terça-feira, 14 de janeiro de 2014

IRIDESCENTE COLIBRI, por João Maria Ludugero


IRIDESCENTE COLIBRI,
por João Maria Ludugero

Ei assanhado colibri!
Beije estas flores ávidas
Flores para os arteiros poetas
Deixe-as nas janelas abertas
Nos canteiros, 
Nos varais, 
Nos quintais... 
Chame os vaga-lumes
Os magotes de meninos 
Levados da breca, iridescentes
Os homens, os lobos, os lobisomens 
Uivem para a Lua ensolarada
Na rua, 
Nas avenidas 
Na primavera
No ida ao interior 
Nos matagais
Sorriam até ir adiante
Das estrelas cadentes
Aos três pedidos além
Para os jardins em flor e alma
Para os poetas medonhos
Para a fada encantada
Dentro e alto 



Da Várzea das Acácias...

VOVÔ ODILON LUDUGERO, por João Maria Ludugero

 
  
 
 
 
 
 
 
VOVÔ ODILON LUDUGERO, 
por João Maria Ludugero

Não desgasta os eixos de tuas pernas
com o sorver da estiagem inútil
engastada numa tela ávida
Reserva-as para os momentos
de ir onde ficam os freios
e os mulungus das frondes vívidas
e recuperarás a ciência
de conhecer a voz das árvores
e do aninhar dos seixos
num caudal de fonte
A rua grande está vazia se te ausentas
A Várzea se despedaça
se tu não permites os ânimos...

Repousa os nervos em sal
e as alturas não vençam
com o terror das dormências
Deixa sãs as tuas pernas
para a próxima jornada
Já ao rebulício das águas do rio Joca
Já canta um bem-te-vizinho,
eriça as penas nas frondes
do vívido freixo verdejante
A aridez já se desfaz radiante
quando os compassos reverdecidos
se vão por uma porta agreste...

PLENA DESCENDÊNCIA DA BELEZA: O RIO JOCA QUE LÊ OS OLHOS DAS VARZEANINHAS, por João Maria Ludugero



 
 
  
 
 
 
 
 
 
 
 

PLENA DESCENDÊNCIA DA BELEZA: 

O RIO JOCA QUE LÊ OS OLHOS DAS VARZEANINHAS,
por João Maria Ludugero

Abro os olhos esbugalhados de escrever versos,
Revejo as páginas de folhas de reverdecidos juazeiros,
Sustento o gosto pela leitura, a correr dentro e alto,
Pelas cores que pintam os trilhos da nossa existência.

Vibro com as ilustrações dos pincéis da vassourinha,
Vejo nas mãos das varzeaninhas uma flor de boa noite.
Vaso de amor, hibisco florido na janela do tempo,
Vestido bordado de sonho escancarado de bonito.
Vontade de ganhar o mundo na vertente, e ainda
Sorrio a desaguar no rio Joca da felicidade da Várzea.

Belo canteiro em flores no quintal varrido de manhãzinha, 
Dentre galos, galinhas e patos no terreiro da sobrevivência,
Nhambus e canarinhos silvestres fazendo outros ninhos!
Rolinhas aninhando os seus rebentos ao léu.
Seu cão fiel dando afoitos latidos em quilates,
Entre assovios de um cabido bem-te-vizinho.

Ó quão fértil era a lagoa comprida da Várzea!
A seara dos cajás, das mangas, peixes e cajus amarelinhos.
O sabiá encantado mirando o açude do Calango,
Pintassilgos no clarão da lua voando alegremente!
Falantes papagaios anunciando um novo dia.
O rio Joca lê os olhos das faceiras varzeaninhas, 
Sabe que seus corações extrovertidos vão além
Dos seixos e das pedrinhas advindas dos lajedos,
Letrinhas e letrinhas em renovadas esperanças.
É o mesmo rio Joca que espalha a calmaria 
A espelhar sem distinção o achado fio da meada

Da matriz à descendência da beleza varzeana!

CUMPLICIDADE, por João Maria Ludugero

CUMPLICIDADE, por João Maria Ludugero

A sós,
como dois pássaros
na solidão do céu,
em pleno azul, 
sonhando nas nuvens...
lado a lado, cúmplices, 
sem alarde nem alarido,
como dois pássaros num
alto ramo, ao cair da tarde amena.
Como duas mãos 
quando se tocam,
procuram e se encaixam, 
se inteiram,
cheias de um silêncio que fala...
Como eu e ti quando
desatamos os nós.
Assim não somos solidão, 
mas ganhamos imensidão... 
E o resto é rima desnecessária,
depois de tantas luas,
depois de tantos sóis!

VARZEANA (I) por João Maria Ludugero

VARZEANA (I)

por João Maria Ludugero

E bem que todos te olham,
Não só de manjar além
Mas todos te admiram,
Sem cubar a lida...
Uns pela beleza exterior,
Outros pela beleza interior.
Esta é infindável, a correr dentro,
Pelo encanto que transmites,
Pelo amor que partilhas,
Sem nada exigires em troca.
Acreditar, doar e sentir,
No que te cria doçura,
Em harmonia consentida.

Mulher tão bonita, um encanto,
Nunca desistes de seguir, faceira
Pelos teus sonhos acordados,
Também sabes brotar lágrimas
De felicidade como se fosses agradecer,
Através de cada noite alta 
Por um novo dia ensolarado.

Numa dessas manhãs,
Terás um sol nascente,
Com tanta luminosidade,
Que encontrarás o clarão
Que tanto procuras, dia-após-dia!

Caminho muito alumiado,
Pelo teu radiante coração,
Coração de mulher varzeana.

MEMÓRIAS DE UM MENINO VARZEANO, por João Maria Ludugero

 
 
 
 
 

 
 


 
 
 
 
 
 
 
 
 
MEMÓRIAS DE UM MENINO VARZEANO, 
por João Maria Ludugero

E a gente descia com o sol 
pelas trilhas do rio Joca.
Picica ia na frente, devagar com os anzóis,
Xibimba ia com o samburá 
agarrado na saia da mãe, dona Lucila de Preta,
e da irmã Vira que conduzia o landuá aos ombros.
De repente, lá estávamos nós 
além do riacho da Cruz,
após haver saciado a sede nas minas d’água 
das cacimbas de Nozinho.
Era a caminho do rio salobro 
que enchíamos a cuia pra se refrescar 
e as cabaças de água para beber,
tomando aquele banho de lavar a alma,
desses de ver Deus a olho nu à sua frente.
Cá para nós, diz-se 
que água não tem cheiro, 
gosto ou cor… ledo engano!
Pois essas águas tinham sim, 
acho até que é por isso mesmo 
que remexem tanto com as minhas lembranças.
No estio, o Joca ficava mansinho… rasinho…
Descalços pelo vão do rio, 
dava até para atravessar a vau
de uma margem à outra andando
pela areia branca, morna e rasa. 
E voltávamos para casa mais leves
com a enfileira de graúdos jacundás,
após haver limpado a vista na beira do rio, 
onde catávamos doces ingás, canapu, 
melancias-da-praia e melões-de-são-caetano.