terça-feira, 31 de julho de 2012

ROMEU E O ÚLTIMO GOLE, por João Maria Ludugero


Sou Romeu de tal, 
mais um cidadão 
que sobrevive de migalhas
alheias, dos sobejos de outrem,
do que sobra na dispensa do sobrado
onde se refastela o manda-chuva
Sou Romeu, aquele que acorda cedo,
madruga só pra ver estrelas no batente,
logo ao toque da estridente sirene
que me chama pra traçar a dura lida:
argamassa, tijolo, cimento e vigas,
só pra conseguir levantar muros e cobri-los,
fazer concreto, equilibrar-se no andaime.
Sou Romeu, aquele que constrói casas,
platibandas, paredes, tetos e janelas,
enquanto se esquece da vida num copo
quando traga voraz a cachaça,
aguardente de gosto amargo
que lhe queima a garganta, mas vai fundo...
Pobre Romeu! Seu corpo é um copo,
um copo que não mais lhe cabe.
Seu sonho é um prato do dia, sem deleite
do que já não mais sacia.
Seu caso é de cirrose crônica,
seu fígado virou um troço.
De tanto levantar copo esqueceu sua Julieta
que, sóbria, debandou, fugiu com outro
só pra não se cobrir de morte feito ele,
que já adivinha o tempo que lhe resta,
prestes a tragar seu último gole.

segunda-feira, 30 de julho de 2012

PELAS QUATRO BOCAS DO TEMPO, por João Maria Ludugero


Borregos na Várzea
Dando pinotes ao sol
mamam o leite 
e a manhã.
Pelas quatro bocas,
Um magote de meninos
traquinas joga bola na vargem,
livres, leves e soltos
sem medo da cuca pegar,
sob o sol a pino do meio-dia.
O pica-pau bica o tronco,
bica as horas da tarde amena. 
Marteladas no relógio da igreja
de São Pedro Apóstolo, Ave-Maria!
Na algarobeira da praça 
um bem-te-vi me en/canta 
de encontro à boca da noite,
enquanto a cidade me nina
a se acender em festa
no recanto do luar.

sexta-feira, 27 de julho de 2012

INVERNO, por João maria Ludugero

QUE VENHA O INVERNO...
VISTO UM CASACO RETRÔ
OU UMA CAMISA DE FORÇA QUE SEJA,
POIS NÃO FAZ SENTIDO NÃO SER LOUCO.
ABRO MÃO DO CONTROLE REMOTO,
USO AS PERNAS, LEVANTO E MUDO
NÃO ME CALO, BERRO
LANÇO FARPAS, 
QUEIMO AS ACHAS
E AS ERVAS-DANINHAS.
LEVANTO AS VELAS... ACENDO-ME,
APARO AS ARESTAS, EIRAS E BEIRAS 
A TEMPO DE SÓ QUERER 
QUEM ME INFLAME AO CALOR.
DEPOIS DE TANTO VERÃO
QUE ME VENHA O INVERNO 
EU SOU TODO ABRAÇO,
MEIA QUENTE E FOGUEIRA.
SÓ SEI QUE UM DIA O FRIO CONGELA TUDO
E RESTARÃO APENAS
O PÓ, A POEIRA, 
E O VAPOR DAS HORAS,
NEM ANDOR, NEM ANDANÇAS
NEM ANDORINHAS!

CABEÇA FEITA, por João Maria Ludugero


Cato palavras
como quem busca água
encho os olhos d'água
espicho minha alma no varal
disposto só de cubar o vento 
me reinvento, me restauro
feito lagartixa no lajedo
não mato minha sede, vicejo
de tanto andar compondo versos
já me acho no jeito de fazer poesia
só de manjar não sacio a fome
e quando a cuca pega sem rimas
de cabeça feita, papo meus bichos!

quinta-feira, 26 de julho de 2012

CUECÃO, por João Maria Ludugero


Uns nascem pra ser o que são
Outros não se conformam não
Há bicudos que se beijam,
Uns descalços, outros tesão
seja por pés, sandálias ou sapatão.
Careca que quer fazer trança, arrepiar,
imberbe que quer barba de molho
Uns gostam de flores, outros botão;
Uns sisudos, trombudas carrancas,
Caras de tachos-cu-doce, bocas-de-pia-batismal.
Alguns preferem ficar sem partido,
Marias-vão-com-as-outras pra casa de mãe Joana.
Não saem de cima do muro, às turras,
não sabem se viram alas de bacurau 
ou se se aceitam como corujão...
Há quem fique só na mira, apolítico,
a balançar os brincos de falsos brilhantes,
com cara de paisagem, a ver navios ou
na esperança de ver o trem passar ao léu. 
Mas se as pessoas são como são
elas fascinam as pessoas que
não são como realmente são,
pois os sujeitos que são como
são já são atinados pelo jeito 
que são e pelo lado em questão,
de todos os lados, a tocar em qualquer banda.
Há quem não deixe passar em vão nem
a alegria de dormir peladão, de conchinha,
ou só de cuecão de algodão, samba-canção,
com uma mão no bolso e outra na meia furada.
Se a mão é tua, se a língua é tua, acerte na veia, mexa-se,
faça bom proveito, enfie o dedão no nariz quanto quiser
ou no fiofó de quem mais se interessar em meter 
o bedelho na vida alheia.

EX-VOTO, por João Maria Ludugero


Devoto, fiz uma promessa, 
uma oferenda, um pacto 
de fé, pra valer, aflito, 
pendurei um quadro na parede,
um retrato em preto e branco,
uma pintura, uma fotografia,
um ex-voto só pra curar 
um coração partido. 
esculpido em madeira, gesso e cera, 
botei meu coração na forma. 
Alcancei a graça advinda do credo,
ganhei coração novo em folha, de pé
depositei no altar de São Pedro,
perto da cruz sob as velas, o molde
do que estava adoecido e... acredite, 
sinto-me curado de vez, consentido
por força do voto ofertado 
ao pescador apóstolo.

quarta-feira, 25 de julho de 2012

HUMILDADE, por João Maria Ludugero



E a pequena Ana Moita
tinha lá seu rico balaio 
de bonecas de milho 
de cabelos louros e encarnados. 
Ela desde cedo sonhava grande 
humildemente a brincar 
com suas bonecas de milho.
Vestidas de verde palha, 
não precisavam de pentes, 
nem de trocar suas roupas 
nem careciam de escovar os dentes. 
A menina varzeana era tão feliz assim 
entretida com seu jeito de mato 
onde as bonecas eram tão bonitas... 
Não tinham defeito, airosas, cheias de viço, 
eram plantadas na roça do Vapor 
ou até colhidas no quintal da casa 
em um possante milharal. 
As meninas de hoje 
preferem outros brincos, 
outras brincadeiras, outros artifícios.

INTERIOR DA SAUDADE, por João Maria Ludugero


Quando 
vejo o Vapor,
me realizo, 
embarco 
de vez. 
Viajo 
pra longe, 
coração partido, 
só pra ver 
de perto 
o carro encantado... 
Movido de amor, 
sempre 
tenho andado 
dentro 
da saudade.

segunda-feira, 23 de julho de 2012

ATÉ O TALO!, por João Maria Ludugero


Zefinha tem um sorriso doce.
Ela vê poesia até 
no talo das hortaliças. 
Não faz corpo mole na lida, 
pega cedo no pote, na rodilha. 
Vai até o salobro rio Joca 
apanhar água na cacimba. 
Antes toma banho de cuia, 
Despe sua alma de flor 
ao sol do dia de domingo. 
Ensaboa-se enquanto chupa canapu. 
Sua pele da cor do pecado 
bronzeia a cor do dia, ávida. 
Sua boca pura pimenta-carmim. 
Logo fico doido, doidinho 
só pra furtar seu olhar... 
Chamar sua atenção, 
mas ela me rouba a cena, faceira. 
Eu só volto pra casa, contente 
pro resto da semana, na mão 
levando as sobras das abobrinhas 
e dos jerimuns de pescoço. 
Se falo, ela faz tchimbum 
no rio das jias e caçotes...
E a sagaz perereca abre a boca afoita 
e engole até o talo, de súbito, 
a coaxar no riachão.

A CHUVA CAI, por João Maria Ludugero

A chuva cai na Várzea... 

O poema molhado 
no chão ainda respira.
Uma leva grudada ao solo vai ao Vapor
e outra almeja o riachão que a escorre
A chuva traz mais vida 
ao riacho do mel 
enquanto semeio 
palavras de amor
E o amor versado do outro lado 
do rio Joca faz o agreste verde aparecer.
A chuva cai na Várzea das Acácias 
e o poeta de braços abertos 
a exalta, encantado,
molha a face, comemora 
a esperança que ora se renova
além das quatro bocas 
que bebem do seu poema
sendo levado com elas como aquarela.
Cheia de céu, a chuva cai 
e o sol pronuncia
seus raios amarelos, 
seus elos aquecidos,
sob a terra nua a se vestir 
num porvir de flores.
Meu poema segue, 
encharcado, mas legível
e então posso lapidá-lo 
varzeanamente
como uma preciosa joia.

domingo, 22 de julho de 2012

CÓPIA FIEL, por João Maria Ludugero


O poeta inventa, cria, 
copia a lida... se reinventa
em versos singelos, livres.
O poeta faz cantiga
Canta a sina 
e o universo.
O poeta emociona!
Emociona com o sentir
ao leitor desconhecido.
O poeta se encanta, e vai longe
encantado a tanger com alegria
o gado nunca esquecido,
nem que seja nos fiapos das nuvens
O poeta almeja
viver sua utopia
no reino de sua Várzea.
O poeta deseja, de fato,
dia e noite, noite e dia
serenidade e paz, a partir da sua janela.
O poeta copia a vida... recria, voa
em sonhos de varzeanidade
em seus motes rabiscados.
O poeta verseja dia-após-dia
até que avança a idade,
mas nunca finda calado,
nem quando sai de cena
e o palco lhe faz plágio.

sábado, 21 de julho de 2012

TEMPO DE CAJU, por João Maria Ludugero


E a mordida na carne adocica,
Faz derramar o néctar com gosto
Que escorre da boca ávida
Que forte exala aromas
Pelos galhos carregados
Doce perfume, tentação
Embriaga ao arrebol 
E deixa louca vontade
De sugar o dia amar-elo 
De alaranjar a tarde amena
Chupar a noite sem tabus
Cajus deitados na bacia, 
Adormecidos e enfileirados,
Corpo encarnado do sol 
Olhos lambuzados de mel
Ao sabor do vento do Itapacurá
Assoprando além do riachão...
Lá se vem mais enfileiras de cajus,
Fartura na pequena mesa,
É caju e castanha pra tudo que é lado,
É um cheiro bom que vai na alma a dentro,
Deixando a gente virar menino, trepar no cajueiro
Pelos ariscos e quintais da Várzea,
Quando é tempo de caju.

quinta-feira, 19 de julho de 2012

ARREGAÇANDO AS MANGAS, por João Maria Ludugero


Eu-marmanjo confesso sem vergonha
que chupar manga muito me agrada.
Não me acanho de chupar tudo até o caroço.
Tornei-me maduro, desde menino do interior,
quando aprendi a chupar a fruta no pé,
trepando direto na mangueira
sem parcimônia, ou de faca em punho
diante de uma boa bacia de mangas.
Ainda precoce assim fui educado 
para ser o moleque que desabrochava.
Aprendi a arregaçar as mangas desde cedo, com gosto,
meter a boca com toda vontade, disposto,
dentro do ato de chupar manga, sem malícia,
numa deliciosa entrega sem etiqueta, ora mangas! 
ocasião que muito apraz ao lambuzamento
e à doce sujeira de guardar o melhor
dos cheiros e néctares no queixo.
Logo, recomendo: não há amor limpinho.
Lambuzem-se às mangas, meus caros!

quarta-feira, 18 de julho de 2012

O PILÃO DE MARINAM DE LICA, por João Maria Ludugero



E a Marinam de Lica desde menina
bate no pilão a fartura.
Soca milho zarolho, fubá,
mandioca-mole, gergelim,
paçoca de carne-seca,
café torrado no tacho,
rapadura, amendoim,
goma e coco ralado
pra formar peito-de-moça,
carrapicho, pé-de-moleque, 
bolo preto, xerém para munguzá.
E a Marinam de Lica,
desde cedo, prendada menina,
capricha nos grudes, sem remancho.
E só de manjar dá água na boca,
Sentindo o aroma, a temperança 
que ganha as quatro bocas da Várzea
num perfume que recende a cravo e canela.
Como dá gosto de ver tantas guloseimas, 
espiar ela meter a mão na lida, sovar a massa. 
Ela não se avexa antes de dar o último ponto 
no fio do puxa-puxa da cocada. 
E olha lá que o sol já se deita no Calango,
e a estrela d'Alva aponta vespertina,
ao bater do pilão, enquanto Marinam de Lica
aparece na porta da cozinha, esbaforida, mas contente, 
ao passo em que a lua de tapioca se achega
ao quebra-queixo da tarde, Ave-Maria!

segunda-feira, 16 de julho de 2012

MINHA VERSÃO À PÉROLA DE UM POEMA, por João Maria Ludugero



Veio a onda aos sobejos, 
ressacada de tanto vai-e-vem, 
e, furiosa, atirou no raso 
uma concha purpúrea 
advinda das profundezas do mar. 
Já na praia, a concha abriu sua boca, 
engoliu um grão de areia, 
bebeu o orvalho do céu, 
a rutilância 
dos raios do sol, 
a prata da lua 
e o lume de estrelas. 
E, por intermédio 
das Luzes do Alto, 
produziu a pérola 
assim tão radiante e pura. 
E pensar que a pérola é retirada 
de uma concha grosseira, 
de uma água lodosa. 
E surge assim nessa versão tão bela, 
tão límpida, tão rara e preciosa, 
carregada de mistério 
de uma certa aura 
de magia que a cerca.

PÓ, por João Maria Ludugero

Um dia acende-se 
o vazio do cenário,

cai o pano sobre o palco, 
desencanto.
Evaporam-se as palavras 
dos teus olhos,
Um canário expira 
à beira do lusco-fusco.
Depois
não haverá antes nem depois,
apenas um silêncio oco sem lume,
um perfume evolando pela quebra,
folhas secas levadas pelo vento afora.
Resta o pó, 
a poeira das horas,
antes do ruido do pano calar o aroma
que tua boca desenha e comporta,
sempre que em silêncio 
percorro a estadia,
e me lambuzo no mel da tua boca,
onde ecoa o mais verdadeiro céu.
Um dia ainda aquarelo este quadro
que o marejar da saudade desbota
toda tarde quando o sol se deita
sob o espiar profundo 
dos meus olhos d'água.

sexta-feira, 13 de julho de 2012

CARRINHO DE ROLIMÃ, por João Maria Ludugero


Com chuva ou com sol
a diversão era garantida,
E a gente se contentava com pouco,
ninguém pretendia ser campeão.
Eu, junto com um magote de traquinas -
Naldo de Chico Pedra, Xibimba
Picica de Xinene Paulino 
e Chiquinho de Seu Antonio Euzébio - 
subíamos e descíamos atravessando
a Brasiliano Coelho de Oliveira,
onde a gente comungava a alegria
que nos fazia ganhar o mundo
deslizando a ladeira feito loucos. 
Mas, o que mais valia acima de tudo,
não era vencer! isso é verdade,
valia sim a participação,
na corrida da amizade 
até ganhar as quatro bocas.
E agora me pego, 
relembrando a velha infância,
brincadeiras de meninos,
travessuras de criança...
E a gente andava, deitava 
e rolava pela Várzea a dentro,
ganhava as alturas, 
sem tirar os pés do chão
acelerando a alegria 
eternizada naquele tempo
nos carrinhos de rolimã!

quarta-feira, 11 de julho de 2012

CANARINHO, por João Maria Ludugero


Eu encontro um cenário
depois dois canários da terra
e um terceiro no terreiro.
Foi assim com tua alegria solta,
desde que te vi 
no primeiro en/canto
que nunca mais me perdi do chão, 
reino onde mora a beleza nua.
Longe é voar 
palco afora e voltar 
peito aberto, 
amar-elo magia, 
dentro e alto pousar tua sina,
azulejando o céu varzeano.
Voa, canário, 
afoito me assanha
e traga à cena 
um pouco de tudo 
que fascina ao me levares no bico 
a ganhar o mundo porvir, 
seja no verso de cada manhã
seja entoando 
a mais linda melodia
ao trazeres o ouro do sol 
nas penas!

domingo, 8 de julho de 2012

DESABOTOANDO, CÁ COM MEUS BOTÕES! por João Maria Ludugero

Aos borbotões, bem transados,
Eles se abrem e se fecham em dádivas,
Adornam as vestes dos noivos, 
Que loucos ainda sonham com a lua arteira 
Que virá banhá-los no quarto crescente
Quando desnudos abrirem suas casas
Num despir de almas prateadas nuas,
Meio rasas num ansioso porvir a fundo
A se lambuzar de amores vida a dentro.
Que botão será esse no umbigo da vida 
Se não um pitoco de rosa orvalhada,
Quadrado ou redondo, cintilante bicho, 
'Brabuleta' de plástico que se desprende 
Do cabelo da menina airosa
Que traz pêlos nas ventas
E não se contenta lá com seus botões.
A moça os colhe enquanto pode,
Pois o velho tempo continua voando:
E essa mesma flor que hoje lhes sorri,
Amanhã estará expirando seus botões, 
Que são um recado, um sinal, 
Um ponto de partida, um acesso 
Talvez um olho de sorte, um amuleto
Na fresta da fechadura, um artefato,
Um bico de peito, uma auréola afoita.
Que artifícios serão esses, me diga? 
No escuro do tato perfeito, de certo 
Qualquer coisa que apraz no toque de perto,
Quiçá um focinho de gato que jaz na espreita
Das coisas da intimidade de Deus.  
Que botões serão esses?
Por isso, sem recato, use seus botões a tempo,
E enquanto pode, viva a festejá-los, desabotoá-los,
Pois depois de haver perdido os áureos anos,
Terás o tempo inteiro para repousar.