domingo, 29 de maio de 2011

A CURIOSA HISTÓRIA DE JOÃO E MARIA DO BARRO

Autor: João Ludugero

Quer saber quem sou eu, 
Ora, pois me apresento, sem galhos.
Eu me chamo curió. 
Sou um pássaro cantador
Aprendi a cantar desde filhote
Só de escutar o assobio do meu pai,
Que tinha um canto mais que perfeito.
Meu velho sempre me dizia:
Filho, serás um excelente cantor ou um imitador!
Só tu poderás escolher entre preservar
A pureza nata de tuas notas musicais ou
 Facilmente aprenderes a copiar
O canto de pássaros fora da tua laia.
Poderás aprender depois de velho,
Se fores cabeça-mole, ou seja, curió que vai com os outros,
Que ao escutar um canto diferente do seu, troca de canto.
Eu preservo minha estirpe, logro mais êxitos,

Apesar de criado solto na vida,
No meio do mato verde perto dos currais da Várzea.
Foi naquelas redondezas que conheci 

Meu compadre João-de-barro, pássaro trabalhador.
Desculpe-me, mas fui autorizado 
A abrir o bico e lhes contar
Essa que não é mais uma mera história de passarinho.
É baseada em fatos reais. Acredite.
Eu, curioso que sou, fui testemunha ocular
Dessa historinha que passo a desfiar.
Meu amigo João, arquiteto do barro,
Com esmero montava seu ninho, sua casa.
Em postura altiva, metia a mão na massa, com garra
Construindo sua morada
No tronco de um mulungu em flor, ajudado de perto 
Pela sua amada Maria-do-barro,
Fêmea habilidosa nos amassos
E na oleira empreitada da bica.
Cúmplices, eles viviam de amores
Aos arredores do ninho,
Tremulando as asas, passavam os dias
A cantar estridente em curioso dueto,
Enquanto carregavam barro.
Pareciam satisfeitos. Tudo às mil maravilhas.
De tão parceiros, parecia que ali reinava a felicidade.
Mas a vida dos outros é a vida dos outros.
E a grama do bem-te-vizinho é sempre mais verde.

Até que um dia... chegou o infortúnio!
Nas idas e vindas da barranceira do rio,
Maria, faceira, deu trela ao curió Bicudo,
Meu primo de longe, que aprendeu a cantarolar
Imitando a vistosa 'passarinha' alheia.
E ela semitonta, assanhou-se toda,
Arriando as asas num segundo encontro.  
Afoita entregou-se ao estranho,
De lado, debanda sob às artimanhas cruzadas  
Daqueloutro bico, ao ser decantada, admirada, possuída.
Foi ofuscada pelo laço passarinheiro

Daquele forasteiro que lhe prometera
Castelos, mundo e fundos, eira e beira.
Inclusive, dominada, logo despejou João

Do seu ninho ainda em construção. 
João perdeu tudo. 
Tudo o que conquistara a duras penas.
Desiludido, maior abandonado, ele se tocou.
Abriu mão de sua pretendida, não mais valia a pena!
Ela era muito inconstante, arrastava a asa
Pra qualquer bicudo que aparecesse jurando amores.
Enquanto João se mantinha fiel,
Até que acontecesse um próximo enrabicho.
Mas, entre mortos e feridos, cansou de chorar
As pedrinhas da moela. O tempo tritura quase tudo.
E João, artesão do barro, sábio detentor de amor próprio,
Não fechou o bico à obra. Decidiu levantar nova morada.
E, só depois, é que partiu
Para achar sua outra nova costela.
E, de bolas em rebolos, levou o barro pra frente,
Deu forma a novo empreendimento,
Dividindo-o em dois compartimentos,
Com a porta de acesso ao seu interior
Voltada p'ro norte, à prova de chuva e vento,
Onde ele agora adentra sem ter de abaixar a cabeça,

Acompanhado de esposa e filhotes, ora sobrevoa por cima.
Mas já argamassou muita poeira, lama e até esterco
Só pra fazer barro na lida.
Ah, da ex-Joaninha-do-barro,
Digo Maria, nunca mais se soube.
Minto. Conta-se que foi vista, sim,

Detida pela sorte a fazer fita de bico calado
Num rodízio, jogada num canto, alquebrada,
Sem casa nem comida, de olhar perdido,
Quiçá num longe horizonte demolido,
De fogo apagado, curiosamente penalizada,
Com o pires na mão a chorar as minhocas perdidas
E a pigorar os insetos de troncos de árvores,
E até pousando recostada nos paus dos currais,
Após ter sido largada por mais um bicudo de fama
Ao amparo da sorte, num poste de iluminação pública
Onde a lâmpada sem energia não acende mais.