sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

GALOPE, por João Maria Ludugero

GALOPE, por João Maria Ludugero

Só de manjar a lida,
Não furtarás minha cor
Encarnada, de rio que estua
Em violenta correnteza astuta,
Apeada ao lusco-ofuscado desejo.
Se és recusa: Sou caçador de jasmim.
Se me persegues na intenção do drible,
Estou de sentinela em fuga.

Não dou minha alma cativa!
Colhido em pleno e ávido disparo,
Não dou vazão a cabresto nem espora,
Se curva o pescoço a égua da felicidade,
Em puro sangue ao desapego se rasga
E abre a veia da vida em desvairado galope
De arrebatar até os assanhados pelos da venta!

MEU LUGAR NO INTERIOR: MINHA VÁRZEA!, por João Maria Ludugero

MEU LUGAR NO INTERIOR: MINHA VÁRZEA!, 
por João Maria Ludugero

Em que rua larguei minha alma,
Em que becos, em que casa caiada
Em que leito debrucei meu corpo 
E a que horas do dia ou da noite parti 
O coração contra minha vontade? 
Por que razão as circunstâncias me levaram 
Para longe da minha Várzea amada, 
E a saudade, essa saudade latente 
Passou a ser abundante no meu peito, 
Só por causa desse lugar 
Que não se acaba em mim. 
Sinto saudades, sim, não nego, 
Das coisas boas que vivi... 
E ora a solidão que habita em mim 
É tua ausência que brilha na tarde 
Ao lusco-fusco do céu de Brasília. 
Apenas sinto um receio, de fato, 
De tudo ser igual doutra maneira. 
E o medo de que a vida seja isto: 
Um hábito quebrado que não se reata, 
Senão noutros lugares que não conheço.
Careço deitar em teu colo minha Várzea,
Só pra aliviar meu coração do enfado!

DE SOSLAIO, UM POEMA À PUTA VIDA, por João Maria Ludugero.

    
DE SOSLAIO, UM POEMA À PUTA VIDA,
por João Maria Ludugero.

Ainda não beira o anoitecer,
Mas já estais lá a rodar tuas alças 
A mirar os passantes da corte, de soslaio,
Quando jogas teu corpo desnudo, de salto alto,
E a alma sem ti, de pano de fundo
Perpassa entre o cetim encarnado
E o meio-fio da rua
De uma esquina de bar
Entre vitrines, néons e o barulho dos carros
A derrapar nas curvas sinuosas
Pelas vias de paralelepípedos,
Só para espreitar tuas perfumadas tetas.
E lá estais a carregar teus fardos,
A rodar a bolsa ao pulso de desafiar a sorte
E nem sabes mais que cor teriam teus sonhos,
Posto que varas madrugadas a dentro, 
Sem mais notares que ainda há uma lua no céu
Quando submissa, triste e solitária
Retornas a ti, após tentares vender amor,
E recebes tua paga, em troca, 
Após teres sido possuída por um 'solidário'
Que teu rosto beija como a uma estátua. 
Abraça-te a nudez e, simplesmente, é como falo,
Feito um cachorro no cio te lambe toda até o sapato,
De frente e verso, a fundo te ama, abusa, 
Te faz de gata e o diabo a quatro por dois ou mais, 
Te usa e lambuza, e até reclamas de consolo
Ao te acusar de que poderias ser menos santa, 
Depois vai embora sem olhar pra trás!

ESPLENDOR, por João Maria Ludugero

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
                                                                      ESPLENDOR,

por João Maria Ludugero

Ao amanhecer,
Abrace-se mais demorado,
Alongue o corpo e o espírito
Abra-se com as janelas,
Desabotoe-se com as cortinas
E deixe o fascínio do sol entrar
Devagar pelos poros, 
Pelas veias, capilares e narinas
Até a sentença das sombras se dissipar
Na presença dessa intensa luz
Que acenderá a aquarela
A iluminar todos os vãos da casa.
Agora, toda iluminada a mente,
Deixe sua vida correr solta,
Parecendo uma criança alada
Com raios de sol em sua trança,
Com o sol a contemplar sua dança
Livre de toda e qualquer amarra,
Ao som de uma solene cantiga 
Que só toca dentro da sua cabeça, 

E que só conduz ao mais completo êxtase!