quarta-feira, 31 de outubro de 2012

QUE REI SOU EU?, por João Maria Ludugero


Que rei sou eu?
Eu que bem me vi beijando ao léu,
Bem que eu quis de flor em flor
Chegar à flor da tua pele.
Estive a ser rei dos colibris,
Pegador de toda flor, insaciável, 
Bem apanhado me peguei só,
Mesmo obtendo orgasmos múltiplos.
Perdi-me à-toa, assim rasante
No meio do voo encantado,
Sequer te ouvi dizer adeus.
Ganhaste a imensidão do azul do céu,
Ao passo em que fiquei com a terra nua
A ver cavalos nas nuvens e outros bichos.
Mas fazer o que da paisagem aberta,
Levar grãos de pólen e mel para quem?

terça-feira, 30 de outubro de 2012

UM VESTIDO PARA KIRO, por João Maria Ludugero

Menina de Nova Canaã,

anjo de carne e osso,
da tua poesia brota o norte
que adocica o mel da terra,
quando trazes na boca 
o néctar da flor.
Da tua pele rescende pólen e cor,
criatura abençoada 
pela maciez dos dedos de DEUS.
És toda candura, suor e sal, 
és favo de sublime toque 
da alma em flor.
Bem te vejo a reinar
livre, leve e solta,
pés descalços 
tocando as nuvens de algodão,
sem arredar os pés do chão.
Diva menina, mulher, 
moça vestida de sonhos,
és canto, canário da terra,
és cena, palco e cenário...
És paisagem 
que descansa o olhar,
cabeça feita de AMAR, apenas 
sem promessas nem juras, 
um se deixar por si só
e SER 
bonita 
de verdade!

A LUA DE TAPIOCA, por João Maria Ludugero

Entre tantas lembranças,
a melhor é aquela em que 
todo mundo se reunia 
ao redor da mesa farta 
e a fartura adentrava no peito 
mais alegrando os que ali estavam 
com suas almas carregadas de sonhos, 
sobejando numa torrencial alegria 
bem apanhada em estampas 
direto das nossas caras 
de meninos medonhos. 
E a gente sonhava acordado com a lua, 
adivinhando o porvir olhando a cumeeira, 
saboreando uma tapioca recheada de coco 
como se fosse a lua que descesse quentinha 
se formando linda no fogão à lenha, 
e a gente brindava sob as achas acesas 
sem reparar nas descascadas canecas de ágata, 
tudo retratado na pacata memória, 
e a gente nem fazia pose pra fotografia 
mas alguma coisa dentro de nós dizia 
que naquele tempo a gente era feliz 
e sabia.

domingo, 28 de outubro de 2012

DANADICES E BRABULETAS, por João Maria Ludugero


Que tal passarmos sebo nas canelas
Sairmos pela Várzea a dentro 
Seguirmos juntos quais crianças peraltas
Fazendo pelo mundo danadice,
E tudo que se diz que é medonho...
Eu bem apanhado de calças curtas, 
Já de pelo nas ventas, 
Tu de cabeça feita a pensar 
fazendo bichos nas nuvens esfiapadas 
Com brabuleta azul de plástico
No cabelo açoitado pelo vento afoito. 
Que tal acendermos juntos vaga-lumes,
E voar com as brabuletas lindas, cintilantes,
Com suas asas leves, coloridas,
Correndo soltos pela tarde agreste...
Poder correr, amar, chorar, 
E até berrar com as cabras e cabritos,
Sem se importar se é certo ou loucura...
Furtar lá do vizinho belas e rosadas romãs!
Fazer cantigas de improviso, enamorados
Perder-se entre as frutas bicadas do pomar
Sentir-se um magote de pássaros 
a gorjear na tarde amena,
Achar-se na mágica de brincar, 
Sem quebrar a fantasia e o encanto
Tais quais moleques cheios de algaravias,
Levando a sério esse brincar incansável 
que nunca envelhece  a alma da gente, como agora!

sábado, 27 de outubro de 2012

O POETA NU, por João Maria Ludugero


E por falar em nudez, 
sabe-se que em gemidos singulares 
de nudez fomos feitos, 
sem nenhuma vergonha. 
Num marejar de lágrimas de nudez partiremos 
de cabeça feita, afoitos.
Entretanto, o corpo hiberna sentenciado
na condenação ao pudor desejado. 
Fecha-se como um juízo de páginas censuradas. 
Como um jardim de ninfas amaldiçoadas, castra-se. 
Como o medo que se acabrunha insone
num cálice de fogo glacial.
Escrevo-me despido de composturas,
tal como este poema livre de vestes ou rimas, 
sou princípio de lágrima presa na garganta. 
O poema, esse, desconhece a nudez das fênix.
Adentro-me, leio-me 
como palavra nunca pudica, indiscreto,
Disposto a me despir 
da efêmera beleza 
de ser apenas do/ente.

FARINHADA, por João Maria Ludugero


Chamei Ana Moita, Pau pedra
Picica, Xinene e Vira de Lucila 
fomos todos para o oitão
lá pra casa de farinha dos Marreiros
com caçuá, balaio e enxada
a jumenta encangalhada
ganhou ares de arisco
e fomos todos pra lá do Riachão
atiçados a fazer a farinhada
Carmosina lava a gamela
Elina de pinga-fogo raspa a mandioca
outra massa está na prensa
a manipueira escorre amarela
depois da goma assentada
Graça de Thor prepara a tapioca
a fornalha já está quente
Maria Gomes fica na peneira
acho que está tudo pronto
pra tocar a farinhada!

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

POEMA DO FIM DO MUNDO, por João Maria Ludugero


Antes do fim do mundo,
eu só queria dizer
que 'o amor é importante, porra!'
Que 'tamos de ovários cheios de violência,
que meu jardim ficou mudo,
murcharam os girassóis amar-elos,
as folhas cessaram de balançar
e o derradeiro Sol abre buracos imensos
na crista da terra nua, S.O.S.
Ainda não vou me afobar
com o tempo que resta pra estourar
os miolos da cuca desvairada...
Sento à mesa a devorar meus medos
com as tripas a sair pela boca,
tomo um café amargo e aguardo,
quem quiser que se deprima...
Quando a tempestade chegar,
pego uma onda até a esquina
e de carona no caos vou a nadar,
atravessando a (des)humanidade
que há tempos só afunda o mundo,
ainda de olho a esperar pelo segundo sol.
Até quando ficar de braços cruzados
esperando que o mundo desabe
sobre as nossas velhas cabeças?

A CASA DE FARINHA, por João Maria Ludugero



Meu pensamento hoje
voou longe no tempo, 
foi direto a Várzea 
e se achou dentro 
de uma casa de farinha. 
Mulheres e homens na peleja, 
a descascar mandiocas, 
a meter a mão, a prensar a massa 
prontos para animar a lida com cantigas 
enquanto se espalhava a farinha 
na fornalha, tapiocas e beijus de coco. 
De tempos a tempos os cheiros da terra, 
na gamela se amassava o polvilho, a goma, a liga. 
Recordo-me de dona Zidora Paulino 
que preparava frandes de grudes 
forrados na palha da bananeira... 
Como era bom apreciar seus bolos 
e a tão esperada broa de milho zarolho!

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

O PATINHO QUE NÃO ERA FEIO, por João Maria Ludugero

- Eta patinho escancarado de feio! 
Caro amigo, limpe essa vista, 
pois só podes estar com areia nos olhos. 
Compadre, eu te aviso desde já: 
Larga mão disso, dá até cadeia ficar 
com um ente feio assim!
Ledo engano, com o escoar das horas, 
esse pensar torto desmorona as aparências. 
Aprende-se que só é mesmo feia, de fato, 
a criatura que não se ama, porque 
em se gostando, se completa, 
acha-se logo a tampa, 
eira e beira a inteirar a beleza!

DEZEMBROS EM CHEIROS E RUÍDOS, por João Maria Ludugero


Já penso em dezembro, depois de sair 
num dia de sol de verão, sem cansaço,
o que me apetece a arrumar a vida. 
Apetece-me pensar nos cajueiros 
em flor do sítio do Itapacurá, 
no carrego das mangueiras dos ariscos, 
nas pitombas  outra vez, num recomeçar teimoso 
a sentir o vapor das horas que orvalha a tarde amena
da minha terra, lá regressar só para mergulhar 
no retiro de Seu Olival, cimentar a certeza 
de que melhores dias virão.
Apetece-me regressar acolá, 
preparar as achas para acender o fogo de lenha, 
abrir as tramelas das janelas, 
calçar nada, passar sebo nas canelas 
e moleque disparar pelas capoeiras 
até chegar ao açude do Calango, 
antes do sol nele se deitar.
Em dezembro já há um gosto de cajus doces, 
amarelos e encarnados, na minha boca 
e por isso não me importo que o vapor se desprenda do riachão, 
ganhe a aragem da tarde amena, trazendo à tona os cheiros 
e ruídos da minha Várzea das Acácias.

domingo, 21 de outubro de 2012

AQUARELA, por João Maria Ludugero

Todo santo dia 
Eu me derramo em tintas
Pintando o sete 
E o diabo a quatro...
Eu gosto de pintar céus,
Alaranjar poentes, 
Descansar a vista ao léu
Ou tonificar pincéis
Em ternos cinzas no outono
Aquarelando assim
A passagem do tempo
da íris ao arco da velha!

sábado, 20 de outubro de 2012

A CAÇA, por João Maria Ludugero


Na caçada, 
fui tão longe buscá-la, 
quando a felicidade 
estava o tempo todo ali, 
bem dentro de mim. 
A encontrei quando 
passei a ouvir, 
de repente, o canto 
dos passarinhos.

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

GERMINAÇÃO, por João Maria Ludugero


Nenhum verso vira pó
Todo verso vira pólen
Toda poesia desabrocha 
Extravasa à flor da pele 
Molha o bico da gente 
Adocica o mel do riacho 
De lumes e perfumes ao vapor 
Toda poesia é semente 
Que germina ou vira pão 
Toda poesia é tempero 
Desde a flor da pimenta 
Ao refresco da brisa à mesa 
Que cheira a maracujá 
Nesse chão que nos dá chão.

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

O ALVO, por João Maria Ludugero


Depois de beber 
no céu da tua boca, 
estou a salvo inteiro,
meando-me ao fio do labirinto, 
saciando meus olhos ao ensejo 
de me achar perdido na cela 
do peito movido por um amor 
que me livra solto, 
embalado assim na torre 
seguro em tuas tranças, 
andarilho anoiteço teimoso 
a divagar pensamentos arteiros 
no impulso de descansar no teu colo, 
deitar no teu seio, 
deleitarmo-nos 
enamorados da lua... 
E eu a recomeçar nos teus olhos 
meus maiores almejos.

SALVE JORGE, (d.p.)


"Eu andarei vestido e armado com as armas de São Jorge para que meus inimigos tendo pés, não me alcancem; tendo mãos, não me peguem; tendo olhos não me vejam e nem em 
pensamentos eles possam me fazer mal. Armas de fogo o meu corpo não alcançarão, facas e lanças se quebrem sem o meu corpo tocar, cordas e correntes se arrebentem sem o meu corpo amarrar. Jesus Cristo me proteja e me defenda com o poder de sua santa e divina graça, Virgem de Nazaré me cubra com o seu manto sagrado e divino, protegendo-me em todas as minhas dores e aflições, e Deus com sua Divina Misericórdia e grande poder seja meu defensor contra as maldades e perseguições dos meus inimigos. Glorioso São Jorge, em nome de Deus, estenda-me o seu escudo e as suas poderosas armas, defendendo-me com a sua força e com a sua grandeza, e que debaixo das patas de seu fiel ginete meus inimigos fiquem humildes e submissos a vós. Assim seja com o poder de Deus, de Jesus e da falange do Divino Espírito Santo."

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

PRIMAVERA, por João Maria Ludugero

Entre o pólen e o néctar,
Eu bem-te-vejo cedo se avizinhar
Dividindo espaço com as borboletas
Verdes, amarelas e azuis...
Descubro ovos, larvas, ninhos. 
As borboletas parecem eternas
Até quando etéreas se lançam
Pelo vão das horas primaveris,
Além do pó, poeira, pólen, 
Poemas em flor-essência.
Entre meus pés de moleque 
A se afoitar pelo horizonte,
Há a estrada dos acordes  
Que me leva da noite à esperança,
Onde meu eu beija-flor 
Passa a adejar, 
Acontece,
Floresce,
Amanhece 
Nas adjacências
Num teimoso recomeçar...

domingo, 14 de outubro de 2012

CIRANDA, por João Maria Ludugero


Enquanto gira o mundo,
o girassol gira a roda viva
a encantar meninos 
e meninas que, 
de todos os lados,
se tocam, amiúde,
em serenas dádivas,
cantigas
que brilham 
que soam
numa colorida ciranda 
de gudes.

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

ENTRE AMORES E AMORAS, por João Maria Ludugero


Eu careço sentir 
a flor da pele desabrochar,
achar na tua boca o céu
ao lambuzar-me inteiro
no mel da tua boca;
preciso agradecer a Deus
por ter guardado em ti,
límpida e pura, cristalina,
aquela promessa antiga
de comermos juntos 
aquelas amoras futuras. 

terça-feira, 9 de outubro de 2012

MÃE, UM AMOR MAIS QUE PERFEITO,. por João Maria Ludugero



Eu nunca me esqueço dela,
assim como guardo Deus em meu peito, 
eu me lembro dela no meu coração
como o sol a se deitar no Calango,
num rutilar de nuvens lá em cima,
sem esquecer das tapiocas de coco 
e do caldo de cana-caiana 
no bar de Biga
ali no velho mercado 
do centro de Várzea
quando eu era pequeno.
Mas, do que eu me lembro mais
é do seu amor 
mais que perfeito,
grande como o açude,
quando eu vivia moleque feliz 
a tomar banho de bica.

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

NO CORAÇÃO DA VÁRZEA, por João Maria Ludugero


SIM, SOMOS DE LUTA,
NÃO SOMOS DE LUTO!
A AMIZADE SOBREVIVERÁ
PORQUE É VERDADEIRA
SINCERA, SEM CERA, 
E MORA NO CORAÇÃO DA GENTE!
VÁRZEA É MAIOR DENTRO DELE...
EU ACREDITO NESSA FORÇA
QUE CONTINUA 
RESPEITANDO AS DIFERENÇAS
COM ELEVADO ESPÍRITO DEMOCRÁTICO.
EU VISLUMBRO VITÓRIA 
NO OLHAR DE CADA UM,
SEJA O CORAÇÃO VERDE, 
ENCARNADO OU DE QUALQUER COR.
FORTE ABRAÇO A ESSA GENTE BONITA DE VIVER!

ENCONTRO, por João Maria Ludugero


A cada encontro
Sou um homem do tempo,
Tenho lá meus fardos.
Mas apesar dos pesares,
Ainda encaracolo 
Teus cachos dourados
De acácias.
Faça sol ou chuva,
Caiam as folhas
No terno cinza
Do outono,
Outros me verão hibernar,
Íntimo, intruso assim,
Emaranhado de paixão
A me levantar
E bater palmas só para ti,
Brava vida!

domingo, 7 de outubro de 2012

O PODER DA AMIZADE NÃO TEM PARTIDO, por João Maria Ludugero


Flores amarelas, cachos dourados
de acácias espalhadas pela rua S. Pedro,
o canto de um pássaro verde,
o perfume da erva-cidreira,
o ar puro da esperança renovada...
Minha mãe Maria costurava na varanda,
da cozinha vinha um cheiro de chá,
de milho verde...de munguzá, de pamonha
um sabor doce de canjica
com cravo e canela...
São os sabores da minha Várzea das Acácias,
num alarido que rescende à velha infância.
Nesse tempo, tempo bom de embalar sonhos,
de acordar me ninando a brincar sem partido,
sem ficar de mal na guerra das mamonas,
brilhando a mente ao porvir, sem medo
de acreditar na força da mente sã
de fazer amigos pra toda vida,
até depois que a gente cresce, 
sem deixar que nada possa a amizade trincar
feito aquele diamante que, fraturado,
perde o seu valor, de cara, a olho nu...
Uma amizade pra sempre, de confiar
dia-após-dia, sim, o dia mente não,
diamante verdadeiro, precioso
sim, pedra rara de se ter,
amizade verdadeira, pra valer
sem essa apartação ao meio-termo,
de um lado bacurau, do outro corujão...
Não quero ter um coração partido, 
carecemos, sim, unir as nossas forças
por uma Várzea melhor e mais unida!

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

DE QUINA PRA URNA, por João Maria Ludugero


Na eleição deste domingo,
não se deixe levar 
por promessas eleitoreiras, 
não se contente com migalhas, 
porque os "pombos" é que 
se enganam por quase nada.
Vote consciente, confiante,
não jogue fora sua cidadania,
exerça sua força 
votando para decidir
o que é melhor para sua cidade.
Não faça da urna penico público,
não desperdice seu voto... 
não o troque por bananas
vote sério, não banque mico
ou macaquinho de auditório.
Quem alerta, amigo é:
porque merda, bosta mesmo 
a gente faz na privada. 
Depois, então... 
"dispôs num reclama!"

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

A DIVERSIDADE DO AMOR, por João Maria Ludugero

Há Amor e amores... 
Há liberdade na vida
para variar, 
para escolher, 
para se perder no beijo
ou se achar no encaixe
ou para ser escolhido:
há quem engula sapos,
ao passo em que, sapecas,
outros se prendem 
no salto a coaxar
ao se grudarem 
no vai-e-vem típico
do amor-perereca!

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

O AMOR NOS DÁ ASAS!, por João Maria Ludugero


Vambora 
ser livres juntos? 
Só sei que 
a liberdade 
nos solta
na vida,
ainda mais
quando 
ganhamos 
o mundo, 
dentro e alto,
com a responsabilidade
de dar asas ao amor
não para nos atazanar,
mas para nos prender
em laços
desatados 
em nós!

NÁDEGAS A DECLARAR (UM POEMA À BUNDA), por João Maria Ludugero


No seco ou no molhado,
Na sala ou na avenida,
Na subida do aclive
Na descida do morro,
Na alameda dando bandeira
Quando ela requebra as cadeiras,
O mundo se bandeia de todos os lados
De frente e verso, 
Rebola à torta e à direita,
Podendo até ser feia de cara,
Mas uma bunda é uma bunda,
Tem lá sua suprema importância. 
É uma chama acesa em potência,
Que chama atenção redobrada
Que ao abundar, abunda e pronto,
Não prejudica o conjunto,
Ao causar impressão maravilhosa,
Da primeira à última vista
Nem que seja rebolando à toa,
E ainda mais se dourada pelo sol,
Abundante ao calor do bronzeado
Da cor do pecado ao deleite do dia.
E eu, cá com meus botões, na lida,
Que não sou bobo coisa nenhuma
E tenho lá meu apreço, no fundo,
Passo a contemplá-la num silêncio mudo,
Vou vendo aquilo tudo com alegria imensa.
Já desnudo de vergonha na cara,
Vou apreciando o que a bunda inteligente me dita.
E ela astuta com arte e manha rodopia,
Faceira, insinuando-me a vir vê-la.
Eu venho que venho, mas não me contenho
Ao dar de cara com a bunda, relaxo 
E meto a cara na vida, não faço fita, 
Não levo desaforos para casa,
Não vou dar o gostinho dela passar 
Em brancos versos!

UM NÓ DE RECORDAÇÃO, por João Maria Ludugero


No alpendre da minha casa
fui armar a minha rede
deixei um nó de esperança
ao cair da tarde amena,
deixei partir os meus ais
me peguei de olhos marejados
ao ver se esparramar pelo chão
um belo pé de jerimum
ou seria de melancia ou maxixe?
Lembrei-me do lar de meus pais
da minha gente de paz
do meu povo tão guerreiro,
da minha boa gente 
que o coração alcança.
E toda noite ela avança, a saudade,
com insaciável sede 
de chegar até a Várzea,
contente da vida 
a me levar em pensamento, 
atenho-me a tecer poesia
e, assim, entretido passo 
a balançar minha rede,
amarro e dou nó no peito, 
só desatado em lembranças!

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

MARIA DO CARITÓ, por João Maria Ludugero

A moça se debruça
no parapeito da janela,
fita o horizonte escarlate 
e se embevece de sonhos,
destramela promessas e anéis,
guarda sedas, meias e traças,
se veste e se enfeita de tranças,
sem uso, esquecida no caritó,
coleciona riscos imaginários
e ainda mais se tranca em frascos 
de perfumes guardados intactos, invicta,
rente à visão da velha ponte
que emenda a solidão da rua,
procurando chegar a lugar nenhum,
escrevendo cartas sem destinatário,
afastando indizíveis desejos.
refazendo promessas a Santo Antônio
que permanece com a cabeça pra baixo
enfiado num pote de água benta... 
E a moça se ajeita na janela às escâncaras, 
balançando bruscamente os brincos
na esperança de ser vista bela
usando um pingente de lua
com seu nome gravado
como que a reluzir o vazio
da multidão que anda só,
orando pelas quatro bocas,
cortando impulsos aos punhos,
mais turbando dissabores
onde nuvens carneirinhos se esfiapam
num vai-e-vem de acordes,
num vapor de fim de tarde
e no lampejo-norma habitual
onde sobeja a solidão dos nichos.