domingo, 17 de abril de 2011

VAZIO

  ...
Por: Coisasdelouco



Choque...

Foi isso...
Entrei em choque!
Queria contar para vocês; mas como contar, se estava ainda em choque?
Queria escrever, e simplesmente não conseguia!
Ai, fiz o seguinte exercício: arregalei bem os olhos... Bem mesmo. Sei que diante deles há todo um mundão, milhares e milhares de coisas, e minúsculos detalhes... Por meus ouvidos entram, a todo o momento, todo o tipo de merda audível, algumas, não posso negar, são até bem carinhosas, mas, merdas! Em choque nada parece significar nada mesmo.
Mas, Vamos ver se transformo isso em algo mais palpável...

Parece que de repente me transformei em um móvel velho... E, esse agora se infestou de cupim... É, deu cupim em mim! Estou me desfazendo...

Desfazer! Que bela palavra! (des)fazer! Era feita, agora me (des)faço! Me (des)fazem! É isso! Qualquer dia, simplesmente (des)apareço! Não porque fui embora, porque desisti... Não! Simplesmente porque sucumbi... Esvaziei! Esvazie de vez mesmo! Os cupins... Os cupins tão pequenos... Criaturinhas tão insignificantes, mas de tantos que eram a me corroer por dentro, pluft! Me (des)fizeram!

Não importa!

Arregalei bem os olhos até que ardessem... Senti mesmo que avermelharam, senti as lágrimas que os umedeceram... Queria sentir meus olhos tentando se olharem... Tentando imaginarem o próprio olhar... Queria o flerte dos meus olhos! Não, não queria o espelho! Sei que o espelho me daria o oposto do que queria, o oposto do próprio flerte...

Sabem o que percebi neste esforço?
Nada!
Nada mesmo!

Me perdi, Me afoguei nas mágoas e águas em que tanto nadei nesses dias, dias que pareciam não mais acabar... Tudo era só um dilúvio que transbordava... Dias em que meus olhos como duas minas ou lençóis deixavam fluir incansavelmente as águas que minha alma ainda tenta justificar... Purificar... Perpetuar!

Mas, para que explicar... Deixa a emoção transbordar... Deixa chorar... Só recolhe o sal...
Quem sabe, tempere ainda sua carne tão sem sabor... Sem cor...
Recolha sim o sal... Quem sabe algum desavisado nele até pode escorregar e também se machucar...

Estes olhos que agora arregalo, como aqueles que crianças famintas trazem, foram minas, rios e mares que transbordaram, concretizaram em águas tanta dor que não sei quantas ave-marias seriam necessárias para calar tamanha aflição, desamor, frustração...Queria mesmo era partir... Desistir! Haverá talvez uma quantidade limite de águas a transbordar?

E o choque foi convertido em água! Água benta? Não, claro que não, pecadora que sou... Água magoada! Água maldita! Daquelas de jogar na privada e dar descarga... Daquela de ninguém por a mão que talvez pegue a má sorte...

Choque! E nada escrevi... Chorei!
Mas, agora estou escrevendo, não estou! Arregalei os olhos, e agora eles só ardem... Já Passou!
Agora, estão secos, secos feito o nordeste, como o nordeste de Severinos e Marias... E não é a toa que sou também Maria... Maria vazia, como as barrigas de Severinos, como àquele moço, Severino também, descrito em poema tão bonito por aquela alma tão bonita de poeta de alma cheia e bendita...

Maria vazia e malas cheias e (re)feitas... Alma corroída de novo dolorida. Malas feitas... Alma quase pronta... Se (re)fazendo... Almas se (re)fazem! Quando não, no choque, se perdem para sempre... Talvez as almas penadas que tanto se falam por aí... Não sejam as almas de mortos rebeldes... Talvez apenas de vivos em choque! Zumbis!

Enfim, malas prontas, alma quase (re)feita... E em outro porto serão (des)feitas e (re)feitas mesmo que nunca (per)feitas!
Alma rapariga... Alma dependente de um corpo carente... Talvez dois...
Olhar bem arregalado que percorre paredes vazias...

Mas, cadê essa alma vagabunda corroída? Eu a sinto, mas não a vejo...
Há um silêncio imenso dentro de mim... Mas um silêncio tão grande que incomoda tanto que parece querer gritar...
Será que grita ainda?
Será que gritará algum dia?

Quem será que dará a bofetada que me fará respirar novamente?
Quem me ressuscitará?

Será o silêncio mudo?!

...