segunda-feira, 23 de julho de 2012

ATÉ O TALO!, por João Maria Ludugero


Zefinha tem um sorriso doce.
Ela vê poesia até 
no talo das hortaliças. 
Não faz corpo mole na lida, 
pega cedo no pote, na rodilha. 
Vai até o salobro rio Joca 
apanhar água na cacimba. 
Antes toma banho de cuia, 
Despe sua alma de flor 
ao sol do dia de domingo. 
Ensaboa-se enquanto chupa canapu. 
Sua pele da cor do pecado 
bronzeia a cor do dia, ávida. 
Sua boca pura pimenta-carmim. 
Logo fico doido, doidinho 
só pra furtar seu olhar... 
Chamar sua atenção, 
mas ela me rouba a cena, faceira. 
Eu só volto pra casa, contente 
pro resto da semana, na mão 
levando as sobras das abobrinhas 
e dos jerimuns de pescoço. 
Se falo, ela faz tchimbum 
no rio das jias e caçotes...
E a sagaz perereca abre a boca afoita 
e engole até o talo, de súbito, 
a coaxar no riachão.

A CHUVA CAI, por João Maria Ludugero

A chuva cai na Várzea... 

O poema molhado 
no chão ainda respira.
Uma leva grudada ao solo vai ao Vapor
e outra almeja o riachão que a escorre
A chuva traz mais vida 
ao riacho do mel 
enquanto semeio 
palavras de amor
E o amor versado do outro lado 
do rio Joca faz o agreste verde aparecer.
A chuva cai na Várzea das Acácias 
e o poeta de braços abertos 
a exalta, encantado,
molha a face, comemora 
a esperança que ora se renova
além das quatro bocas 
que bebem do seu poema
sendo levado com elas como aquarela.
Cheia de céu, a chuva cai 
e o sol pronuncia
seus raios amarelos, 
seus elos aquecidos,
sob a terra nua a se vestir 
num porvir de flores.
Meu poema segue, 
encharcado, mas legível
e então posso lapidá-lo 
varzeanamente
como uma preciosa joia.