domingo, 3 de abril de 2011

DENTRO DE UM LIVRO A FLOR










Dentro de um Livro a Flor
Autor: João Maria Ludugero


Eu te achei dentro de um livro
Te descobri esquecida 
A marcar uma página
Solitária flor seca
Tu que um dia foste vívida
Uma rosa vermelho-carmim
Ora desidratada, perdeste a cor.
Mas já tiveste brilho e vida
Um dia por um instante, exposta 
Fizeste parte de incertas promessas.
É de praxe toda rosa nascer flor em botão,
Ávida, num galho dentre outras rosas
Encarnadas por entre duros espinhos.
Hoje, encardida, fazes parte do pretérito.
És o restante do que teria sido ramalhete
Ora sobras guardadas dentro das páginas
De um velho livro manchado, num canto,
Doado por alguém ao rol do sebinho,
Quiçá por algum coração despedaçado,
Largado na estante d'uma sala-de-estar qualquer
Que só existiu, por indícios, na minha imaginação.
Achei  a ex-flor junto a traças que o tempo criou
E um desbotado manuscrito amarrado à fita,
Encontrado, por acaso, ainda legível. 
Atrevi-me a ler, de curioso, o que trazia
O bilhete alheio, que cogitava, amiúde:
"Pelo pouco que durou,
preciso te ver de novo."
Virei a página, de súbito,
Chega de folhear os mortos,
Os mortos do arquivo anônimo.
Ah, ia me esquecendo, tem mais,
Havia ali um papel de bala,
Salvo engano, se não me falha
A memória, era de bombom
Sonho de valsa da lacta
Ou seria mais um sonho de garoto?
Devolvi o livro ao devido lugar.

Soprei a poeira, lavei as mãos
E pensei na Maria das Graças,
Aquela rosa menina-moça faceira
Que um dia vestida de chita
Me enfeitiçou na rua dos baleiros.
Não fui longe, despertei do sonho, 

E logo veio com toda força a ventania  
E levou com ela, o tal 'para sempre agora'.
Eu disse adeus aos velhos pensamentos,
Deixei-os ir com o vento que levou as juras
Em coloridos papéis de bala azedinha.
Só tem um detalhe que deve ser levado
Em consideração: Como nada dura eternamente, 
Para sempre só fica a imagem que se congela 
No definitivo arranjo do coração.