quinta-feira, 16 de outubro de 2014

VÁRZEA-RN: MEU GOSTOSO AGRESTE, por João Maria Ludugero.

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
VÁRZEA-RN: MEU GOSTOSO AGRESTE,

por João Maria Ludugero.

Não só de manjar na lida,
Mas bem sei que guardo
o travo na minha língua
De todo os gostos de eu menino levado da breca...

O gosto das pitangas, dos tamarindos e do cajá-manga
Lá do Maracujá e dos Umbus da Várzea das Acácias...
Umedecidos pelo sereno do Vapor de Zuquinha
O gosto das pitombas, das jabuticabas e dos canapus
O gosto dos cajus e das mangas do Itapacurá
Amadurecidos pela seara dos Ariscos e Seixos
O gosto dos juás e dos gravatás,
Das canas-caianas e das melancias
Cultivadas no roçado à beira do rio Joca.

Trago na boca o sal da paçoca
Das carnes de sol, dos torresmos
De dona Rosa de Seu Antonio Ventinha lá da rua da Pedra...
De bolo-preto, de raivas, carrapichos e das soldas de dona Carmozina.
Nunca esqueço da farofa misturada com cebola, farinha e manteiga-de-garrafa!

Sinto o cheiro das batatas-doces assadas
Nas labaredas de fogão-de-lenha...
O cheiro de escaldado! De coalhada
O cheiro de dos queijos-de-coalho
O cheiro de maxixee de buchada
O cheiro de jerimum caboclo
O cheiro de cuscuz com ovo
O cheiro de tapioca com coco
O cheiro de café coado no pano
De café torrado com rapadura
De puxa-puxa e quebra-queixo,
De peito-de-moça, brotes, sequilhos
De bolachas regalias de Plácido 'Nenê Tomaz' de Lima...

DIA-APÓS-DIA, AMANTES DA POESIA por João Maria Ludugero

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
DIA-APÓS-DIA, AMANTES DA POESIA
por João Maria Ludugero

Haja vista não seres um sanhaço só
Flor engirassolarada partindo ao lilás da tarde laranja
E desde então, vislumbro que és Kiro-menina-poeta-andaluz


Ou um pássaro amante em eufórica cantiga,
Quiçá um pintassilgo ou bem-te-vizinho,
Mesmo assim dá pra manjar que tu tens asas
Sem que vás cortando lumes que não esbanjas
Dentre as onze-horas multicoloridas ao Sol...

Sem que desanimes ao lusco-ofuscante crepúsculo
Pela brisa que amena me nina a correr dentro e alto
Com essa luz que levas nas mãos o jasmim-manga
Que outros seres em destemidos tô-fracos viverão,
E sendo assim adejada pelo afoito colibri astuto
Bem soube que crescia dentre gostosos néctares
Como a alma de flor encarnada na compostura
Sem que sejas, enfim, exaurida ao banho de lua
Sem que se atentes buscar, incitante e alada,
Em conhecer a vida além das quatro bocas
Em rajadas destemidas em cores e essências,
A assanhar até mesmo os pelos da venta...

E desde então tens as asas libertas, sem fojos ou algemas,
Sou e somos singelos, possantes e dourados seres
E por amortecer as dores da bendita seara da lida
Serei... Serás...Seremos, sem sombra de dúvidas,
Pra sempre imortalizados eternos amantes da vida!