domingo, 31 de maio de 2015

VARZEANIDADE EM SONHOS, por João Maria Ludugero

 
 
 
 
 
 
VARZEANIDADE EM SONHOS,
por João Maria Ludugero

E a partir das quatro bocas até chegar à praça do Encontro Kleberval Florêncio, bem lá de frente ao Recanto do Luar de Raimundo Bento, no meio de toda e qualquer rua grande existe sempre um vendedor de sonhos, ou melhor, um vendedor de algodão-doce, de mexericas, pitombas, puxa-puxas, quebra-queixos, raivas, soldas, carrapichos, brotes, caldo-de-cana, bolos pretos, de mandioca, de fubá, de batata-doce, roscas, pitéus e regalias em peitos-de-moça, linguas-de-sogras, xibius, paçocas, cocadas da branca e da queimada, beijus, munguzás, tapiocas, grudes de coco, pipocas entre outras delícias para quem até que não lhe dá o devido valor. Mas não adianta fugir, um magote de meninos levados da breca o vão ver, pois acreditam no seu poder de gerar sonhos que vão longe, a andar, a correr dentro e a voar alto pelo interior da Várzea dos Caicos.

O menino João maduro pirraça, pede, chora, sussurra, implora, executa a velha chantagem emocional, que novamente funciona e acorda o sonho. São de vários formatos, lumes, cores e essências que se adaptam a todas as criaturinhas cheias de tantas e quantas estripulias. Essência de ser criança e de ser feliz, que faz o sorriso nascer em todas as caras de meninos e meninas bem-apanhados a correr pelo chão-de-dentro das algaravias da seara da inesquecível madrinha Joaninha Mulato.

E num átimo de segundo, zás! A corda que amarra o menino João maduro Ludugero não o prende ou segura o laço de varzeamor com seu pequeno dono, que escapa solto na liberdade de sua cabeça, sem medo da cuca esbaforida, mas se preciso for, é mesmo de assanhar até os pelos da venta.

Oh Supremo Arquiteto do Universo, oh Deus! O dia se vai embora, mas para os baixinhos não é choro nem ranger de dentes, nada de tristeza; nem para os pais é dor de cabeça nem dinheiro jogado fora, pois, deste a chegada do lusco-fusco dentro da tarde amena que ainda anima e bastante me nina a correr dentro da seara do astuto e afoito bem-te-vizinho, além do Vapor de Zuquinha, além dos Seixos dos cajus e das castanhas, dos Ariscos de Virgílio Pedro, detentor de tantas mangas, cajás, jacas, jatobás, bananas, canas caianas e curimbatórias, além dos grudes, beijus e tapiocas da Nova Esperança de dona Tonha de Pepedo, além do Itapacurá do carrego das pitombas, seriguelas, farofas e torresmos lá do sítio de dona Julieta Alves, além das farinhadas, mingaus e canjicas de dona Zefinha de Tio João Pequeno, além do Gado Bravo no laço das Formas, além do Maracujá, dos Gravatás, das vertentes Lagoas Compridas e dos Umbus a bem-apanhar de tamanhas saudades o coração da gente, a fazer transbordar nossos olhos d'água além da seara do rio Joca...

Como em conto de fadas ou na estória da carochinha, a moral existe, o menino esvoaça contente, sobe, vai além do que se pode espiar e ver, o ponto de vista muito depende dos olhos que ainda me ninam, os pequenos entendem como os acordes se dão, juntamente aos sonhos que se vão pela seara de Ângelo Bezerra, os maiores como um simples balão de São João. Multicoloridos balões são como sonhos dispostos numa animada festança, no anarriê do inesquecível senhor Geraldo 'Bita' Anacleto de Souza, em quadrilha a alavancar a alegria pela Várzea de São Pedro Apóstolo.
Ludugero escolhe o que mais se encaixa na varzeanidade, ao seu gosto, tem sempre alguém pronto para lhe fazer apaixonar pela sua mais singela e tão esplêndida terra dos papa-jerimuns e dos babaus de batata-doce com leite de coco, e tem significados esfuziantes, e essa importância de quem a contempla é completa na opinião de quem vê e enxerga o seu interior, recheado de tantas delícias, lumes, perfumes e esperanças novas, sem carecer de ser cabotino.

Além do que se pode enxergar existe luminosidade ganhando o céu de São Pedro e um sonho ganhando um coração ou vice- versa nos dois casos: o céu ganha um azulão estrelado, bem alinhado sob o esplendor da estrela Dalva e o coração do menino João maduro Ludugero um sonho acordado a versejar poemas, cantigas, que são acesas coivaras de fogueiras em sonhos...