domingo, 30 de setembro de 2012

SÓ PRA DESOPILAR, por João Maria Ludugero

Pelo avesso,
Eu trago um pouco de nós
Desatados, sem cortes 
Um pouco de tudo 
Que somos 
E do laço que perdemos 
Pelos vãos dos dedos, 
Pelos nãos dos medos, 
Pelas mãos dos ledos, 
Pelos sãos dos credos; 
Pelos tantos arremedos 
Pelas línguas estiradas 
Dos dias de tédio, 
Pelas bulas prescritas 
Pelos rótulos sem remédio 
Pelos unguentos em placebos 
Pelos pelos das ventas, 
Pelas tranças no cabelo 
Pelos poros, pelos suores 
Pelos goles tragados a seco 
Na esquálida esperança 
Das garrafas vazias nos cantos. 
Porque ainda tenho pés 
De moleque medonho 
Ainda não enferrujei as rotas 
Nem as rótulas dos joelhos arteiros, 
Ainda pretendo ir ao encontro do tempo, 
Ainda tenho um braço destemido, 
Ainda arregaço contente  
As praças, as taças e os brinquedos. 
Tenho cartas explícitas nas mangas, 
Não careço de camisas-de-força 
Nem quando tentado ir a Vênus. 
Mas, se me dou ao uso de coletes à prova de balas, 
Prefiro os de hortelã ou de anis-estrelado. 
Eu sou arauto de palavras benditas 
Que desopilam corações partidos.

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

POETA MENINO MEDONHO, por João Maria Ludugero

Pra que vejam que sou poeta
Dou tinta às palavras soltas
E meu pincel nunca deixo; 
Pra que saibam que o poeta 
Não é somente de letras...
Longe de ser cabotino, arteiro
Pinto qualquer flor com ânimo
E ainda bebo o horizonte;
Aqui deixo traçado o caminho,
Versejo até o que parece impossível,
Escrevo como quem pinta, e consigo
Escavar o tempo em que me lanço, 
Faço as vezes de um menino medonho,
Pinto e fico pintado, em cores vivas
Me nino e acordo sonhos!

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

AS MAIS BONITAS MARIAS, por João Maria Ludugero



Minha Várzea é pequenina
Fica ali sob o Vapor
No Vale do rio Joca
São Pedro no topo está
No Comando das chaves
Que protegem esse lugar
Vige, Maria, como tem Maria 
A viver nesse lugar abençoado
Maria destemida feito varzeana
Daquela que desde cedo
Faz o cultivo do chão
E a Maria semeadora
Que ajuda na plantação
Tem Maria lá no encontro da praça
Que é a tal sonhadora
Cheia de esperança e graça,
Tem Maria que cedinho
Limpa a rua com a vassoura
Tem aquela que ensina,
A Maria professora,
A Maria trabalhadeira
Rodeia feito pião
Tem a Maria de fé
Transforma a farinha em pão
E a Maria morena bendita
Com corpo de violão,
De nascença é tão bonita
Tão modesta e tão rica
Que até vestida de chita
Não se furta às cores, rouba a cena, 
Sabe ser bela na fita!

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

APRENDENDO A GOZAR A VIDA, ANTES QUE A TERRA NUA VENHA NOS COMER A CARNE, por João Maria Ludugero

Somos feitos de carne e osso
Com a alma à flor da pele
sendo que todo homem, 
toda mulher não são tão sãos 
nem assim tão santos, 
mas sob hipocrisias convencionais 
se culpam pela esbórnia matinal da vida, 
após a precoce ejaculação consentida 
todos são do mundo a ponto do clímax... 
imundo é não gostar do que cintila 
o gozo da palavra ereta 
que eclode na língua inquieta, afoita, 
sob o tesão do que falo a dentro 
sem ficar à margem da vontade 
de ser estar nus e felizes, a tempo 
de andar desnudos, narizes em riste, 
por dentro e por fora, ousando ir além, 
sem vergonha de quebrar cerimônias, 
carecendo deseducar(se) às vezes, 
senão as coisas se perdem dentro da gente, 
ficam sepultadas no cofre da compostura 
e acabam por se perder, caem em desuso, 
ou saem na excreção em suor, urina e fezes.

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

HOSPÍCIO, por João Maria Ludugero



Nem precisou 
De camisa-de-força,
Fui levado a nenhum hospício
Acho-me louco e viciado
Louco de amor pela vida
Desses de ir à lua 
Num piscar de olhos,
Enfrentar meus dragões
Doido de atirar pedras 
No espelho d'água do açude 
Só pra ver os espirais a circular 
Sou doidinho e viciado 
Nas pessoas que amo.
Graças a Deus,
Não sou normal
Nem careço de bulas
Nem placebos
Nem remédio
Agora é tarde pra ceder, 
Não tem remendo pro vestido
Só me resta aguardar e seguir,
Arremessar meus tédios, de cabeça,
Esperar que o mundo gire, revire,
Que tudo mude ou desabe 
Ou que eu exploda antes do fim do mundo 
Não quero ser poupado antes que tudo acabe 
Tudo indo na leva da enxurrada
Ou nas lavas do vulcão...
Ora sei que sou levado a ser eu.

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

QUE ÍCARO QUE NADA!, por João Maria Ludugero

Ainda me resta a palavra que ecoa
da tua boca de seda em carmim
que me deixa lúcido 
que tanto me envenena 
que me acende o olhar 
a voar mais longe,
bem dentro do céu 
que me comporta
ao me achar e me perder 
na tua boca.
Dobro os joelhos consentido,
escavo, escrevo versos afoitos
deixo-me escorrer ao teu umbigo,
encolho os ombros a te servir
deito meus olhos, pra todo dia 
poder olhar o mundo e ver, 
por Santa Luzia,
rezo, faço da poesia um canto 
alegre esvoaçar de pássaros
atravessando a aridez do agreste. 
Quero mais sim,
hoje careço recobrar as asas, 
ser mais que um Ícaro, derreter a cera, 
sem medo de perder o juízo, apenas
ir rumo ao sol, girar bem alto e dentro...
Mas, se chegar a cair,  
prometo a mim mesmo, sem penas, 
estou pronto pra colar meus cacos.

UM PASSADO A LIMPO: AVE QUE SAUDADE DO MEU LUGAR DE DIAS SIMPLES... DIAS TÃO BONS!, por João Maria Ludugero

Os últimos raios do sol
tingiam de vermelho todo o céu da Várzea.

Nervuras douradas no poente, 
alaranjando um pouco acima do horizonte
a noite já vestindo de sombras o açude do Calango,
onde cintilava maravilhosa a enorme lua cheia,
gigante tapioca solitária disposta ao léu.
Um magote de crianças jogava bola na Vargem,
Enquanto eu seguia rumo à padaria de seu Nenê Tomaz,
de quando em quando, parando 
para contemplar as andorinhas
que voavam numa dança, em frenesi
brincando de vôos rasantes 
e voltando às copas das duas palmeiras de São Pedro.
A tarde parecendo um sonho...
Então ... um sonho colorindo toda a minha infância,
toda a saudade que me acorda naqueles dias 
de onde sonhava com o futuro único.
O velho sino da igreja badalava as seis horas... 
Então, alguns escutavam o radinho-de-pilha de seu Nezinho.
Era a hora do Ângelus , a Ave-maria
cobria toda a pequena Várzea como um manto
e até hoje me veste das mais doces lembranças!
Ave-Maria, que saudade daquelas tardes amenas 
na calçada de igreja de São Pedro...
Que tempo maravilhoso! Ave que alegria no presente!
Ave como creio no futuro de dias melhores que virão para a nossa Várzea!

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

O DEDO DE DEUS, por João Maria Ludugero


Eu gosto de cheiro de mato,
de ver de perto o mato crescer
faz um bem danado escutar 
essa coisa solta tão natural
de se deixar levar pelo vento;
sentir a brisa tocar os pelos
da venta, passar a mão  
em volta das barbas de Deus, 
inspirar-se na ideia de dançar
com Deus, na paisagem
sentir essa força ventilar
reinventando-se cria, de passagem
cria aturando-se paciente
na impermanência de ser 
molde de Deus, desenhado
e assinado com as digitais dele.

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

A PARTIR DO EU, por João Maria Ludugero

Minha cabeça acesa
Me amarra em liberdade
Desato-me os nós 
Solto pelo mundo,
Nada tenho a esconder 
Ensimesmado adentro
Muito ainda miragem no oásis
Por não saber me exteriorizar,
Mas já que estou no labirinto
Não deserto da raia, adiro,
Passo a correr afoito, cedo-me
De todos os lados atento 
Do centro à margem,
Apenas me acho à beira 
De dentro pra fora
Do umbigo do mundo, 
No que há
Para além
Do que há
Da porta à soleira:
A caça do oculto me leva
Das claras à gema, 
Fundura em superfície,
O mistério do amor longe
Sem segredos se achega
Perto de todas as coisas,
Ao alcance dos dedos ao fio
Da meada da mão de Deus 
Que me livra da mira dos medos!

FOGÃO À LENHA, por João Maria Ludugero


Na cozinha de dona Dalila
a gente era a gente mesmo:
Éramos fogo, fome e alegria.
Tenho saudade do que já foi, 
das velhas cozinhas de Várzea, 
com seus fogões à lenha, 
cascas de laranja secas, 
atiradas aos caibros,  
penduradas na cumeeira,  
usadas para acender o fogo. 
Bule de café borbulhando, 
biscoitos, tapiocas  
e bolachas regalias, 
lenha crepitando no fogo, 
um bom bocado de cheiros 
da fumaça e dos bolos 
E um magote de inquietos 
meninos e meninas  
de  bochechas rosadas, 
satisfeitos com os grudes,  
sequilhos e brotes à mesa.  
Minha alma tem saudades 
desse tempo bom 
rebuscado em cheiros, 
ruídos e temperos.

terça-feira, 11 de setembro de 2012

ADMIRÁVEL EMBOCADURA, por João Maria Ludugero


ADMIRÁVEL EMBOCADURA
(Fiz este poema hoje à tarde, pra você amiga Kiro Menezes).

Pelo vão, sou riacho
a receber tuas águas...
afluentas-me cauadalosa,
atravesso pedras e limos
-Mas onde tem vau neste rio,
para que eu possa atravessar?
passo a vau, vou fundo
sou rio a desaguar no teu mar,
num mar de emoções incontidas.
Vou juntando teus azuis, teus verdes
que dançam aos olhos de Deus
no solene baile que ele nos permite sonhar
sobre os sentidos acordados.
Tudo passa em verdade no cenário
rabiscado pelo sol que nos horizonta,
trançando teu cabelo ao vento...
E o vento uiva a te enamorar
ao longo do caminho, atrevido.
O vento penteia teu cabelo
e emaranha tuas tranças,
uma a uma, feitas na fita,
enquanto o mundo ofuscado 
gira em cena, pouco a pouco, no palco
e silencia sob os acordes
da tua incessante beleza.

FILHOS DA VÁRZEA, por João Maria Ludugero


De repente, esperançosos,
caminham pela trilha —
os filhos da Várzea.
De manhã, bons ares em brisa 
encrespam o açude do Calango
e penteiam suas águas verdes-musgo.
Roupas estendidas na areia—
o clarear dos quaradouros
alveja o varal ao longo do rio Joca.
Ao passar pelo Vapor, o tempo
abre a tarde amena varzeana, 
a rutilar o sol timidamente 
num claro sorriso de almas em flor.
Cantiga de canário-de-chão —
um canto de desencantar aridez
de reverdecer juazeiros.
Sozinho no cenário agreste,
sol a pino ao meio-dia, de rachar o quengo   
ao passar do carro-de-boi, 
como que a soar um lamento.
Lá fora o canto das cigarras  —
Elas, com estridente zoar,  
prenunciam a chegada da primavera,
de tal sorte que eclodem num estouro de saudades...
Com a mulinga, a arrebentar o peito da gente!

domingo, 9 de setembro de 2012

DE ONDE ÉS? EU SOU DE VÁRZEA!, por João Maria Ludugero


Por ser de lá
Carrego nas asas do vapor 
Minha saudade que arde toda tarde
No emaranhado da minha sede de escrever,
Confiando ao peito minha vontade de viver,
Que corre o espaço profundo a pelejar a sorte,
Colhendo o dia na força do braço,
Sob o chuá da lajinha ao lajedo do gado
A pastar por riachos do mel  
Em sítios do maracujá aos seixos
Dando forma ao meu desejo de lá viver
Minha paixão maracujá,
Por umbus, trapiá, itapacurá a dentro
Percorro o leito salgado do rio Joca e não esmoreço,
Renasço assim feito capim grosso, 
Sou majestoso juazeiro  
No meio do agreste de verde sonhar, 
Onde aprendi a trabalhar a quimera,
Acordar ação em hora certeira, 
Antes do sol bater na cumeeira, a pino, 
Entendo a magia e os limites do tempo.
Meu poema é semente de horizonte:
Pede empreitada de sonhos,
Plantio, trabalho, esperança nova.
Sou varzeano e acredito na lida, 
Tenho sede e escavo fundo minhas cacimbas
Que acabam vertendo poesia na veia,
Que mina, que brota dos meus olhos d'água.

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

POEMA À MINHA INESQUECÍVEL MÃE MARIA, por João Maria Ludugero


 A nossa mãe Maria Dalva,

com tamanha dedicação,
fazia tapioca, beiju, grudes 
e bolinhos de chuva,  
sem que a gente entendesse 
porque nessas ocasiões, 
geralmente, o sol irradiava 
festivamente amar-elo. 
Nossa mãe Maria fazia 
canjica, curau e pamonha 
com o milho colhido na hora 
nas plantações à margem do rio Joca 
no pacato roçado do Vapor de Zuquinha. 
Nossa mãe Maria 
costurava roupas, cerzia 
nossas vestes esgarçadas 
nas peraltices do dia-a-dia 
em sua máquina antiga, 
estrategicamente posicionada 
próxima à janela da sala-de-estar 
só para ficarmos ao alcance 
da sua vista, de sentinela 
Como que um anjo da guarda 
que, entre um afazer e outro, se ajeita 
e alonga o braço para nos proteger... 
E seu pensamento bastava 
para nos abençoar 
e seguir crescendo. Crescemos? 
Hoje não temos mais 
quem nos assopre os ferimentos, 
mas sua lembrança ajuda 
a curar as dores da alma, 
apesar do coração partido, de saudades, 
toda tarde quando o sol se deita. 
Saudades do teu sorriso, 
saudades da tua benção à noite... 
saudades do aperto do teu abraço.

domingo, 2 de setembro de 2012

CAPIM, por João Maria Ludugero


Fiz meu roçado 
Lá no Vapor de Zuquinha
Fiz a poda, levantei leirões com afinco
Sob o sol a pino
Desses de esturricar a moleira.
Plantei milho, feijão 
E mandioca pra farinha
Deu capim,  que não foi plantado
Nem tratado, mas nasceu ali.
E cresceu com tanta força,
Apesar da coivara de antes
Que tanto maltrata a terra, 
Apesar da pujança da queimada
Com línguas de fogo, labareda,
Bastou a primeira chuva propícia
A molhar a Várzea do rio Joca,
Para o capim reviver.
Capim é feito a esperança do povo
Mesmo que arda sob as chamas,
Quando parece desaparecer, 
Ela não tarda a renascer, 
Brota das cinzas!