domingo, 13 de julho de 2014

VÁRZEA-RN: O NINHO DA MEMÓRIA NA POESIA DE LUDUGERO, por João Maria Ludugero

 
 
 
 
 

VÁRZEA-RN: 
O NINHO DA MEMÓRIA NA POESIA DE LUDUGERO,
por João Maria Ludugero

E assim sendo, e bem porque o maduro poeta menino João Maria Ludugero faz-se também de memória, em tempo de memória, o arteiro menino levado da breca enceta a viagem das flores sem moldura, recupera o manjar do tempo, os redemoinhos de cor e de regresso. Não se julgue, porém, que este retorno ao passado é feito de passividade: não há imobilismo nesta poesia, mas reminiscências, cintilações, inclinações do corpo, uma oração até às mãos afoitas aos gestos perdidos no espaço da memória.

Daí, então, em paralelo ao vento, caracterizam-se e questionam-se os anos plácidos, fulvos,que luz ainda perdura a correr dentro e alto na lida? Que sanfona guarda ainda uma nota grave, cintilante e pura da sua Várzea das Acácias?
A demanda seguiria as trilhas escaldantes onde há um bem-te-vizinho que faz o ninho na memória: Ouço-o agora.
Canta a flor dos mulungus, ingás, juazeiros e dos jasmineiros da Escola Dom Joaquim de Almeida, bem ali na rua do Cruzeiro, de quina para a rua da Pedra, oitão das quatro bocas espairecidas.

Esses dias enxutos instigam, a tecer e amortecer desvarios ao nome da sua Várzea, sua rosa-dos-ventos da velha infância, onde cabiam todos os lugares e todas as direções até aonde se achegassem os canários-de-chão.

Cinge-se que se reitera, na sua singular poesia de excelência, o mel das animadas e luminosas abelhas europeias de Zé Miranda, a conversar com Joaquim Horácio, dispondo-se atendo aos enlevos de conversas afiadas com Joaquim Rosendo das pastorinhas, com seu Geraldo "Bita" Anacleto, com as onze-horas a florir incandescente metáfora na praça das espadas-de- São-Jorge de Maria Orlanda de Seu Nestor, o aveludado perfume das beldroegas e melões-de-São-Caetano do açude do Calango até a vargem, recorrências que palmilham e dinamizam todo o trabalho poético de João Maria Ludugero.

Eis, então, como tudo se reduz a isso: sua literatura viva é aquela em que o poeta João Maria Ludugero insuflou a sua própria vida, e que por isso mesmo passa a viver de vida própria. Sendo esse artista um homem superior pela sensibilidade, pela inteligência e pela imaginação, a literatura que ele produza será superior; inacessível, portanto, às condições do tempo e do espaço.




Assim vemos a poesia de João Maria Ludugero; um hausto íntimo que atinge o interior e sua intemporalidade varzeana; uma orquestração de palavras que depois de nos deixarem todos os jardins da Várzea do agreste nos incitam e ensinam a plantar uma flor no vazio que aparece e se expande quando ele se deixa ficar longe de sua Várzea das Acácias!

VÁRZEA-RN EM FOGÃO À LENHA, por João Maria Ludugero


VÁRZEA-RN EM FOGÃO À LENHA,
por João Maria Ludugero

Vem tudo de quina pra cozinha.
Como se de dentro da casa se traçasse um roteiro
e um telhado se abrisse do céu de São Pedro apóstolo
e as pedras de lajedos todas se atirassem, uma a uma;
como se do centro, levantadas, num arrimo
todas rochas se emparedassem em cimento…

E, bem no cerne da crista de um fogão – tudo
de repente se inclina, tudo arde sem alvoroço
nesta fogão-à-lenha aceso na lida sem alarde
com uma bagatela de cascas-de-laranja-pera



a se dependurar no teto a esfumaçar a tarde.