todas as palavras, números e letras, eu viajei pelo mundo, eu conheci o mundo todo, eu dei a volta pelo mundo... E juro, nunca mais parei. 

E como não me orgulhar de tudo isso? De onde eu vim me interessa muito. Eu tenho raízes que vou eternizar, das quais trago imenso orgulho. Eu vim de lá. Não tenho como nem porque negar. Tenho orgulho, sim, de ser hoje JOÃO MARIA LUDUGERO DA SILVA, Advogado (OAB-DF nº 13.231), residente e domiciliado em Brasília, Capital da República, exercendo o cargo de Analista Processual (concursado) junto à Procuradoria-Geral da República/Ministério Público Federal. 

Eu vim, eu vi, eu venci. Eu sou um vencedor. Eu sou um homem muito feliz e de bem com a vida. No começo, tudo parece difícil, mas não adianta baixar a cabeça às adversidades. Elas sempre vão existir. Mas não tenho medo de carregar pedras. A gente acaba por aprender com elas. Os obstáculos funcionam como estímulos aos que sabem vencer. E o que a gente pode fazer com as pedras do caminho? Façamos degraus, para a subida, para o alto. Com paciência, amor e Deus a gente pode muito, aliás, alcança tudo. Estou aqui e não pretendo parar tão cedo. Aos cinquenta anos estou num grande momento da minha vida, talvez no meu melhor momento. Agora mesmo estou a cursar minha Pós-graduação em Direito Penal, com o objetivo de aprimorar meus conhecimentos, aprender mais, ser uma pessoa melhor, um ser humano que acredita que o sonho é possível, basta que a gente não cruze os braços, mas vá à luta, com unhas, garras e dentes. Quando a gente quer, Deus ajuda e tudo acontece. A alavanca propulsora está na nossa vontade e no coração. Deus nos orienta e 'não pense que a cabeça aguenta se você parar'. 

Deixo aqui esses fragmentos de recordações, eloquentemente por mim elaborados. Hoje estou em Brasília, capital da República, tenho objetivos na vida e uma carreira profissional claramente bem definida. 

Já dizia o Pe. Antonio Vieira, em um de seus Sermões: "Toda vida humana, se não trouxer sempre diante dos olhos o fim para que nasceu, é nave sem norte, é cego sem guia, é república sem lei, é dia sem sol, é norte sem estrelas, é labirinto sem fio, é armada sem farol, é exército sem bandeira, em fim, é vontade às escuras, sem luz de entendimento e que lhe dite o que há de querer ou fugir". 

Eu sou um ser humano que tenho definido meus objetivos clara e realisticamente e não desperdiço meu tempo, recursos, esforços e, muito menos, energia, porque sei o que quero e que caminho devo seguir. Tenho objetivos e dou sentido à vida. Alcançá-los, é concretizar os próprios sonhos. Em síntese, os objetivos claramente definidos são sonhos com datas fixas e pré-determinadas. Sou um vencedor, trabalho no que mais me agrada, tenho uma filosofia de vida e trabalho. Tenho uma família maravilhosa, amadureci e cresci. Não sou de adiar os meus sonhos ou mesmo a abdicar do planejamento estratégico da minha vida. Esse é o segredo. Sou um dos homens mais felizes do mundo. Minha maior felicidade: meus filhos Igor Gabriel e Jordana Majella Ludugero. 

Mas como Ludugerável menino-teimoso que sou, 
ainda insisto em desentortar os caminhos pelas bermas da lida
em construir castelos sem pensar no alvoroço dos ventos. E continuo a assanhar até os pelos da venta!