segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

EU-MENINO, por João Ludugero


Esse menino vive assim...
esperto se bole todo, se estica 
se mexe sem parar, se toca
agita a bula da vida, a punho,
desfaz a trança da rapariga
amarra o rabo da lagartixa
mexe com a gente, pé de vento
atento se apanha a sonhar  
acorda, espicha a vontade doida
de viver que abunda.
sincero sacode as cadeiras, 
depois de muitos sóis, gira o mundo
astuto ainda bota o pé na lua,
causa alvoroço esse brincalhão
saltando com seus traques e rojões
serelepe saracoteia, não se acanha, 
ao redor da fogueira que atiça 
sem precisar de relógio de pulso
para despertar, não debanda 
sopra as cinzas,  faz faísca e arengas
acende as achas, assa a batata e se assanha
sapeca uma espiga na brasa
não esquenta o assento, e zás! pica a mula
chispa capoeira adentro solto como um raio,
não teme verrugas por contar estrelas
esse moleque sem papas na língua
traz no olhar de estilingue
um coração de passarinho, 
que banca o menino travesso, malina  
mas que traz na veia o sangue bom,
que não está à mercê de merecer castigo,
mas que verdade seja bem dita:
coitado do papa-figo, num piscar de olhos, 
ele traz o bicho na linha, na marra
não leva desaforos pra casa
não morre à míngua,  de certo
dá nó até em pingo d'água,
sobrevive às sacudidelas da lida,
trepa no coqueiro sem se arrebentar 
desapeia, quebra o coco e raspa a quenga
e, bem antes de bater o catolé, 
já incendiou a catemba, arre égua!
só pra fazer seu churrasquinho de gato.
Eita moleque arretado da mulinga!