sábado, 7 de maio de 2011

A Beleza que Matou Jacinto

Autor: João Maria Ludugero

Ontem, Jacinto pegou-se desnudo
Ao se ver refletido no espelho verde-musgo 
das águas do açude. Jogou a toalha.
Ele se achou aos metros
O mais belo dos homens. 
Sentiu-se achando que era Narciso.
Não carecia de ser-se mais nada,
Já que dono da própria beleza.
Era auto-sustentável.
Já se sentia muito e pronto.
Até parecia que trazia consigo
A cornucópia dos deuses.
E isso lhe bastava.
O tempo passou. Sem reparos nem botox,
Jacinto odiou a imagem descascada 
Que viu refletida no espelho. Não era ele!
Imediatamente, cuidou de quebrá-la.
Julgando-se imortal, de súbito, 
Atirou-se de corpo e alma
No reflexo do sol sob a lâmina d’água,
Agora se achando o príncipe Namor.
Rebelde se atirou nas profundezas do lago,
Achando-se incapaz de viver nos dois mundos.
Perturbado, mais turbando à mente que de costume,
Não viu que o lago era raso... e pluft plaft!
Acabou prostrado num voo rasante,
Enamorado da eterna beleza de porcelana,
Desgostoso de si mesmo, afogou-se o coitado,
Entretido na busca exacerbada da musa perfeita
Que não estava mais contida nele.
Nenhuma flor nasceu onde jacinto se escafedeu.
Dizem por aí que Jacinto virou assombração,
Alma depenada.
E vez por outra, aparece a lamentar a beleza perdida.
Se alguém duvida da lenda, que acenda uma vela
Ou uma lanterna, e mergulhe fundo à procura
Do que realmente importa. Entendeu? 
O que conta é amar-se assim mesmo,
De dentro pra fora ou vice-versando, 
Até de cara lavada, com ou sem retoques,
Sendo cisne, ganso ou pato
Bonito ou feio, misturando-se,
Aceitando-se inteiro,  
Sem fazer disso sentença de morte.
Acorde e se vista de sol ou de inverno,
Pouco importando em que primavera.
Areje o espírito, o fio condutor
Da eterna beleza efêmera.
De resto, não acredite apenas
Na fugaz beleza do espelho.
Seu efeito pode passar depressa demais,
E ser miragem apenas.
Se Jacinto ora jaz...
Sinto muito!