sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

O ASTUTO MENINO EM CARRO-DE-BOI, por João Maria Ludugero

carro de boi meninos (1)
O ASTUTO MENINO EM CARRO-DE-BOI,
por João Maria Ludugero

Fiz um poema sobre meninos em carro-de-boi.
Gostei mais de um menino 
Que carregava os irmãos aos solavancos, com garra.

A avó Dalila dizia que carregar crianças em carro-de-boi
Era um estripulento alvoroço feito coisa de Sansão; 

A mãe dizia que era o mesmo que
Conduzir pássaros em gaiolas desprovidas de cancelas
O mesmo que destravar tramelas em vão
Num lerdo alçapão para bem-te-vizinhos.

O menino era apanhado em despropósitos.
Quis alicerçar uma cabana sobre orvalhos.

A avó reparou que o menino
Gostava mais de desvãos
Do que de composturas.
Bendizia que o vagão é maior
E até infinito em algaravias.

Com o passar do tempo aquele menino
Que era cismado, arteiro, irrequieto e esquisito
Porque gostava de carregar os irmãos em carro-de-boi
No escrever o menino ficou assim descabido,
Pois era capaz de ser sonhos em acordes
Ser boi, bezerro, cabra-da-peste ou cabrito
E outros, ao mesmo tempo.

O garoto medonho aprendeu a usar as palavras.
Viu que podia até fazer peraltagens com as letras.
E começou a fazer lavras em jiraus de toda estirpe.

Foi capaz de solavancar a tarde botando um sol lusco-ofuscado nela.

O cabrito fazia astutos furdúncios e prodígios.
Até fez uma pedra verde-musgo dar flor e frutos!
A sua mãe, dona Maria Dalva, reparava o menino com doçura.

A dona Maria Dalva, sua mãe, falou:
João Ludugero vai ser estrela: Poeta!
Cabra, tu vais encher os meandros da lida
Menino levado da breca, moleira de ânimo,
Ao romper desafios com suas traquinagens,
Muitas criaturas vão te amar por teus despropósitos.

Agora estou esvoaçante a céu aberto, meada e fio do labirinto,
Sem carecer de me esbanjar nem ser cabotino, etc...

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

VÁRZEA-RN: SAUDADES DO CHÃO DE DENTRO, por João Maria Ludugero

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

 
 
 
 
 

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
  
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 


 
 

VÁRZEA-RN: SAUDADES DO CHÃO DE DENTRO,

por João Maria Ludugero



Na minha chã lucidez, 
Sem véu de alegoria, 
A quebrar o pote da fantasia,
Sei que um dia poderá chegar a morte ao léu,
Na forma de tal monja silenciosa ao desvão,
Que me levará também, só, entre jasmins, 
para a outra vargem desta abrupta solidão...
Com que me espaireço, agora, esta chegada
De volta à minha Várzea, ao chão de dentro, 
Vendo que quase todos já se foram, um a um, 
Levados pelo cata-vento, para o andar de cima?


Com quem dividirei minha gargalhada, 
Se não encontro mais, aqui, nenhum 
Dos companheiros da velha infância,
Que o tempo arrebatou, frágeis anuns?
De que me vale perguntar à essa morte
Por que os levou, para além do horizonte,

Se essa doida senhora não responde à indagação?