domingo, 1 de abril de 2012

ATOS


Por Guará Matos
  
Anastácio se senta no alpendre 
Da velha casa
E olha pro vazio
Revivendo o passado

Na lembrança lhe vem
O terno bem cortado
O jeito de moço charmoso
Brilhantina nos cabelos
Banho de Lancaster
Pra ficar perfumado

Sapatos com chapinha nas solas
Unhas bem feitas
O melhor sorriso no rosto
E o cigarro de palha aceso
Jogando fumaça 

O Dancing estava sempre cheio
Vinha gente de todo o canto
E recanto
O baile era o que havia
Naquele lugar

Orquestra de vários instrumentos
Inclusive um mastro
E um piano pequeno
Vindos do Rio de Janeiro

Mesas com tampos de mármore
Cadeiras de madeira de lei
E balcão comprido 
Como aqueles de velhos saloons 
Dos filmes de bang bang

E lá
Sentada na ponta
Estava a mais linda
De todas as damas

Fumando com piteira
Bebendo seu drink
Preparado com esmero
Pelo barman Nicolau
Luci sorriu
Ao ver seu par

O esperou dar-lhe a mão
Seguiram para o centro do salão
E começaram a bailar
Nas musicas que irradiavam magia

Perderam a conta
De quantas foram as canções

Não paravam 
De descanso não precisavam
Os corpos suados
Colados
Queriam apenas 
Calor

O baile acabou
E veio a despedida
Luci disse que iria 
Para a cidade grande
Melhorar a própria sorte

Sem entender o porque
Anastácio treme as pernas
Procura um encosto
Escorrega de bêbado
E cai sobre o chão

Quando consegue olhar em volta
Não vê mais ninguém
Estava sozinho
Sem nada a dizer

O tempo passou
E ele sempre sentava-se 
Naquela alpendre
Para relembrar

Foram quase dez anos
Que lhe atormentavam
Sem compaixão

Deitou a cabeça entre as pernas
E assim pretendia ficar o tempo que fosse
Não tinha pressa
Pra mais sofrimento

Todavia, naquele momento
Uma voz lhe chamou atenção
Ele teve outro tremor daqueles
Mas teve força pra olhar

Luci estava em pé
Com as malas ao lado
Continuava linda
Apesar de algumas rugas vadias

Os cabelos estavam pintados
Para esconder alguns esbranquiçados
As mãos continuavam finas
E a elegância altiva

Diante do espantado homem
Ela pede uma dança
A música eles imaginariam
Pois a arte dominavam

Ele a abraçou pelos quadris
E rodopiaram sobre o gramado quintal
Aproximaram-se o rosto
E o beijo aconteceu

Ali mesmo fizeram amor
Naquela tarde de outono
As folhas comemoravam
Mais um ato da vida

Não houve perguntas
Eram sem necessidade
A resposta foi dada pelo destino
Amar sem olhar pra trás.