quarta-feira, 3 de julho de 2013

VOO DE DENTRO DA POESIA, por João Maria Ludugero.


Eu menino varzeano 
já nasci pássaro liberto ao voo.
Corri dentro em alto voo pra fora das gaiolas. 
A Várzea me deu asas dentro do sítio do Vapor.
Nunca me prostrei às gaiolas, 
desde cedo me adaptei à arte do voo. 
Pássaros engaiolados são pássaros sob controle. 
Presos numa cela, seu dono pode 
levá-los para onde quiser. 
Pássaros na gaiola sempre têm um dono. 
Deixaram de ser pássaros. São da posse do/ente.
Porque a essência dos pássaros é levantar voo.
Eu sou poeta-pássaro sem amarras, freios ou laços.
Eu sou pássaro a voar pelo interior 
da imensidão do mundo.
Escrever me dá coragem para voar, animado.
Aprendi esse voo intenso disparado nas letras
Porque só de manjar descobri asas e fôlego,
Uma vez que o voo já nasce dentro dos pássaros. 
Daí, só alcanço esse voo tecendo os versos que invento.
O voo não pode ser ensinado, mas consentido,
Tendo em vista que só pode ser encorajado, a contento.
E, a partir daí, me sinto dentro com afinco.

SAUDADES DA VARZEANA ZIDORA, por João Maria Ludugero.


Naquela tarde amena
Zidora fazia bolo preto 
E cozia macaxeiras.
Ao topar com os carrapichos de goma,
Fui depressa lhe pedir uma cocada,
Mas percebi Suetônio triste
Naquele encontro das raivas.
Abatido e sem consolo,
Diz-me que sua Mãe Zidora foi embora...
Várzea chorou e suspirou
Às margens do rio Joca,
Com a surpresa desta morte,
Mas ao notar que só havia 
Cinzas no forno à lenha,
João Maria fez poema!


A PARTIR DAS COISAS SIMPLES, por João Maria Ludugero


E agora, nos achados e perdidos, 
Encontrei um riso que não soltei, 
Uma chance ávida que se partiu, 
Uma oportunidade disposta ao acaso,
Que me passou de uma vez batida. 
Encontrei uma forma empoeirada, 
Um sonho esquecido nas cinzas.
Então, reverdecido na Fé,
Peguei tudo de volta,
Renovei as esperanças com afinco 
E disse à vida, a correr dentro e alto,
Sem medo da cuca pegar:
- Nada vai me fazer perder o tino 
Das oportunidades novamente.
E, num instante, só de manjar,
Esbugalhei os dentes ao céu da boca...
E, de uma vez por todas, soltei-me à língua
Ao desvendar que a imensidão se escancara 
A partir das coisas mais simples...



E é a partir delas que viver vale a pena!