segunda-feira, 4 de abril de 2011

Pretensão

Autor: The Well


O motociclista (é assim que são chamados os que guiam com responsabilidade) vinha pilotando sua moto com toda segurança. Afinal sempre andava equipado e conhecia bem o trajeto: estava voltando para casa. Vinha a uma velocidade tranquila, pagando mentalmente suas contas mas atento às incertezas da estrada. Foi quando sentiu um baque em seu capacete, que em nada o afetou ou a sua moto, que aliás era da empresa em que trabalhava. Apenas por curiosidade olhou pelo retrovisor a tempo de ver um pequeno passarinho, uma rolinha, talvez, cambalear no ar e cair na vala radial à pista.
Seu primeiro impulso foi continuar sua viagem. Afinal era um mero passarinho comum. Se fosse ao menos uma arara azul... pensou. Mas, sem mesmo saber porque, deu meia-volta e parou a motocicleta junto à pequena ave. Acreditou-a morta e já se preparava para retomar seu caminho quando o passarinho estremeceu as asas. O homem então não pensou duas vezes. Desceu da máquina, tomou a ave em suas mãos, acolheu-a com cuidado no bolso da jaqueta e partiu. Levou o pássaro até um amigo  estudante de veterinária, que estranhou o inusitado do fato mas, ao ver o real consternamento do motociclista, decidiu se empenhar na recuperação do bicho, até porque ele logo viu que a avezinha estava desmaiada mais do susto que do impacto. O homem então agradeceu e deixou algum dinheiro com o amigo para comprar linimento, alpiste e uma gaiola confortável, até que o passarinho se recuperasse.


Assim foi feito. O formando colocou talas nas asas danificadas da ave e acomodou-a o melhor que pode numa gaiola. No entanto achou melhor alimentar seu 'paciente', inicialmente, com miolo de pão e água, e aos poucos deixar que ele recuperasse as forças. O pobre passarinho somente foi despertar no dia seguinte, inda zonzo da pancada. Qual não foi seu espanto ao notar-se engaiolado e tendo por alimento apenas pão e água. Foi quando põs as asas, ainda com talas, na cabeça e, na língua típica das aves canoras e não-canoras, exclamou em alto e bom tom: 

P&%@ Q$& #@RIU!! MATEI O MOTOQUEIRO!!!

Bom, e aqui digo o que penso. O pretensioso enxerga o mundo com as lentes distorcidas do seu ego!