quinta-feira, 26 de julho de 2012

CUECÃO, por João Maria Ludugero


Uns nascem pra ser o que são
Outros não se conformam não
Há bicudos que se beijam,
Uns descalços, outros tesão
seja por pés, sandálias ou sapatão.
Careca que quer fazer trança, arrepiar,
imberbe que quer barba de molho
Uns gostam de flores, outros botão;
Uns sisudos, trombudas carrancas,
Caras de tachos-cu-doce, bocas-de-pia-batismal.
Alguns preferem ficar sem partido,
Marias-vão-com-as-outras pra casa de mãe Joana.
Não saem de cima do muro, às turras,
não sabem se viram alas de bacurau 
ou se se aceitam como corujão...
Há quem fique só na mira, apolítico,
a balançar os brincos de falsos brilhantes,
com cara de paisagem, a ver navios ou
na esperança de ver o trem passar ao léu. 
Mas se as pessoas são como são
elas fascinam as pessoas que
não são como realmente são,
pois os sujeitos que são como
são já são atinados pelo jeito 
que são e pelo lado em questão,
de todos os lados, a tocar em qualquer banda.
Há quem não deixe passar em vão nem
a alegria de dormir peladão, de conchinha,
ou só de cuecão de algodão, samba-canção,
com uma mão no bolso e outra na meia furada.
Se a mão é tua, se a língua é tua, acerte na veia, mexa-se,
faça bom proveito, enfie o dedão no nariz quanto quiser
ou no fiofó de quem mais se interessar em meter 
o bedelho na vida alheia.

EX-VOTO, por João Maria Ludugero


Devoto, fiz uma promessa, 
uma oferenda, um pacto 
de fé, pra valer, aflito, 
pendurei um quadro na parede,
um retrato em preto e branco,
uma pintura, uma fotografia,
um ex-voto só pra curar 
um coração partido. 
esculpido em madeira, gesso e cera, 
botei meu coração na forma. 
Alcancei a graça advinda do credo,
ganhei coração novo em folha, de pé
depositei no altar de São Pedro,
perto da cruz sob as velas, o molde
do que estava adoecido e... acredite, 
sinto-me curado de vez, consentido
por força do voto ofertado 
ao pescador apóstolo.